Julius Eastman /Unjust Malaise (2003)

Existem centenas de histórias dignas de filmes, documentários e livros no mundo da música. Mais recentemente tivemos o documentário “Searching for Sugar Man” falando sobre a busca de dois jovens sul-africanos por seu ídolo, o cantor folk americano Rodriguez, praticamente desconhecido em seu país de origem, mas muito famoso na África do Sul. Porém, existe uma história que me surpreendeu muito quando li pela primeira vez, em todos os aspectos, seja no lado pessoal do homem em questão, sejam as pessoas com o qual ele estava envolvido e principalmente, por suas composições clássicas modernas de vanguarda, que na época era pioneira em aglutinar elementos da música popular. É uma história longa e triste, mas que merece ser contada e passada adiante. Conheçam o grandioso Julius Eastman.

Ser um compositor, condutor, pianista, dançarino e barítono — tudo isso trabalhando com tendências minimalistas, negro, homossexual e com alguns supostos desvios mentais já seria um desafio nos dias de hoje, imagina então levar essa vida entre os anos 60 e 80 nos Estados Unidos. Julius Eastman, nascido em 27 de Outubro de 1940, sempre demonstrou talento para as artes. Seu porte atlético e energia chegavam a assustar, mas Julius era um homem calmo, gentil e de voz grave, sepulcral. Aos 14 anos de idade começou a estudar piano e logo conseguiu um emprego de corista na Igreja Episcopal de Ithaca, Nova Iorque. Mais tarde se transferiu para o Curtis Institute, onde também transferiu seus estudos para composição, apesar de continuar estudando piano com Mieczyslaw Horszowski. Em 1968 ele entrou na Creative Associates at SUNY Buffalo, o grupo do compositor/condutor Lukas Foss e mais tarde, do mais conhecidoMorton Feldman, onde ele começou a se apresentar com suas próprias composições, como por exemplo, em duetos com o flautista e compositor Petr Kotik.

Além de Morton Feldman, Julius Eastman também teve uma breve e polêmica história com outro grande nome do movimento minimalista, John Cage. Durante uma palestra no mesmo dia de uma apresentação de Cage no primeiro festival June in Buffalo, Julius Eastman, que nunca foi tímido em relação a sua preferência sexual, deu uma palestra falando sobre homossexualidade, onde utilizou um voluntário e uma voluntária da platéia, chegando a despir o homem e tentando despir a mulher, que relutou. No dia seguinte, John Cage reagiu com veemência à palestra de Julius, dizendo que “a liberdade de minha música não significa a liberdade de ser irresponsável!”.

Julius Eastman era uma parte ativa do movimento de vanguarda minimalista que teve início em Nova Iorque nos final dos anos 50, quando La Monte Young e Terry Riley se mudaram para a cidade, e atingiu seu ápice nos anos 70. Inclusive, junto com Riley, Tony Conrad, John Cale (aquele, do The Velvet Underground), Marian Zazeela e outros formaram o Theatre of Eternal Music, o primeiro grupo minimalista que ficou famoso por seus improvisos ensurdecedores, dando nascimento a uma cena chamada de “Downtown Music”, por causa de onde ela ocorria na cidade de Nova Iorque. Esse movimento chamado de “New Music”, que era basicamente mais simples, livre e selvagem do que a música complexa derivada dos compositores europeus do século passado, teve boa visibilidade, incluindo os trabalhos de Julius Eastman que infelizmente não deram retorno financeiro, até a metade dos anos 80, quando as políticas corporativas de Reagan afetaram sua posição como movimento de vanguarda e a música voltou a um estado mais conservador. Julius Eastman então buscou desesperadamente por uma posição como professor, e até teve uma vaga prometida que não se cumpriu posteriormente. Foi aí que sua história entrou em declínio.

Deprimido e sem dinheiro, Eastman caiu no mundo do álcool e começou a fumar crack. Chegou a trabalhar um tempo na Tower Records mas desapareceu repentinamente. Após isso, foi expulso de seu apartamento e todos seus pertences, incluindo prováveis partituras que nunca viram a luz do dia, foram confiscados pela polícia. Passou um tempo morando como mendigo em uma praça perto de onde morava e morreu, sozinho, em um hospital em Buffalo, oficialmente vítima de um ataque de coração. Dependendo de sua fonte, o ataque foi devido a insônia, tuberculose, desidratação, fome, cansaço ou depressão.

No que diz respeito a sua música, Julius Eastman foi um dos pioneiros do que chamam de “minimalismo orgânico”. Esse tipo de trabalhar dentro do minimalismo consiste no uso de elementos prévios em um movimento nos movimentos seguintes, por exemplo, uma repetitiva progressão de acordes tocada no primeiro movimento de uma composição volta a se repetir no segundo, buscando criar uma unidade na obra, trazendo uma riqueza quase pop para obras que geralmente trabalhavam com improvisos.

Seu processo de composição e a maneira como escrevia suas partituras era muito parecido com o de outros grandes compositores como Terry Riley, onde a preocupação com a precisão da mesma não era tão grande, mas era muito focada em dar “direções” para o intérprete, dando até liberdade para o improviso sobre sua própria peça.

Unjust Malaise” é seu primeiro trabalho oficialmente colocado a venda, lançado pelo selo New World Records, em 2005. O nome do disco é um acrônimo de Julius Eastman, que significa algo como um injusto mal-estar, uma descrição muito justa (com o perdão do trocadilho) sobre sua vida, visto que segundo o próprio irmão de Julius disse uma vez que um dos grandes motivos pela história do compositor ter tomado o rumo que tomou foi devido ao grande preconceito dentro da música erudita, seja com um compositor negro, seja com um compositor homossexual.

Essa coletânea reúne algumas poucas gravações com a participação do próprio Julius, seja ao piano, nos vocais ou como condutor. É o trabalho definitivo que retrata várias fases de sua carreira. Desde suas primeiras composições minimalistas como “Stay on It”, gravação de 1973, passando pela ambiciosa e espetacular ‘Nigger Trilogy’, com quase duas horas de duração, composta para quatro pianos (o momento em que Eastman grita “One, Two, Three, Four” não sai da cabeça muito fácil), até chegar em seus trabalhos mais modernos como o “Prelude to The Holy Presence of Joan D’Arc”, solo de voz gravado em 1981. É um disco triplo, longo e impressionantemente, nada cansativo. Seu minimalismo orgânico, que ao contrário de muitos outros trabalhos do gênero, dá a impressão de estar indo a alguma lugar, graças a pequenas inserções aqui e ali, torna as mais de três horas de música aqui presentes, essenciais para apreciadores de boa música.

Graças a dezenas de colaboradores espalhados pelo mundo, jornalistas, amigos e familiares, a memória de Julius Eastman foi parcialmente recuperada e parte, mesmo que pequena, de seu trabalho disponibilizado. É uma honra escrever sobre um ídolo e tentar passar sua memória adiante, mesmo que apenas uma ou duas pessoas venham a se interessar de verdade pelo trabalho de Eastman e talvez pelo movimento minimalista como um todo.