O velho e o novo: análise psicológica do conservadorismo no Brasil contemporâneo

- Alberto Sartorelli*

E a única forma que pode ser norma

é nenhuma regra ter

é nunca fazer nada que o mestre mandar

sempre desobedecer

nunca reverenciar.

- BELCHIOR, Como o diabo gosta

Em artigo para o jornal O Estado de São Paulo no dia 5/10/2017, intitulado “Intervenção, legalidade, legitimidade e estabilidade”, o general da reserva Luiz Eduardo Rocha Paiva escreve o seguinte:

A intervenção militar será legítima e justificável, mesmo sem amparo legal, caso o agravamento da crise política, econômica, social e moral resulte na falência dos Poderes da União, seguida de grave instabilidade institucional com risco de guerra civil, ruptura da unidade política, quebra do regime democrático e perda de soberania pelo Estado. […] Em tal quadro de anomia, as Forças Armadas tomarão a iniciativa para recuperar a estabilidade no País, neutralizando forças adversas, pacificando a sociedade, assegurando a sobrevivência da Nação, preservando a democracia e restabelecendo a autoridade do Estado após livrá-lo das lideranças deletérias. São ações inerentes às missões constitucionais de defesa da Pátria, não restrita aos conflitos externos, e de garantia dos Poderes constitucionais, da lei e da ordem. […] Na verdade, só o STF e a sociedade conseguirão deter o agravamento da crise atual, que, em médio prazo, poderá levar as Forças Armadas a tomarem atitudes indesejadas, mas pleiteadas por significativa parcela da população.”

Não vale nem a pena comentar a passagem que o general define o governo brasileiro dos últimos 13 anos como “socialismo radical”, nem a que diz que o STF é uma corte confiável e que seu presidente Gilmar Mendes goza de credibilidade. A questão levantada no texto é a de que a situação política brasileira beira o caos e, mesmo que “ilegalmente”, as Forças Armadas podem agir para restabelecer a “ordem”. Me pergunto o que seria “neutralizar as forças adversas”, senão o que já foi feito entre 1964 e 1985, período da história do país manchado pela censura, exílio e perseguição de opositores, com o mesmo argumento de “limpar” o país da corrupção e do espectro do comunismo, e restabelecer a democracia e o sentimento de “Nação”. A Ditadura Militar foi corrupta e autoritária até a alma, e em termos “econômicos”, aumentou exponencialmente a dívida externa como nunca antes. É risível que alguém acredite de fato que as Forças Armadas conservem uma fortaleza moral disponível para salvar o país em momentos de crise. Um golpe militar nada mais seria do que a troca de um governo ilegítimo por outro, ambos apadrinhados pelo empresariado e distantes de um projeto de país que visa diminuir a desigualdade social.

O tom do artigo do general é de não de constatação, mas de propaganda. Acredito que haja alguma parcela da população que se posiciona a favor de uma intervenção militar, mas duvido muito que seja a maioria (como também não era em 64). O artigo, assim como os discursos pró-intervenção rapidamente e massivamente disseminados, dizem mais sobre a vontade dos poderosos do que sobre a vontade do povo. Mas há, sim, uma parcela da população que os apoia, apesar de, nesse hipotético contexto, correrem o risco de perder poder de consumo e liberdades individuais. Essas pessoas já tem seu candidato, para caso o golpe militar não dê resultado: Jair Bolsonaro, com seu conhecimento pífio de gestão e ideias pré-renascentistas, disseminadas por uma propaganda avançadíssima nos meios virtuais. O que há de anômalo, agora sim, na psiquê das pessoas que defendem tais pautas, e que também são eleitoras?

