O amor acaba

O amor acaba. Essa é uma crônica do Paulo Mendes Campos, pode ser uma rima, certamente é uma solução, inevitavelmente, um fato. Mas quando o amor acaba? É a primeira resposta que a gente persegue quando o que era real se esvai, antes de fincar o cotovelo no balcão do bar, antes do apagar das memórias ruins, antes dos dias em que, mesmo sem querer, passa a odiar momentaneamente o outro que se foi. A jornada atrás dessa resposta é doída, mas a gente embarca. E não encontra.

Porque, hoje em dia, o amor acaba como se acaba com um empreendimento comercial. “Olha, acredito que nossa empresa casal está estagnada, não tenho mais reservas para fazer uma injeção de esperança e talvez seja melhor o amor acabar por aqui antes que comecemos a dar prejuízo”. O amor de hoje em dia precisa cumprir etapas determinadas, planilhas de excel, deadlines, entregas pré-concebidas. Aquela foto famosa da moça esticando o braço para trás e dando as mãos para o fotógrafo, em diversos cenários do planeta, é boa como foto, mas não representa o amor moderno. Pegar pela mão e seguir ao lado de quem se ama não impede que o amor acabe. Porque o amor acaba.

O amor pode acabar no meio de uma curtida numa foto, num descontentamento de um post, no meio de um grupo do zap, na saída do coaching. O amor acaba enquanto se pede a prisão do Lula, o amor acaba e ofusca a lista do Janot. O amor acaba e te deixa sem amparo, como a reforma da previdência. O amor acaba e cada uma das partes leva consigo sua pós-verdade, que será a verdade absoluta de cada um pelo resto da vida. No resto da vida é onde moram os amores terminados, sempre rindo de longe das promessas que fazemos diante do padre.

O amor às vezes não quer acabar, mas o destino se encarrega disso. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a escritora Amy Krouse Rosenthal. Há algumas semanas Amy escreveu um texto absurdamente leve, lindo e apaixonante sobre seus últimos dias na Terra. Estava morrendo, vítima de um câncer de ovário, reuniu forças para escrever sobre seu marido, grande amor, companheiro. E apresenta-lo para sua futura namorada, esposa. O texto chama “Você Pode Querer Se Casar Com Meu Esposo”, foi publicado no New York Times e ela enumera tudo que ele tem de bom, de como é fácil se apaixonar por ele, deixando, no final, alguns parágrafos em branco para que a nova história de amor do seu marido comece. Amy morreu dez dias após a publicação do artigo.

O amor quando acaba, de uma certa forma, mata um pedaço da gente. Morremos um pouco quando o amor acaba. De repente, aquele olhar no porta-retratos, que nos iluminou a cada manhã, já não está mais lá. O cheiro no travesseiro, o barulho do chuveiro. De repente você só precisa de uma xícara para o café, assim, da noite para o dia. Ontem você usava duas e elas ainda estão na pia esperando pela limpeza. Os planos, desejos, vontades, automaticamente são deslocados para o fundo das gavetas. E você já começa a pensar que talvez já esteja velho demais para ter novos planos, vontades, desejos. Quando o amor acaba a gente morre um pouco.

Às vezes o amor acaba e outro diz que ainda te ama, mas que precisa ir embora. É mentira. Quem ama não parte, só porque acha que é melhor assim. É porque já não ama e se falava que ama, já não amava, era protocolar. Não é crueldade dizer isso, mas, sim, um alento. Se apenas falava, mas não amava, era melhor que o amor assim acabasse. Porque o amor acaba. Como diria o mineiro, “no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba”. Recomeçar. É o que nos faz sair da cama.

A ilustração lá de cima é da Eleonora Goretkin.

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