Na esquina da infância

A criança que você foi teria orgulho do adulto que você se tornou?

Acho que foi maior porrada na cabeça que já havia levado. Droga de assaltantes.

Despertei do desmaio com um garoto me cutucando.

— Moço, você está bem? — perguntou o garoto assustado.

— Acho que sim. Me leva até o meio fio pr’eu poder sentar — pedi.

Apoiei-me um pouco em seus pequenos ombros e deixei que me guiasse. O rapazinho me olhava com um certo terror. Talvez porque estava com sangue escorrendo da têmpora e do supercílio esquerdo. A camisa estava praticamente encharcada.

Sentia dor, muita dor. Estava ensaguentado. Até os meus pulmões doíam, mas curiosamente não me sentia acordado.

Olhei à minha volta para saber onde estava. Tudo remetia à minha infância, tudo: as casas, as árvores… As pessoas e as crianças, principalmente. A rua estava movimentada e ninguém parecia nos perceber ali.

Me voltei para o garoto.

— Então, qual é o seu no… — daí me dei conta. Não havia como estar acordado. Aquele fedelho sentado ao meu lado, assustado e curioso era eu mesmo. Eu!

Tudo parecia mágico, ao mesmo tempo terrível e perturbador.

De repente o moleque deu um salto e correu na direção de um senhor de idade, conversaram algo e então vieram até mim. Era meu avô paterno. Na hora fiquei inerte.

— Tá machucado, rapaz? O que foi que aconteceu?

— Fui assal… tado — custei a responder.

— A uma hora dessas, num sábado? Parece que os tempos estão ficando cada vez piores.

— Consegue ficar de pé? Vou te levar até lá em casa pra poder fazer um curativo.

— Obrigado — sorri agradecendo.

Reparei que em frente a casa do idoso, no outro lado da rua, estavam um Fusca laranja e um Chevette vermelho estacionados. O UNIVERSO estava querendo alguma coisa com tudo aquilo e eu estava tentado descobrir o quê.

Instantes depois me encontrava na casa em que fui criado, com meu já falecido avô limpando meus ferimentos e ao meu lado, ninguém mais, ninguém menos, que eu mesmo em forma de infante.

— Vou pegar um remédio muito bom pra isso. Chama-se…

— Anapyon — completei.

— Ah, você também usa rapaz? O Aldinho tem pavor porque arde — riu.

Olhei para o meu pequeno Eu.

— Quantos anos tem, garoto?

Fez “sete” com as mãos.

— O que o senhor faz da vida? — perguntou meu avô.

— Eu estudo Biblioteconomia e trabalho em uma biblioteca.

— Curso superior?

— Sim, sim. Curso superior. 3º grau.

— Isso é bom pra não ser barnabé. Vivo dizendo isso pro Aldo. Tem que estudar pra não ser empregado de comércio, pra não ficar sofrendo atrás de balcão.

Lembrei que mesmo me apoiando em tudo o que já quis ser, meu avô desejava que eu fosse piloto da FAB ou engenheiro.

— E o que ele que ser quando crescer?

— No fundo, acho que ele não sabe. Mas gosta muito de desenhar.

— Muito bom, hein rapaz! — disse fazendo um cafuné no meu jovem alter-ego.

— Mostra seus desenhos pro moço, Aldo!

O meu Eu moleque foi em direção ao quarto e puxou uma caixa de papelão que ficava embaixo da cama. Tinha desenhos de todos os tipos. Peguei um por um e analisei com tremenda saudade. Incrível como algumas lembranças ficam na nossa cabeça sem que saibamos como acessá-las.

— Podia ser desenhista quando crescer, sabia?

O garoto sentou na cama de molas com uma expressão de indagação.

— E eu posso ser?

— Você pode ser o que você quiser — menti.

— Mas como eu posso ser o que eu quiser se nem sei o quê ou quem quero ser?

Dei uma risada.

— Então, amiguinho, você tem uma imensa vantagem sobre os outros nesse sentido — quase não pude conter a satisfação em responder.

— Meu avô veio até o quarto.

— Mostrou os desenhos pro moço?

— Acha que ele pode ser desenhista? — perguntou, levando a criança ao colo.

— Olha senhor… Ele pode ser muitas coisas, mas também pode não ser. Nem sempre somos o que queremos ou o querem para nós. Na vida acho que passamos por muitas coisas. Talvez ele fique meio perdido e bata cabeça por aí, mas eu aposto que em cada uma dessa batidas ele vai achar algum bom amigo e vai tirar da situação algum bom aprendizado. A vida é muito mais do que ser, é aprender também. E isso ele não vai poder deixar para trás nem se quiser.

O rapazinho pareceu feliz com o que havia acabado de ouvir.

— Bem, eu tenho que ir. Obrigado por me deixarem na casa de vocês enquanto me recuperava. Foi por pouco tempo, mas pude aprender alguma coisa também— sorri sinceramente.

— Tudo bem, rapaz. Quando puder, apareça.

Dei um abraço forte nos dois e tomei meu rumo. Olhei para todos os cantos, queria saber como saia daquela situação onírico. Sabia que existia uma rua transversal àquela na qual cresci. O movimento de carros era intenso.

Tentei atravessar num só impulso, mas, por descuido, uma camionete abarrotada de livros me atropelou.

Uma semana depois eu acordaria. No tempo presente, com fortes lembranças do passado e nenhum medo do futuro.

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