RESENHA DO LIVRO “VIOLÊNCIA, MAS PARA QUÊ?”, DE ANSELM JAPPE

Há algum tempo me caiu às mãos um pequeno livro que é uma verdadeira obra-prima. “Violência, mas para quê?” (Hedra, 2013), de Anselm Jappe, afetou-me de modo catártico. Explico o porquê.
 Tenho notado os esforços de alguns intelectuais brasileiros, principalmente após junho de 2013, em tentar compreender a inédita forma de organização dos novos movimentos sociais. Aqui em São Paulo, destaco as figuras dos professores Vladimir Safatle e Pablo Ortellado, este último proximamente alinhado a esses novos movimentos, e que já foi até acusado por gente conservadora de assassinato indireto, por tentar compreender o fenômeno dos black blocs. As análises e atuações desses dois intelectuais demonstram uma tentativa de compreensão heterodoxa do presente político. Em meu solitário e árido esforço de tentar acompanhar as tendências organizacionais dos movimentos insurgentes, Safatle e Ortellado tiveram importância decisiva, principalmente ao apontarem os modos de reação do Estado a essas tais insurgências antissistêmicas.
 Uma breve gênese: o tema da repressão veio novamente à tona, primeiro com a criação da Comissão da Verdade, com o fim de desvelar os crimes da ditadura militar (mesmo que não punindo-os, como foi feito na Argentina); já foi um avanço muito significativo. Desvelar as estruturas de um governo autoritário é um processo de decisiva importância, afinal, tornamo-nos capazes então de identificar o que delas ainda permanece. Com essa ampliação de compreensão, temos consciência maior da gravidade da repressão policial ordenada pelo Estado que os movimentos sociais vêm sofrendo nos últimos anos. É nesse contexto que me deparo com o livro de Anselm Jappe, filósofo de origem alemã e professor na França, que toca em algumas questões que nos são importantes hoje. Sobre a postura intimidadora dos policiais, diz Jappe:

“Basta insinuarmos [a um policial] a mínima objeção, por menor que seja […] para nos sentirmos prestes a ir para a prisão, ou levar golpes de cassetetes ou, finalmente, recebermos a acusação de “resistência frente à força pública”. (JAPPE, Violência, mas para quê?, p. 8)

Esse foi o desenrolar de uma tendência anteriormente apontada por Adorno e Horkheimer:

“Não é fácil falar com um fascista. Quando o outro toma a palavra, ele reage interrompendo-o com insolência. Ele é inacessível à razão porque só a enxerga na capitulação do outro” (ADORNO e HORKHEIMER, Dialética do Esclarecimento, p. 174).

Essa instabilidade jurídica, que dá margem à arbitrariedade, é um diagnóstico de nossa “democracia”. Como processo sempre inacabado, a democracia necessita de uma pluralidade de forças, interesses e modos de ação para desenvolver-se. Jappe ressalta que o processo supostamente democrático institucionalizou-se de tal maneira que qualquer manifestação que fuja aos clichês instituídos pelos donos do poder é vista como violência.

“Toda e qualquer oposição à política das instâncias eleitas que vai além de um abaixo-assinado ou de uma carta ao deputado local é por definição “antidemocrática”. (JAPPE, p. 14)

Tal ausência de possibilidades de contestação, restando apenas as já assimiladas e geridas pelo status quo, mostra um Estado que se quer definitivo, único senhor do jogo (partindo do diagnóstico da convergência entre poder estatal e grande empresariado).

“Hoje, faz-se de tudo para tornar impossível uma mudança de direção.” (JAPPE, p. 25)

O Direito, tomado como discurso de classe, é um dos ardis para a manutenção do Estado capitalista como única experiência política possível. Para tal, Jappe retorna aos primórdios do movimento operário.

“Em sua fase ascendente, o movimento operário se colocava essencialmente — e era colocado por seus adversários — fora das leis da sociedade burguesa. Ele bem sabia que as leis não eram neutras, mas promulgadas por seus inimigos”. (JAPPE, p. 28–9)

Mais do que totalitário, o Estado tornou-se totalizante, trazendo para a sua esfera as lutas sociais, na possibilidade de geri-las. A institucionalização dos movimentos de esquerda reduz sua pulsão transformadora, ocasionando a infeliz divisão da esquerda entre democratas e radicais.

“Ao mesmo tempo em que as lutas sociais não visavam mais à instauração de uma sociedade totalmente diferente, limitando-se a ser apenas uma negociação acerca da distribuição do valor, o “respeito às regras” tinha se tornado costume na esquerda e marcava a linha fronteiriça em relação às minorias “extremistas”. (JAPPE, p. 29–30)

Jappe vê como ação política válida e possível a sabotagem, como a queima de plantações de transgênicos, desligamento de equipamentos biométricos e impedimento da circulação de trens. O Estado teme a sabotagem.

