BREVE NOTA SOBRE A EXPEDIÇÃO SAGARANA

“Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade.”

- Guimarães Rosa, em “Grande Sertão: Veredas”

Era início de tarde nalgum dia da primeira metade do findando ano de 2016, quando o amigo Julièder Meneghini buzinou em frente a minha casa, com sua motocicleta apta a trilhas de alto grau de dificuldade. O convite: uma cachoeira no município de Monte Sião-MG, a Cachoeira do Coqueiral, que ainda me era desconhecida. Após um bom trecho de estrada de chão, cruzando o belo bairro rural dos Forões, tomamos um banho de cachoeira e aproveitamos o aspecto visual daquela bonita paragem. Após, resolvemos prolongar o passeio até a cidade de Monte Sião, intencionando uma visita ao Museu Histórico e Geográfico. Ao chegarmos, o Museu estava prestes a fechar; porém, devido à benevolência de Letícia Bernardi, funcionária do Museu e que estendeu seu expediente em uma hora, pudemos conhecer o local através de uma visita guiada. Entre ferramentas agrícolas, documentos e camisas do Oscar, monte-sionense ilustre e ex-jogador da Seleção Brasileira de Futebol, o amigo Julièder reparou num livro lá exposto, em cuja capa havia um sujeito enfiando a mão numa enorme rachadura no solo. O título: “Expedição Sagarana”. Achei interessante, curioso, bacana, etc. Dias depois, descobri que o Julièder havia anotado o endereço de e-mail do autor do livro, José Claudio Faraco, e marcara com ele um encontro num bar em Monte Sião, e que eu estava escalado para aquilo que imaginei ser só mais um “passeio”. Junto dos amigos Gabriel Mantelato e Gabriel Burani, resolvemos acampar na véspera no belíssimo Morro do Cruzeiro, em Itapira, e no dia seguinte seguimos por estrada de terra até Monte Sião, não sem antes passar novamente pela Cachoeira do Coqueiral e lá tomar um banho, atitude adequada antes de qualquer encontro que seja. Apresentáveis, encontramos Claudio Faraco no boteco, e é aí que começa nossa história de fato.

José Claudio Faraco é professor de geografia aposentado, espeleólogo, fotógrafo e muitas outras coisas. Entre cervejas e cigarros de palha, conhecemos um homem detentor de profundo conhecimento, teórico e empírico, sobre o Brasil. Nós, que também nos arriscamos a viajar, encontramos nele uma inspiração. Mesmo já tendo viajado 8 mil km pelo sertão do Brasil, junto dos amigos Gabriel Burani, Álvaro Roque, Matheus Antonino e Renan Brandão, num clima meio Árido Movie (filme de Lírio Ferreira, 2006), perto de Claudio Faraco me senti um leigo, alguém que só conhece as bordas de um Brasil profundíssimo. Ele nos prometeu um exemplar de seu livro, coisa pouco simples, pois a obra, cuja edição fora bancada em sua maior parte pelo próprio autor, já estava esgotada.

No encontro seguinte, Claudio finalmente nos presenteou com um exemplar da “EXPEDIÇÃO SAGARANA: Uma aventura de 25 mil km pelo Sertão” (2010, 230 páginas). A leitura voraz da obra me revelou um Brasil que eu só ouvira falar, o Brasil das corrutelas (pequenos vilarejos distantes dos grandes centros), das estradas de chão batido, do silêncio imperioso, de um tempo que passa na velocidade da brisa quase inexistente num ar abafado, e não na corrida contínua das máquinas da civilização ocidental. Nas palavras do monte-sionense Ivan Mariano Silva, no magnífico prefácio ao livro, “enquanto a cidade grande é História, a corrutela é lenda, forjada vagarosamente, ao compasso da natureza.” Eu conheci um pouquinho do Brasil das BR’s, um Brasil horrível e maravilhoso, onde a pobreza está à mostra, assim como os pontos turísticos. Esse país de micropovoados que nos é apresentado por Claudio Faraco é muito maior em extensão territorial e belezas naturais intocadas pelo turismo predatório, mas também em descaso e desmandos do poder público.

