O filme da minha vida. E também sobre a película do Selton Mello

Foto: Globo Filmes

Acredito que o grande poder da arte de “colar” nas nossas memórias ultrapassa análises técnicas. Aquela música que tocava quando você a beijou pela primeira vez. O livro lido num ônibus. O filme que te salvou por duas horas do mundo. Assim bateu “O Filme da Minha Vida”, terceiro trabalho de Selton Mello como diretor. Não importa se aquela música, o tal livro, esse filme são perfeitas obras-primas de conceito e realização: o que importa foi que elas serviram como cereja ou mertiolate naqueles instantes. “O Filme da Minha Vida” teve esse poder. Pelo menos sobre mim.

Sexta-feira. Frio. Chuva fina. O dia começando com a chance de amor se arrumando para dar adeus. Se arrastou pelas chateações corporativas e orçamentárias de praxe. Quatorze horas depois de ter caído da cama com o cérebro ainda se recuperando da quantidade de álcool e fumaça ingeridos na noite anterior, tudo que foi consumido com um ligeiro rótulo de “alimento” foi um misto-quente vadio numa padaria vagabunda. E ainda por cima, Luiz Melodia morreu, um dos cardeais da minha igreja. Não parecia haver espaço para a poesia. Isso mudou após a sessão das 21h50.

Não sei o que Selton Mello passou. Vejo, vez por outra, manchetes em sites de notícia onde o ator/diretor fala de momentos difíceis, de depressão e tal. Gosto do Selton como diretor e como ator, escolhi tentar entender o que lhe apertou o calo através das suas atuações e direções. Aprecio esse exercício, aguça meu olhar em cada obra. Além disso, seja lá o que aconteceu, depois disso Selton refinou seu olhar para as relações humanas. E como as pequenas histórias, do dia-a-dia, do sertão ao frio gaúcho, podem ser universais. São essas pequenas histórias, no cinema, na literatura, ou contadas ao pé do ouvido numa mesa de bar que me atraem. Selton sabe cada vez mais como contar essas histórias. Vou ficar sempre de olho, se fosse você faria o mesmo.

“O Filme da Minha Vida” salva logo de cara, com a fotografia poética de Walter Carvalho na Serra Gaúcha. São takes, enquadramentos, olhares de tirar o ar. Vem a trilha, incrível, certeira, clássicos franceses, blues. E o filme. Conta a história de um francês (Vincent Cassel), que misteriosamente abandona mulher (Ondina Clais, fantástica, um assombro a cena em que ela demonstra saudade e vontade) e filho (Johnny Massaro) e supostamente embarca para França natal. Completam o cenário Bruna Lizmeyer como a namorada do protagonista; Bruna Arantes como Petra, irmã da personagem de Bruna e o próprio Selton Mello como Paco, velho amigo do pai e por consequência da família abandonada. O filme é baseado no livro “Um Pai de Cinema”, de Antonio Skármeta (autor também de “O Carteiro e o Poeta”), que faz uma ponta hilária no filme. Bem, isso é tudo que você precisava ter de informação. O resto eu não conto. Vamos ao arrazoado.

Foto: Globo Filmes

“O Filme da Minha Vida” se encaixou na prateleira de “favoritos da casa” porque conseguiu, falando de tudo que me assombrava, me proteger durante duas horas dos meus fantasmas. E isso é raro hoje em dia. Selton também havia conseguido isso com “O Palhaço”, talvez seu melhor filme até agora. Quando uma peça de arte te abstrai da realidade (a razão de ser do cinema, mas tão raro), te acompanha até em casa, dialoga contigo enquanto você abre uma garrafa de vinho, procura as taças, pensa se finalmente come ou não alguma coisa substanciosa, ela merece atenção.

Não sei se é porque fiz 40 anos recentemente. Pode ser. “O Filme da Minha Vida” fala com muita classe sobre a passagem do tempo. Sobre as escolhas que a gente faz, sobre solidão e como lidar com ela. A solidão do filho, que não entende a partida e o total desaparecimento do pai. A solidão do amigo, que não sabe como se relacionar, que não consegue sentir qualquer coisa com profundidade, sem o escudo do cinismo. A solidão do pai, envergonhada, punição justa e sacrifício exemplar ao mesmo tempo. Da solidão da mãe, ensurdecedora em seu silêncio e retidão. Da garota mais bonita da pequena cidade, da namorada sonhadora, da puta que imagina o mundo. Tudo fruto de escolhas e traições. De desvios de conduta sinceros, justificados por um desejo nobre, uma circunstância maior ou mero egoísmo. Me fez passear por algumas. Por inadequações vividas, por amores que vão embora de repente, pela quebra de confiança daquele que você mais contava. Pelos castigos assumidos. Pelas vezes em que sorriu chorando, como diria Roberto, e que Massaro expressa muito bem no olhar.

E tudo isso nasce de escolhas. E a vida é assim, você sabe. Dos amores que deixou pelo caminho por egoísmo. Dos momentos que poderiam ser vividos e ficaram na vontade. Da covardia, da passividade. E também na crença no perdão, na segunda chance, na vida que ainda dá tempo de ser vivida. Você vai perceber um pouco disso no personagem de Rolando Boldrin, curto e fundamental. Se prestar atenção nos detalhes quando ele aparece. Um pouco dessa reflexão nascida durante “O Filme da Minha Vida” te acompanha, não para puxar o seu pé, mas como um recado: de que é assim. Não importa o sentido do vento, a alta da bolsa, o amor que você dá. Cada um tem suas razões e tudo pode mudar — para o bem, inclusive — de repente. E assim segue, onda vem, onda vai.

É bem foda ser racional nesse ponto, até é possível entender que a vida é assim mesmo, não adianta lamentar, mas, caralho, somos humanos. E o sentimento bate, te arrasta, uma hora passa, mas até lá você grita — por fora ou por dentro vai de você. Se isolar numa caverna não muda nada. Independente do teu dia, igual, melhor ou pior que o meu, se você se importa com boa arte, se tem um pouco de sangue quente circulando por aí, “O Filme da Minha Vida” vai te fazer, no mínimo, pensar. E isso é bastante coisa para um filme.

Espremido entre as intermináveis comédias e as temáticas sertanejas e/ou dramas da favela, Selton Mello se distancia como o melhor contador de histórias humanas. É o melhor diretor da nossa geração. Fico curioso com o que ainda vai produzir. E pelas histórias que deve contar nas mesas de bar. “O Filme da Minha Vida” vale pelo dinheiro gasto no ingresso e pelas duas horas trancado numa sala escura vendo as vidas de outras pessoas. E, principalmente, pelo que ele te faz sentir e entender depois do fim. E isso é bastante coisa para um filme.

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