Setenta, de Henrique Schneider

Alê Magalhãaes
Jul 31 · 6 min read

“Aparecer apareceu / Só que numa lista de desaparecidos.” (Nicanor Parra, poeta chileno)

A ditadura militar brasileira não é um fantasma, como muitos de nós pensamos durante um bom tempo. Fantasma a gente bota para correr com reza brava, banho de sal grosso com arruda, defumador. A gente exorciza, manda dizer missa. Usa amuletos, ervas, acende velas. Mas a ditadura militar brasileira não é um fantasma, e isso é porque ela ainda não morreu de fato. Ela está vivinha e andando por aí, de modo cada vez mais ostensivo. Por isso, acredito que é urgente falarmos sobre ela.

Fiz um esforço para lembrar o que restou de memória desse período na minha vida, já que nasci no governo do ditador Ernesto Geisel, substituído pelo ditador João Figueiredo, quando eu tinha 1 ano e meio. Esse aí governou até eu completar sete anos. Durante a maior parte deste período, morei em Realengo, que é uma região periférica do Rio de Janeiro muito próxima à vila militar. Me lembro de, quando era bem pequena, ver os soldados correndo na rua e cantando umas músicas. Gostava de ouvir o som das vozes em uníssono, ia para a janela ver passar aqueles caras de camisetas brancas e shorts verdes, naquele ritmo ditado pelo compasso do canto. As palavras que eles diziam, isso eu não lembro. Outra coisa que é bem viva na minha memória tem a ver com televisão: a semana do presidente da república. Isso passava em um canal que, geralmente, assistíamos aos domingos: SBT. Qualquer semelhança não é mera coincidência. No intervalo de alguns programas, falava-se sobre a agenda pública do presidente, o que ele fez naquela semana, acho até que mostravam algumas imagens, não tenho certeza. As coisas ficam meio borradas, vocês sabem. Tinha também a questão da censura, que passava sempre antes de começar as novelas, mas isso já era em outra emissora. Eles anunciavam o que a censura determinava como idade adequada para assistir a determinados programas. E aparecia uma imagem que era tipo um documento.

Às vezes, imagina-se que a ditadura só atingiu as pessoas que foram torturadas, mortas e desaparecidas, seus amigos e suas famílias. Isso é um equívoco. A ditadura atingiu todos nós, que deixamos de viver de modo livre, democrático, aberto e amplo. A ditadura estava entranhada em cada um dos programas de TV a que assistíamos, a ditadura estava nos carros militares que víamos fechando ruas, a ditadura estava no medo que nossos avós, pais ou nós mesmos sentíamos de falar livremente sobre qualquer coisa. A ditadura estava na perseguição aos professores. Eu trabalhei com um cara que sempre contava que o professor de inglês dele, na época, chegava na sala de aula e falava: “Hoje, teremos aula da língua pátria.” Como uma forma de ironia e também de protesto. Os alunos morriam de medo de sumirem com o professor, porque sempre tinha um dedo-duro na sala, delação premiada com dinheiro, afago no ego ou com cargos, nunca se sabe. Sim, nessa época, havia um grande medo de as pessoas “sumirem”.

Foi isso que aconteceu com o personagem Raul, do livro “Setenta”, do escritor gaúcho Henrique Schneider. O livro, que ganhou o prêmio Paraná de Literatura em 2017, foi relançado pela Não Editora/Dublinense, em 2019. Foi essa edição, com capa verde e amarela, que comprei depois de assistir a uma indicação do meu amigo Rafael Ottati, que é a mente brilhante por trás do ig @elrafa.lit, no Instagram. O modo como cheguei a esse livro dá uma boa crônica do momento político atual e da captura dos símbolos que coincide tanto com o período da ditadura militar. Em princípio, fiquei muito assustada por ver um livro com “essas cores” nas mãos de um amigo, então liguei o áudio dos stories do instagram e vi que (ufa) não precisaria romper mais uma amizade. A capa, ousada para o momento em que estamos, foi obra da talentosa e corajosa designer Luísa Zardo. Se eu passasse por esse livro em outras circunstâncias, acho que até sairia correndo. A que ponto chegamos, senhoras e senhores.