O filósofo Theodor Adorno assim descreve o homem de personalidade autoritária:
Em contraste com o fanático de velho estilo, esse último [o homem de personalidade autoritária] parece combinar as ideias e habilidades típicas da sociedade altamente industrializada com crenças irracionais ou antirracionais. Ele é ao mesmo tempo esclarecido e supersticioso, orgulhoso de ser um individualista e sempre temeroso de não ser igual aos outros, ciumento de sua independência e inclinado a se submeter cegamente ao poder e à autoridade. [ADORNO, A Personalidade Autoritária]

Ora, o autoritário não é capaz de ser livre sozinho, ele precisa participar de algo maior, ser parte de uma totalidade, mesmo que isso custe sua própria liberdade. Isso soa irracional. Desamparado, já que sua estrutura psicológica não se basta e precisa de amparo, o homem moderno inclina-se ao fanatismo religioso da época das Cruzadas, que explica e fundamenta a barbárie diária que ele comete e de que é acometido; ao fanatismo político, vendo em figuras políticas isoladas a forma do próprio pai; e ao nacionalismo anacrônico, projetando num ideal nefasto de país a unidade e uniformidade de uma população diversa, e por isso violentada.

O fanatismo religioso é um fenômeno mundial, que assola países e destrói famílias: não eram estes os baluartes do conservadorismo, a nação e a família? Pois bem, é de se espantar que, num mundo altamente racionalizado, haja uma legião de neopentecostais ultraconservadores com um número enorme e pouco saudável de cadeiras no Congresso brasileiro, proferindo o que há de mais retrógrado em questão de Direitos Humanos e liberdades individuais. E esse discurso é aceito porque, à deriva em meio ao caos das crises recorrentes, o cidadão se apega a valores seculares e explicações do mundo que acalmam seus conflitos e lhe fornecem certezas. Aproveitando-se dessa situação, conservadores religiosos alimentam suas pregações de discursos reacionários, utilizando-se das Escrituras como querem e sem o menor critério, e assim transformam uma massa de fiéis em massa política para ser manipulada ao bel prazer dos controladores.

Em relação ao fanatismo político, a situação é parecida. Os conservadores possuem duas vias: o golpe militar e a eleição de seu candidato, que dissemina o ódio contra minorias e, não só mas também por isso, claramente inapto para o cargo de presidente de uma nação tão múltipla.

Considero a sobrevivência do nacional-socialismo na democracia como potencialmente mais ameaçadora do que a sobrevivência de tendências fascistas contra a democracia. A corrosão por dentro representa algo objetivo; e as figuras ambíguas que efetivam o seu retorno só o fazem porque as condições lhes são favoráveis. [ADORNO, O que significa elaborar o passado]

O campo dito “progressista” deposita todas as suas esperanças na eleição do salvador da pátria, o ex-presidente cheio de relações promíscuas com o empresariado e com o que há pior da política nacional; os ditos “progressistas” apostam num retorno à “era de ouro” dos 8 anos de governo Lula. Esse fenômeno, em suas duas facetas, se dá pela impossibilidade de se pensar um país livre, idealizando o paliativo como resolução fixa. O homem atual não é capaz de arcar com sua liberdade, por isso abre mão dela e deposita-a em figuras específicas. Não é capaz de refletir sobre a estrutura nefasta da democracia burguesa, e acha que mudando um ou outro as coisas podem melhorar. Impossibilitado psicologicamente de ao menos vislumbrar uma vida autônoma como ator político livre, o homem de personalidade autoritária necessita ser conduzido, carece de lideranças; projeta em seus políticos preferidos e escolhidos entre um álbum de figurinhas parecidas a figura do próprio pai.

A democracia não se estabeleceu a ponto de constar da experiência das pessoas como se fosse um assunto próprio delas, de modo que elas compreendessem a si mesmas como sendo sujeitos dos processos políticos. Ela é apreendida como sendo um sistema entre outros, como se num cardápio escolhêssemos entre comunismo, democracia, fascismo ou monarquia; ela não é apreendida como identificando-se ao próprio povo, como expressão de sua emancipação. Ela é avaliada conforme o sucesso ou o insucesso, de que participam também os interesses individuais, mas não como sendo a unidade entre os interesses individuais e o interesse geral; e, de fato, a delegação parlamentar da vontade popular torna esta muitas vezes uma questão difícil nos modernos Estados de massa. Na Alemanha, ouviremos com frequência dos próprios alemães a estranha afirmativa de que eles ainda não estão maduros para a democracia. A própria falta de emancipação é convertida em ideologia, tal como o faz a juventude que, surpreendida em qualquer ato de violência, procura se livrar apelando à sua condição de teenager adolescente. [ADORNO, O que significa elaborar o passado]

O nacionalismo surge, então, como discurso potente. A unidade da nação como uma grande família era uma ideia que parecia ultrapassada, ainda mais no capitalismo globalizado; todavia, ganha força sempre que as crises abalam as condições materiais de um país, e que sua população não esteja psicologicamente preparada para superar democraticamente essas tensões.

