O fascínio do espírito

A espiritualité, como dizem os franceses, é algo que vem deixando intrigados ou mesmo impressionados os sujeitos sociais ao longo da história. Desde a época da predominância dos deuses da mitologia grega (conjunto de histórias míticas celebrado por muitos até aos dias de hoje) no imaginário do homem ocidental, passando pelas indulgências que marcaram a vida de muitos cristãos na Idade Média e que tornam tal época até hoje associada aos liames do obscurantismo e chegando até os magníficos e polêmicos templos da fé, o cultivo de algo que muitos afirmam nos ser intrínseco tem constituído parte relevante da complexidade que marca a passagem do homem pela Terra, especificamente o seu modo de se relacionar com o meio externo, tendo em vista que as mediações corpo-espaço podem variar significativamente e trazer à tona uma série de modelos de afirmação interior que se refletem em panoramas econômico-culturais bastante específicos. Basta para isso notar de que maneira sejam as religiões abrâamicas sejam os cultos orientais tem gerado práticas e fios de relacionamento cada qual a seu modo.
Tem se dito bastante, inclusive em seitas religiosas mais seculares, que nós enquanto sociedade nos modernizamos significativamente no último milênio. É notório que avançamos na medicina, na filosofia, na produção das leis, na economia política, na arte ou mesmo nas demais esferas que compõem o conhecimento humano. No entanto, a busca do nosso objetivo comum (a felicidade) tem se tornado cada vez mais distante com o passar dos tempos. Guerras foram deflagradas, doenças que antes eram inimagináveis se propagaram em larga escala (apesar de muitas terem sida erradicadas), as inseguranças material e imaterial se exponencializaram, bem como emergimos em um meio de ilusão que nos fez crer que a conquista do progresso técnico-científico seguida por uma difusão em massa das possibilidades de consumo nos faria atingir um nirvana com o qual os antigos jamais sonharam. Isso se deve ao fato, de acordo com um argumento religioso bastante pitoresco a depender do olhar do observador, de que nós temos nos afastado significativamente do cultivo desse mesmo espírito que nos seria elementar.
Com os sucessivos processos de secularização na modernidade, corpo e mente entraram em primeiro plano. Essas alas que nos compõem no entanto seriam insuficientes para dar conta do encontro de nós consigo mesmos. Há um descompasso interno enorme diante disso, na medida em que crenças de toda sorte sempre constituíram parte elementar da vida social. Não à toa outros articulistas afirmam que o surgimento das ideologias políticas a partir do século XIX e de certos discursos de proteção às minorias e ao meio ambiente no século XX são na verdade substituições das religiões em determinados meios, já que regulações discursivas produzidas nas igrejas teriam sido eliminadas gradualmente pelo processo de racionalização, dando lugar a novos constructos de enquadramento dessa vez não mais provenientes de revelação divina ou processos similares. Há quem diga que na verdade o culto à espiritualidade, e aqui me refiro a um elemento comum a todas as religiões, que até hoje fascina a muitas pessoas, não passa de um campo que não encontra sustentação e veracidade devido à falta de comprovações científicas que tem sido expostas desde sempre.
Por outro lado, cânones do pensamento físico e de outras ciências naturais tem alegado que na verdade os pesquisadores da área caminham cada vez mais no sentido de dar de cara com o espírito enquanto parte constituinte e invisível do nosso corpo (as investigações realizadas mais recentemente assemelham o espírito/alma com a mesma densidade de certos tipos de plasma) ou mesmo com a ideia de um criador, que na verdade seria a junção das leis que governam o universo em todos os seus contornos. Cristãos, judeus, budistas etc. de um lado, ateus, agnósticos e alegados humanistas de outro. Questionamentos e mais questionamentos de ordem cultural tem sido postos não só para acadêmicos mas também para leigos no assunto que muitas vezes não dão conta de explicar certas experiências divinas ou espirituais passadas por alguns e certa incredulidade extrema e fundamentada de outros. Hoje é comum ver que os espaços do credo e do não credo transpassaram os textos de notórios teólogos ou cientistas evolucionistas (detentores de uma postura ateia em sua maioria) e já fazem parte do cotidiano pseudo dialógico das redes sociais. Uma virtude proveniente da democratização do saber proporcionada pelas novas tecnologias.
Independente de posturas que negam comportamentos individuais mais espiritualizantes, energizantes ou de ligação com um Criador, ou mesmo que apontam uma série de problemas sócio políticos que os enquadramentos hierárquicos religiosos possam gerar, o certo é que aquilo que não conseguimos captar na nossa experiência imediata e visível constitui um dos pilares dos nossos hábitos culturais, das nossas práticas afetivas, da maneira como interpretamos os fatos na sua generalidade. Em regra, não percebemos essa influência a todo instante, mas um olhar mais aprofundado sobre a história nos mostra que de alguma forma a revelação divina apregoada por alguns, principalmente se essa estiver inserida no âmago das principais práticas de determinada sociedade (como é o caso do catolicismo romano ou protestante no Brasil), impacta profundamente nos detalhes das nossas identidades pessoal e nacional. Debruçar-se sobre isso requer atenção e desprendimento, ainda mais se os nossos olhos cansados resolvem não só compreender os impactos, mas mergulhar na prática continuada da religiosidade. Contudo, é para a maneira como o modus operandi religioso/espiritualizante constrói o papel social da religião que aqueles que refletem sobre os destinos da nossa civilização devem estar atentos.