“Eles [o Estado] preferem a violência aberta e o terrorismo: é o terreno deles”. (JAPPE, p. 32)

Outros dos temores do Estado capitalista são as organizações horizontais, sem líderes. Acostumado à verticalidade — por ser organizado hierarquicamente -, o Estado teme, acima de tudo, tudo aquilo que não pode controlar. A professora Camila Jourdan foi presa pelo aparato repressivo do Estado brasileiro, acusada de ser uma das líderes de um grupo que armava um atentado à Copa do Mundo na cidade do Rio de Janeiro. Camila, assim como Jappe, compreendeu a impotência do Estado em lidar com os novos movimentos políticos, que não por repressão violenta. É o que diz em entrevista à Folha de São Paulo.

“Existe uma necessidade de se fabricar líderes para essas manifestações. E quem se encaixa muito bem no papel da mentora intelectual? A professora universitária. Cai como uma luva, entendeu?” (Entrevista de Camila Jourdan à Folha)

Vladimir Safatle bem ilustra o absurdo da repressão aos movimentos sociais, descrevendo a narrativa sensacionalista e ridícula inventada por jurisprudentes sem caráter. Seu artigo foi publicado na revista Carta Capital, revista esta que já teve um exemplar físico apreendido como prova do caráter subversivo de um manifestante. (Engraçado o fato da mesma Carta Capital ter como colunista Delfim Netto, ministro da Fazenda e responsável pelo “milagre econômico” no governo militar).

“Nesse exato momento, dezenas de manifestantes estão presos ou foragidos por se indignarem contra os gastos da Copa do Mundo, a miséria de nosso sistema político e o caráter lastimável de nossos serviços públicos. Segundo a polícia, eles preparavam um grande ataque, com direito a bombas, assassinatos de policiais, megadepredações, em suma, o caos. Sim, a mesma polícia que mais tortura, da América Latina, que costuma fazer pessoas simplesmente desaparecerem na representação ontológica do nada (como o senhor Amarildo), que foi filmada infiltrando-se em manifestações a fim de insuflar violência, que ficou famosa pela mistura de ineficiência, truculência e barbarismo agora vem à imprensa dizer que descobriu um complô formado por advogados, professoras de Filosofia e ativistas para criar o mais fantástico ato terrorista da Nova República. Em seus inquéritos, ela acusa de “formação de quadrilha” pessoas que nem sequer se conheciam e faz apelo à vidência para afirmar que agiu de maneira preventiva para evitar o pior. As gravações telefônicas, ao menos as apresentadas pela imprensa, são de fragilidade aterradora.” (SAFATLE, Violência de Direito)

A mídia mostra mais uma vez sua capacidade de criar ideologia — dos modos mais absurdos e ridículos, como apontar Bakunin como suspeito no inquérito. Já fizeram isso no ano passado. Outra grande sacada de Jappe é a que os movimentos antissistêmicos sempre podem ser assimilados e esvaziados. Rememoremos com pesar as últimas e massificadas manifestações em junho de 2013, com gente média reacionária expulsando partidos das ruas e comemorando a conquista como se fosse sua, marginalizando a base que leva bala da polícia há anos e que, na hora de seu protagonismo, foi ostracizada.

“O caráter emancipatório de um movimento de oposição, mesmo começando em boas bases, nunca é garantido — haverá sempre o risco de queda num “populismo” que “supera qualquer clivagem esquerda-direita””. (JAPPE, p. 41–2)

O texto de Jappe é muito esclarecedor. É claro que ele não dá conta de todas as questões, muito menos questões tão específicas quanto as nossas, mas há esboços interessantes sobre as novas tendências, tanto de novas organizações políticas quanto do atualizado aparato repressor do Estado. É uma grande contribuição à nossa compreensão daquilo que passamos e que estamos passando. Se a filosofia é como a coruja de Minerva, que só alça voo ao alvorecer, filósofos como Jappe, sem sobressaltos teóricos e prezando pela
precisão, ao menos se esforçam para seguir na cola da coruja e não deixá-la escapar à visão.

Alberto Sartorelli

Referências:

ADORNO, T. E HORKHEIMER, M., Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro, Zahar, 2006

JAPPE, A., Politique sans politique. Consultado em: http://palim-psao.over-blog.fr/article-34525771.html

JAPPE, A., Violência, mas para quê?. São Paulo: Hedra, 2013

SAFATLE, V., Violência de Direito. Consultado em: http://www.cartacapital.com.br/revista/810/violencia-de-direito-2435.html

Entrevista de Camila Jourdan à Folha de São Paulo: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/07/1492074-acusada-de-articularatos-violentos-professora-diz-que-inquerito-e-ficcao.shtml

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