era uma daquelas confraternizações da alta classe. homens e mulheres bem vestidos, falando sobre negócios e bens materiais recém adquiridos. eu não aguentaria aquilo sem beber. encostei no bar e de lá não saí durante boa parte da festa. não me sentia parte daquela gente e só estava lá a convite de um grande amigo; a única coisa que os “endinheirados” e eu tínhamos em comum.

já me levantava pra ir embora quando a vi entrar. destoava de tudo e todos que estavam ali. usava um vestido azul todo desgastado nas extremidades e tinha o esmalte das unhas descascado. os cabelos eram tão negros quanto o canto mais escuro do espaço. fiz o possível para que ela não percebesse o misto de nervosismo, espanto e interesse que senti.

ela aproximou-se do bar e sentou bem ao meu lado e então pude sentir o seu perfume. era tão forte que achei que todos os pelos do meu nariz fossem cair num só golpe. todo o meu olfato havia desaparecido, mas minha audição captou quando ela disse “quero o que você tiver de mais forte” ao garçom. não sei o porquê, mas sua voz soou como se estivessem tocando Mahler dentro da minha cabeça. eu não sabia se saia correndo ou se puxava conversa. permaneci imóvel.

perguntei-me como uma simples mulher, mal vestida e com as unhas ruídas “desarmou”qualquer possível investida de um cara como eu, tão acostumado a flertar e conversar com as mulheres mais bonitas da cidade. a minha noção de superioridade em relação a todos os outros homens e o meu machismo evaporaram com o meu suor. converti-me no mais inexperiente adolescente e pensei que, definitivamente, não tinha nada de especial; nada de diferente.

o único ser humano especial ali era ela.

SOARES, Milton. A morte do último canalha de Todos os Santos.

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