de manhã, tomas fingiu. não porque fosse poeta, mas pelo medo. pelo medo, acordou pro trabalho fingindo ser capaz de fazê-lo por vontade própria, tentando amenizar o peso da necessidade. tomou banho fingindo se refrescar com a água gelada tocando-lhe o corpo. saiu de casa, comprou a passagem do trem e esperou por 24 minutos na plataforma, para fingir alívio por pegar um lugar, mesmo que de pé, mesmo que com a respiração alheia em seu pescoço; para fingir alívio por pegar um lugar próximo da primeira porta. chegou ao destino com 6 minutos de atraso, e saiu rápido, empurrando discretamente com os cotovelos as pessoas ao seu redor, fingindo que elas não estavam atrasadas também. no intervalo pro almoço, tomas fingiu sentir fome e comeu de sua marmita: arroz, feijão, dois pedaços de carne. fingiu gostar. a volta lhe era um dejavu. olhando pela janela do trem, que já refletia sua imagem fingidamente indiferente pela escuridão do lado de fora, se perguntou se ainda valia a pena. abriu a porta de casa, deitou-se, exausto, no sofá da sala. e dormiu, fingindo esquecer essa dorzinha inútil que lhe fala, quase muda, incessante, dentro do peito.
