Quem são os intelectuais?

“O intelectual é alguém que se intromete naquilo que não lhe diz respeito e que pretende contestar o conjunto das verdades existentes e as condutas inspiradas nessas verdades, em nome de uma concepção global do homem e da sociedade”.

(Jean Paul-Sartre)

É um mistério, afinal, que guarda o termo “intelectual”. Trancafiado em bibliotecas, por horas e horas a apreciar, com uma boa dose de delongas, livros em série, empoeirados, quase que numa espécie de transe irritante, geradora de reflexões e de cultura. Sujeitos obstinados, amantes do conhecimento, que passeiam desde o tempo perdido de Proust, passando pelos relatos de um viajante chamado Darwin e chegando até as idiossincracias normativas de Rawls, o reconstrutor das explicações de todo um sistema. Sim, um intelectual lê os demais. A tradição histórica e teórica legada por várias gerações que o antecederam, em um conjunto formador do espaçoso e infinito conhecimento humano, compõe o seu cânone de apreciações, de aparência civilizatória e legitimadora, material e simbolicamente, ainda mais em sociedades desiguais como a nossa, onde a simples interpretação de textos feita de modo correta é uma capacidade efêmera ou mesmo bastante restritiva. O intelectual, portanto, e em seu tempo produz discursos, forma opiniões, produz conhecimentos, estimula ímpetos e faz acontecer.

O parágrafo acima, na verdade, é um contrassenso produzido intencionalmente pelo colunista. Descreve o estereótipo moderno do intelectual. O sujeito aprisionado à exegeses e debates infindáveis, com o qual o senso comum (também uma forma de conhecimento do mundo) identifica o exercício do intelecto e o confunde seja com o acadêmico seja com qualquer outro especialista, principalmente se sua especialidade for uma dedicação stricto sensu às subversivas humanidades. Seria ele aquele que pensa, e não que produz. Seria o que fala, quando lhe é dado o momento certo após as reflexões corretas. Seria o que tergiversa sobre uma série de assuntos que abrangem a ampla cultura geral dessa invenção retórica chamada “Ocidente”. Logicamente, há os intelectuais do Sul global ou do Oriente, mas suas formas de abstração estão mais próximas da cálida sensualidade e do exotismo que os “ocidentais” lhes atribuíram. O intelectual é também facilmente descartável, porque incômodo a lógica mercantil que nos circunda e que não requer questionamentos; tudo bem, há os intelectuais do status quo.

Divididos em correntes, afiliados teoricamente ou historicamente, os lemos de maneira dispersa ou organizada nesses textos com os quais nos deparamos — para aqueles que tiveram o privilégio de se deparar com tais figuras. Causam torpor, porque pelo menos desde as Luzes, tem buscado dar justificativas racionais para as suas mitificações, mistificações e modelos. Se não há predomínio da racionalidade padrão, diz o construtor coletivo oculto das imagens fixas e internalizadas, não é possível haver intelectualidade. Ela é a atividade do sumiço, um tanto egoísta pelo prazer que a aquisição dos conhecimentos os trazem e pelos mecanismos que lhes dão para manter-se calados diante da boçalidade argumentativa reinante, solidificada com base na indústria de respostas prontas a qual Adorno se referia no pós-guerra. Ou mesmo para exercitar a fala, em uma conexão de intermediação entre cérebro e voz, que mais parece a fuligem de uma erudição derrapante que se embate no seu conjunto, procurando o retorno de referências que pareceram ficar meio perdidas no caminho do “pensar”.

Não, não é uma descrição surrealista. E aqui entra a imagem do intelectual com quem de fato é o intelectual. Embora atribuamos essa alcunha aos grandes pensadores que influenciam as nossas instituições — todas, não só as políticas, por favor* — há milênios transcorridos, fala-se do intelectual como uma figura da contemporaneidade, surgido em fins do século XIX, quando os “cientificistas” se regozijavam na narrativa do progresso de Hegel. Por volta do Caso Dreyfus — marcado pela injustiça contra um judeu que residia na França — um grupo de pensadores por toda a Europa resolveu demonstrar sua solidariedade engajada à figura da vítima que estava sendo esgarçada como ré. Intelectuais seriam esses**, na acepção original, que longe das efusões e dos requintes derivados da apreensão refinada, crítica e transformada e da discussão elevada com seus iguais (evita-se pares, para não soar acadêmico demais) como únicos meios de ação e de existência, também eram aqueles os que estavam vocacionados a elevar o espírito através do conhecimento e demonstrar posturas engajadas em relação ao mundo que habitavam.

O intelectual, por consequência, não é apenas o engravatado, das hostes das grandes universidades, de Salamanca a Cambridge, ou de Harvard a USP. Ele pode estar em qualquer esquina, com sua erudição suprimida pelas circunstâncias, mas que, quem sabe, nem a morte é possível lhe tirar, tamanha as graças que lhe foram internalizadas após longos processos de estudo e de aventura em uma estrada larga e perigosa, que pode causar dores terríveis e iluminações tenazes. O intelectual está para todos os gostos; talvez tenha perdido sua função com o aparecimento da figura do carreirista acadêmico profissional, que longe do engajamento que lhe dava sentido original — com agudas e raras exceções — é a mulher ou homem que transcende o mundo dos comuns para única e exclusivamente dar respostas em seus campos (e imaginem esses como Bourdieu os descrevia) fechados ao público, que nada tem de respeitável à torre de marfim. O intelectual “alternativo”, porém, resiste. É ele que descendo dos centros de privilégio reconhece a legitimidade de outras formas de conhecer e ocupar uma sociedade.

*Afinal, como ouvi de um professor assim que entrei na universidade: “instituições não são prédios, são práticas”. Oxalá, os intelectuais, com a importância que tem, contribuam diariamente para muda-las. Poucos o tem feito, muitos tem decepcionado.

**Durkheim e Émile Zola com sua denúncia dos erros judiciários do Caso Dreyfus no jornal Aurore em 1898 — dando início à “chamada missão intelectual” — são dois dos formadores da tradição intelectual francesa engajada.

Sobre o caso Dreyfus, ver de forma didática: https://www.estudopratico.com.br/o-caso-dreyfus/

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Dreyfus, Émile Zola e a literatura engajada. Versificados cultural. Disponível em: http://versificados.com.br/dreyfus-emile-zola-literatura-engajada/. Acesso em: 13/08/2017.

Bourdieu, Pierre. O campo político. Revista Brasileira de Ciência Política, n.5. Brasília, janeiro-julho 2011, pp.193–216.

    Alberto Luis Araújo Silva Filho

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    Politólogo e Sociólogo por vocação, Cinéfilo e Leitor de Romances nas horas vagas, Poeta nos momentos de delírio e Perplexo com o mundo a cada segundo.

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