Світлана Няньо / Китицi (1999)

Tudo o que cerca Світлана Няньо [Svitlana Nianio] é um digno de elogios, tão desconhecida quanto talentosa, dona de voz angelical emmulti-instrumentista. A grande escassez de informações acerca dela é incômoda mas também é um charme a parte para esse disco, seu único trabalho solo e um clássico do folk progressivo, recheado de influências de música regional, a onda etérea dos anos 80, minimalismo e trabalhos de vanguarda, principalmente aqueles que se desenvolveram nos anos 60 e 70 nos Estados Unidos.


Uma das vozes mais bonitas que você vai ouvir, mas que provavelmente não vai entender. Svitlana Nianio é uma figura carimbada, guardadas as devidas proporções, no cenário musical do leste europeu. Sua primeira aparição foi na bandaЦукор Біла Смерть [Cukor Bila Smert’], formada em Kiev, capital da Ucrânia, em 1988. Com o Cukor Bila Smert’, um conjunto de música pop, basicamente, mas um pop nada convencional, Svitlana era responsável pelos vocais, piano e teclados, onde lançou dois álbuns: o excelente “Манірна Музика (Manirna Muzyka)” de 1990 e o menos conhecido “Selo” em 1993, além de uma compilação em 1999. Seu próximo trabalho conhecido foi uma parceria com o músico Oleksandr Yurchenko, com quem trabalhou em 1995, lançando o disco “Знаєш як, розкажи”, outro clássico que um dia eu pretendo escrever sobre, um sensacional e claustrofóbico disco avant-folk, muito mais sombrio que seus outros trabalhos. Mas antes de desaparecer, como vários gênios já apresentados aqui — leia-se Takashi Mizutani, do Les Rallizes dénudés — ela desapareceu do cenário musical, não antes de lançar seu único trabalho solo (do qual eu tenho conhecimento, ao menos), “Kytytsi”, em 1999.

Lançado pela polonesa KOKA Records Records, “Kytytsi” se difere muito dos outros trabalhos de Svitlana. Ao contrário da música mais pop que encontramos no Cukor Bila Smert’ e da sombria parceria com Oleksandr Yurchenko, seu disco solo é muito mais “alegre”, se é que podemos dizer isso, afinal, não consigo entende uma palavra cantada por ela. Nesse disco, gravado no estúdio Dźwięków Niemożliwych em Varsóvia, em 1998, Svitlana é responsável pelos vocais, sintetizadores, piano elétrico, harmônio (uma espécie de órgão sem tubos, com som de acordeão) e flauta, acompanha dos músicos Serhij Chotiaczuk e Bolesław Błaszczyk, que completam a instrumentação com guitarras, percussão e violoncelo. A lista de instrumentos, acompanhados da voz angelical de Svitlana, já dão uma pequena ideia do que você encontra no álbum, um som pacífico, etéreo, folk e progressivo, muito bem masterizado e onde tudo aparenta estar no lugar certo, apesar de ser diferente do que normalmente se ouve na música ocidental, principalmente no que diz respeito ao pop.

O disco se desenvolve lentamente, onde cada música é construída em bases mínimas mas que nunca se repetem, e sua instrumentação é feita com extrema competência procurando seguir a linda voz de Svitlana para onde quer que ela vá. “Kytytsi” abre com um dos números mais rítmicos, “Bez tytułu”, apenas na voz e no harmônio, seguido de um dos poucos momentos onde a percussão se faz mais presente, acompanhada de guitarra e suaves arpeggios de sintetizador, na agradável e raro momento de “bater o pé”, “Ptak łowczy”. Apesar de mínimo, o disco possui faixas que se diferem muito entre si, como o pop de câmara, em um duelo entre violoncelo e piano, na faixa “Skąd Nadejdą Goście”.

Apesar de ser um álbum mais “feliz” que o normal para Svitlana, existem alguns momentos de bela melancolia e melodias tristes, como em dois dos grandes destaques, nas faixas “Nieme Przysiółki” e “Kolor Ziemi”. Destacar músicas em um disco tão perfeito é tarefa difícil, mas alguns detalhes se sobressaem em certos momentos, como o piano elétrico de “Spotkanie” e o ritmo que lembra vagamente um tango, algo bem latino, em “Kukulina”.

Uma discografia tão perfeita é coisa rara. Tudo no que Світлана Няньо [Svitlana Nianio] colocou sua mão, ou voz, ganhou dimensões muito grandes em termos de qualidade. Vale a pena cada segundo gasto para caçar essas raridades por aí, seja os trabalhos com o Cukor Bila Smert’, o dueto com Oleksandr Yurchenko ou esse ímpar trabalho solo. Uma pena que seja tão difícil encontrar informações mais apuradas sobre seu paradeiro, outros trabalhos — já li por aí que ela virou professora na Ucrânia — e possíveis discos perdidos, talvez quem entenda o alfabeto cirílico pode conseguir isso com mais facilidade, mas ao se ouvir a música pela música, Svitlana Nianio já ganhou meus ouvidos, e vai ganhar o de quem dar uma chance a ela.

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