A capa da edição anterior, uma camisa vermelha pingando sangue, também é bastante impactante, só que dois mil e dezessete parece um ano tão distante e um cara no pau de arara no meio da bandeira brasileira é bem mais a cara de dois mil e dezenove. Revela algo que insistimos em não ver e faço questão de repetir: a ditadura atingiu todos nós e ainda nos atinge.

Assim foi também com Raul, que tinha acabado de terminar um relacionamento e resolveu sair naquela noite do dia dos namorados para ir ao cinema sozinho e depois parar num bar para tomar um chope. O que acontece no meio do caminho faz com que ele nunca chegue ao seu destino final. Raul é preso, levado para a delegacia, sem entender muito bem o que estava acontecendo. Ele, que era um cara comum, trabalhava em um banco, detestava os comunistas baderneiros, morava ainda com a mãe e sempre andava na linha, não podia ser. Aquilo era um engano. Bastava que ele falasse com os policiais para que tudo se esclarecesse. Os policiais eram a lei. E a lei era justa. Ele pensava. Só que não foi bem assim o que aconteceu. Raul permaneceu preso durante doze dias. E é esse o tempo narrado nos 22 capítulos do livro, que são abertos com o local, a data e o horário em que a narrativa se situa. Em Porto Alegre, no mês de junho de 1970, entre 12 a 21, bem quando o Brasil estava disputando a Copa do Mundo em que se tornou tricampeão.

O autor maneja a linguagem de uma maneira incrível e deixa o tempo todo o clima de tensão no ar. Algumas cenas são bastante pesadas e descritivas daquilo por que o personagem passou nesse período da prisão. A narrativa também mostra o estado em que a mãe dele ficou e tudo que fez para encontrá-lo, e isso aperta o coração de um jeito que eu nem sei nem explicar. Só bem lá para o meio do livro é que vamos ficar sabendo sobre os motivos da prisão de Raul e compreendemos que todos estavam submetidos ao regime. Independentemente do comportamento, os agentes da ditadura podiam fazer o que quisessem com você, ainda que você fosse um “cidadão de bem”, como Raul era. Acho que é sobre isso que precisamos falar, refalar, narrar, lembrar, dizer, dizer e dizer.

Tenho uma amiga historiadora que sempre insistiu na tecla de que não lidamos nada bem com a memória daqueles tempos, ela sempre comparou o que se fez aqui com o que se fez na Argentina, em termos de lei de anistia e políticas de memória. Eu fiquei pensando que todos os livros de literatura argentina que já li até hoje — não foram muitos, ok — falam, de uma forma ou de outra, sobre ditadura, ainda que esse não seja nem o tema principal do livro, nem a época em que o livro se passa. Há umas duas semanas, assisti a algumas apresentações de pesquisadores brasileiros que falam da relação entre literatura e ditadura no nosso sistema literário. Esse grupo de estudiosos divide a produção literária com temática da ditadura em 3 momentos: o da decorrência dos fatos, o do período que se seguiu ao fim da ditadura e vai até o momento em que se instaura a Comissão da Verdade, quando eles veem que se inicia uma nova fase nessa produção. Talvez, daqui a algum tempo, tenhamos 2019 como um novo marco dessa produção.

É, portanto, urgente que coloquemos nas nossas rodas de conversa esse tema e que se desfaça a ideia de que só quem estava na BALBÚRDIA ou ENVOLVIDO COM COMUNISTAS sofreu nesse período. Naquela época foi o Raul, quem seria nos dias de hoje?

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    Alê Magalhãaes

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    Leitora. Professora. Doutora em Literatura. Administra o instagram literário @literaleblog

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