Era o ano de 1988, três rapazes nativos de Monte Sião, embebidos de Guimarães Rosa e Paulinho Pedra Azul, a bordo de uma Veraneio 1972 batizada de Albertina, partiram numa jornada de 6 meses e 25 mil km, 7 mil deles em estrada de terra, sem celular ou GPS, seguindo os passos da heroica Coluna Prestes, a mais extensa marcha de forças armadas da história do Brasil. A epopeia de José Claudio Faraco, José Alexandre de Oliveira Bernardi e Ronaldo Fioravanti Jaconi (os dois últimos infelizmente já falecidos) é de causar inveja a qualquer amante das viagens e do saber. Para se ter uma noção, 25 mil km é um trajeto maior do que a viagem de ida e volta de Marco Polo, pela Rota da Seda, de Veneza à China, estimada em 24 mil km. Após muito estudo, tendo como principal referência o grande livro do secretário da Coluna, Lourenço Moreira Lima, “Coluna Prestes: marchas e combates” (1945), foi definido o percurso mais aproximado ao dos revoltosos que se rebelaram contra o governo autoritário de Artur Bernardes, entre os anos de 1924 a 1927. Prestes ainda não era comunista, sendo somente um inconformado com a situação política do país, onde reinava o “café-com-leite” e a ditadura do poderio financeiro, perante a necessidade urgente das reformas de base. (Algo mudou?) Todavia, a posterior adesão de Prestes ao comunismo prejudicou diretamente os nossos expedicionários, pois muitos possíveis patrocinadores desistiam de ajudar a Expedição somente por envolver o nome de Prestes. Assim, com muita coragem e pouco dinheiro, os três rapazes saíram de Monte Sião e foram descobrir o Brasil. Quanto à importância de uma viagem como essa, Faraco é enfático e poético. “Percorrer o país onde você nasceu, gigante e indômito, com seus milhares de quilômetros de caminhos, trilhas e veredas, enveredando destinos adversos, inóspitos, acolhedores, despojados de asfalto, de metrópoles e hotéis faraônicos é, ainda hoje, uma emoção tão forte como redescobrir uma nação povoada por mais de uma centena de milhões de habitantes e, ainda assim, repleta de segredos. É desvendar a magia dos seus mistérios revelada aos poucos, confidenciada aos sussurros a nossos ouvidos pelo vento quente que agita os buritizais e brinca de roda com a poeira das estradas. Enfim, um privilégio a que poucos se dão conta”.

A Expedição Sagarana utilizou-se de uma boa tática para conseguir gasolina e estadia, por meio de ofícios ou diálogos diretos com as prefeituras das cidades por onde passavam. Comumente, quando havia recursos, eram ajudados e muito bem recebidos, afinal, no interior do Brasil, eram “estrangeiros”, e sua passagem um acontecimento. Passaram por muitos lugares, como as chapadas Diamantina, dos Veadeiros e dos Guimarães, localidades muito belas e zonas de turismo internacional. Porém, também passaram por Salto de Yucumã, Cavernas do Peruaçu, Serra Geral, Raso da Catarina, Serra da Petrovina e o cemitério ao estilo bizantino de Mucugê, zonas desconhecidas da imensa maioria dos brasileiros; todos esses lugares são descritos a partir da duplicidade entre o físico e social, além de fotos onde podemos vislumbrar, mesmo que por meio da representação, o aspecto dessas regiões. As fotos são elementos importantíssimos no livro, afinal, é por meio delas que verificamos a precisão das descrições feitas.

Claudio Faraco, além disso tudo, contrariando a historiografia produzida pelos vencedores, resgata muitos fatos completamente negligenciados da história do Brasil, como a Guerra do Paraguai, de Canudos, a Batalha do Jenipapo e o incidente com o Césio 137. Ainda esboça a tradução, a partir do tupi, dos nomes das localidades nomeadas em tal língua, atestando a superioridade dos indígenas em nomear as coisas a partir de seus predicados evidentes. Outro elemento de real importância na obra é o fato de trazer à luz a sabedoria de pessoas desconhecidas, como Serapião, sulista participante da Coluna, que foi viver com os índios e junto deles aprendeu a medicina, ou Binômino da Costa Lima, intelectual autodidata versado em inúmeras ciências, o tipo de gente que havia na época de Goethe e que hoje, na era dos especialistas, virou pretérito. Durante a Expedição Sagarana algumas coisas importantes aconteceram nos grandes centros, donde as notícias não eram transpassadas imediatas até os vilarejos, como a queda de Pinochet no Chile e a derrota de Paulo Maluf para Luiza Erundina em São Paulo, fatos comemoradíssimos pelos expedicionários quando ficaram sabendo.

