8 horas diárias de insatisfação


Meu pai trabalhou em uma repartição pública por 40 anos. Amava o seu trabalho. Lidava com papéis, você sabe, coisas burocráticas. Havia se formado em Administração e resolveu fazer concurso público. Ganharia bem e teria estabilidade. Casou-se com minha mãe logo depois, os dois namoravam desde a época do colégio.

Nasci no dia 01 de abril de 1985. Foi uma festa só. O filho varão nascera, o garanhão da família, o mancebo “pelo qual as mulheres morreriam de amores”.

Minha vida estava praticamente planejada. Se Deus havia me concedido o livre-arbítrio, meu pai fez logo o “favor” de veta-lo. Eu deveria seguir seu exemplo: formar-me em um curso respeitado e prestar concurso em busca de salário fixo e, acima de tudo, estabilidade.

Não demorou muito para que a decepção do patriarca começasse. Todos os cursos que mereciam o respeito de meu velho estavam associados à matérias como matemática, física ou química. Justo as matérias nas quais eu era péssimo. Graças e esse fato não passei em nenhuma universidade pública, forçando o coroa a pagar uma particular.

Fiz os quatro anos de Ciências Contábeis com insatisfação e dedicação. Mesmo estando insatisfeito, decidi que não queria decepcionar meu pai mais do que já havia feito. Formei-me aos 22 anos e prestei concurso. Passei entre os 10 primeiros.

Todos os meus amigos tinham empregos semelhantes: salário fixo e estabilidade por toda a vida. Nenhum deles reclamou. Os seus pais, assim como os meus estavam orgulhosos.

Por que só eu estava incomodado com a minha situação? Afinal, eu possuía um bom emprego. O salário aumentaria conforme o tempo de serviço. Não tinha o que reclamar. Pelo menos não de dinheiro.

Chegava na repartição pontualmente às 7:00. Saia às 16:00. Eram oito monótonas horas de trabalho. Todo santo dia.

Observava meus colegas trabalhando como uma horda de robôs pré-programados. Faziam o seu trabalho sem pensar, sem questionar. Sequer paravam para tomar um café ou mesmo falar. “Como conseguem?”, eu me perguntava.

Após anos eu permanecia infeliz e insatisfeito. Odiava o meu emprego e meus pais, mas não mais do que a mim. Eu fui o negligente. Me submeti à vontade de gente que sequer perguntou o que eu desejava ser ou fazer. Me curvei frente ao medo de envergonhar um pai que decidira tudo por mim e uma mãe negligente.

No fim, eu fiz jus à data do meu nascimento e tornei-me o maior mentiroso desde então. Menti para todos ao meu redor. Menti para quem não merecia ser enganado: eu mesmo.

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