Ele [o nacionalismo] é tão raivoso justamente porque nesta época de comunicações internacionais e de blocos supranacionais já não é mais tão convicto, obrigando-se ao exagero desmesurado para convencer a si e aos outros que ainda têm substância. [ADORNO, Educação após Auschwitz]

A grande Nação, como um corpo, é sempre acometida de problemas. Eis que surgem as perseguições. Se um corpo vai mal, tomamos remédios para expurgar o corpo dos microrganismos invasores, ou mesmo restabelecer uma correlação de forças saudável para sanar o male. Acham que com a nação é a mesma coisa. Quando vai mal, alguém é culpado: no nazismo, os judeus; na nossa Ditadura, os comunistas. Se os judeus não existissem, os antissemitas teriam que inventá-los. [ADORNO, O que significa elaborar o passado] O bode expiatório é quem paga pelo insucesso de uma nação de líderes incompetentes e povo submisso. O bode expiatório pode ser qualquer um. Num país onde as mulheres e a população negra, indígena e LGBT são exterminadas diariamente, muitas vezes pelo próprio Estado, parece que o bode expiatório já está decidido mesmo antes da dita Nação existir: toda postura libertária será condenada, quando chegar o momento de se “neutralizar as forças adversas em prol do restabelecimento da ordem”. Isso já acontece, e um golpe militar ou vitória de um fascista irá acentuar essas perseguições. Foi eleito um fascista como presidente das Filipinas, que prometeu exterminar todos os usuários de drogas do país, e dar carta branca à população que entregar ou mesmo matar um usuário; o país padece em guerra civil. O Egito hoje condena homossexuais. É para esse estado de coisas que queremos caminhar?

Theodor Adorno escreveu suas teorias sobre o fascismo e a personalidade autoritária na metade do século XX. Se suas teorias continuarem atuais, e continuam, é indício de que ou não avançamos, ou de que estamos retrocedendo. A barbárie continuará existindo enquanto persistirem no que têm de fundamental as condições que geram esta regressão. [ADORNO, Educação após Auschwitz] Quem ganha com isso são os donos das grandes multinacionais, que poderão explorar sem nenhum pudor em nosso país a natureza e as pessoas. É esse o ideal de nação que tanto se almeja? Queria que fosse brincadeira, mas não é.

É preciso redefinir a estrutura política de nosso país, para que vivamos numa verdadeira democracia, sem os imperativos do capitalismo global nem de forças conservadoras retrógradas que ameaçam a democracia. É precisa repensar inclusive o próprio Estado enquanto legislador único e, por isso, unilateral e violento. Na medida em que colocamos o direito do Estado acima do de seus integrantes, o terror já passa a estar potencialmente presente. [ADORNO, Educação após Auschwitz]

A intenção deste texto não é culpabilizar a população pela adesão à barbárie. A intenção é fazer com que as pessoas tomem consciência de suas escolhas. E a partir do momento em que há consciência, pode haver culpa. Você, conservador ou mesmo petista que leu esse texto, está disposto a ser testemunha da barbárie ou a arcar com sua própria liberdade?

* Alberto Sartorelli, 23, é estudante de filosofia e escritor

REFERÊNCIAS

- ADORNO, A personalidade autoritária

https://bibliotecasocialvirtual.files.wordpress.com/2010/08/adorno-introducao-a-e2809ca-personalidade-autoritariae2809d.pdf

- ADORNO, Educação após Auschwitz

https://rizomas.net/arquivos/Adorno-Educacao-apos-Auschwitz.pdf

- ADORNO, O que significa elaborar o passado

http://www.primeiraversao.unir.br/atigos_pdf/225_.pdf

- ROCHA PAIVA, Intervenção, legalidade, legitimidade e estabilidade

http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,intervencao-legalidade-legitimidade-e-estabilidade,70002027984