“Expedição Sagarana” ainda relata as idiossincrasias dos viajantes, as paixões vividas nas cidades por onde passaram, os conflitos internos, os vislumbres de um país melhor e os atestados de uma nação sem futuro. A obra foi publicada com Ronaldo Jaconi, o “Ganso”, ainda em vida; Zé Alexandre já havia falecido, e seu diário de viagem foi consultado por Claudio durante a escrita do livro. O trecho a seguir, retirado do diário de Zé Alexandre, é um termômetro das preocupações ocorrentes durante a Expedição. “Meditação sobre projetos futuros, apesar das várias tentativas de fuga a psiquiatria volta a pulsar como uma necessidade. Estudar e planejar os próximos passos, para a criação de uma psiquiatria da libertação como gênese na realidade material dos povos do Terceiro Mundo.” Ora, o projeto, infelizmente irrealizado, do médico psiquiatra Zé Alexandre seria certamente o projeto de vida de um Glauber Rocha, se este fosse um clínico da mente.

“Somos os fragmentos da história, projeções da alma universal em busca de sua verdadeira identidade.” Um leitor qualquer poderia creditar tal frase a Hegel, mas é de José Carlos Grossi, o “Kuaia”, também montesionense, em seu posfácio ao livro. O livro, por ser tão regional e adentrar às raízes do Brasil, torna-se universal. Daí o nome, emprestado do livro de contos de Guimarães Rosa, “Sagarana” (1946). Saga, vocábulo de origem nórdica, é epopeia; rana, do tupi, coletivo. Saga-rana, epopeia coletiva. Já na nomenclatura está contido o elemento universal da viagem, do relato, da vida. Dou novamente a palavra a Zé Alexandre. “A Expedição Sagarana, nas Trilhas da Coluna Prestes, foi uma grande saga, um campo aberto e indefinidamente infinito. Até quando? Lugar de trilhas, lutas, pesquisas, histórias, caminhos e descaminhos, nosso, de Prestes, de Rosa e de todo povo brasileiro. Uma grande saga em busca de nossas raízes e angústias. Saga poética e coletiva: Sagarana.”

Grata surpresa o altíssimo nível da intelligentsia monte-sionense, culta, profunda e radical. Apesar disso, Claudio Faraco encontrou enorme dificuldade para publicar seu livro, cuja tiragem foi pequena e que hoje está esgotado onde quer que se procure. Nossas editoras só querem saber de projetos lucrativos, desprezando o conhecimento sério e radicalíssimo produzido por gente sem titulação nem “contatos”. Cobram o olho da cara de um professor de geografia aposentado no ensino público para reeditar uma obra de tal alcance! O livro virou artigo de museu, e foi no museu que o amigo Julièder descobriu essa maravilha, uma das obras mais penetrantes e multidisciplinares sobre o Brasil profundo que eu já tive o privilégio de ler. Como não sou daqueles que suplicam ao poderio financeiro por migalhas, venho por meio desta breve nota, dadas as proporções monumentais do livro, apresentar ao leitor um pouquinho dessa história, e tentar despertar em quem lê o apetite para as buscas mais profundas. Para terminar, uma última e feliz citação do poeta Kuaia, numa crônica em homenagem aos 20 anos da Expedição Sagarana. “Para os viajantes é que foram feitas as mariposas das janelas, a saudade das namoradas e os contos de fadas. Porque os viajantes não existem em quatro paredes, em escritórios de ar condicionado com secretárias pálidas, de pernas cruzadas. Para os viajantes existe o mundo, os becos, os botecos de viola e a poesia dos apaixonados.”

* Alberto Sartorelli, 22, é estudante de filosofia e escritor.

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