PRECISAMOS FALAR SOBRE A MINHA VÓ

Todo mundo tem vó. É que nem aquela verdade universal de que “todo mundo tem mãe”. Só que vó é diferente, né? Vó é aquele serzinho iluminado que veio pra fazer (quase) todas as suas vontades aos 84 anos sem reclamar (ou sem reclamar muito, no meu caso). É aquela senhorinha da hora que já viveu muito mais que você e sua mãe juntas, se bobear. Sendo assim, é nela em quem você pode e deve confiar. E quando ela disser pra vocês guardarem a “rodinha de trás”, meus amigos… Não pensem duas vezes. Sério.

Vejam vocês: a minha vó é a Dona Miriam, que muitos de vocês conhecem. Aos que não conhecem, recomendo fortemente. E é dela que eu vim falar aqui hoje. Já aviso que não trago uma história triste, edificante ou uma grande lição de vida. Na real, eu só trago amor. Acho que isso basta.

Do pouco que minha vó me contou da sua vida, acabei guardando apenas os detalhes mais importantes. Pra ela. Miriam Buso de Freitas nasceu em 1º de Agosto de 1933. Faz tempo pra porra. Essa mulher viu guerra mundial, ditadura, fim do Orkut, a volta das pochetes, unha de pelúcia, crises e até Temer presidente. Só com isso já podia introduzir um drama, né?

Foi professora por muitos e muitos anos. E amava. Ensinou uma galera, lembra de todos os nomes dos alunos e demais educadores — e, pasmem — mantém contato com eles até hoje, não me perguntem como. Se você é motorista de uber ou taxista e já fez uma corrida com a minha vó, deve saber que ela lecionou na Rua Casa do Ator. Sempre que passamos pela região ela faz questão de lembrar: “Sabe, Alessandra, meus alunos me adoravam. Eu ensinei as meninas a passar batom que nem eu. Elas guardavam embaixo da carteira e esperavam pra passar junto comigo quando ninguém estivesse vendo”. Minha vó passa o mesmo batom rosa até hoje. “E sem espelho. Eu não preciso de espelho”.

Minha vó Miriam amava muito também o meu avô, que eu não conheci. Ele faleceu pouco antes de eu nascer. Hoje, transborda todo esse amor por seus filhos. E seus netos. E bisnetos. Mas, obviamente, deixando bem claro que a Camila, minha irmã, é a preferida. Não teria como ser diferente. Afinal de contas, ela é a minha preferida também.

Mas Dona Miriam não é só amorzinho, não. Ela também é muita ousadia e alegria. Minha vó é a pessoa que liga na farmácia pra pedir pão e frios. Sim, eu disse farmácia. E os caras trazem. Trazem com tanto prazer que a piada perde a graça. Não há nada que a vó Miriam peça que você não faça sorrindo (tirando buscar picolé em dia de chuva, mas nesse caso ela me sacaneou pesado).

Minha vó é também a pessoa que fica feliz porque “é véspera de não cozinhar”, se referindo aos dias em que não faz comida porque não vamos levar marmita ou jantar em casa. É a pessoa que acorda cedo mesmo não gostando, só pra ter certeza que fui trabalhar direitinho e no horário — e, claro, preparar o café da manhã da neta preferida, que NÃO SOU EU. É a italianinha que faz o melhor nhoque do mundo. E o pior feijão. É a pessoinha que, quando eu fico doente, prepara morangos com leite condensado pra me fazer sentir melhor. E um suco natural, óbvio. Ela também é musa fit quando quer.

É a senhora que vai ao enterro de um conhecido chamado Rolando (?) e sai de lá abismada, mas contando pra todo mundo que um idoso safado teve coragem de dar em cima dela no meio de um sepultamento: “disse pra ele que eu era mulher de um homem só”. Pensem comigo: tinha um cadáver ali. O mano não poderia se importar menos. Temos que respeitar mais essa mulher que seduz até em velório, enquanto a neta passou anos no tinder pegando exatamente ninguém.

É também o mulherão da porra que ajuda a família inteira de diversas maneiras. Ela não faz questão de nada pra si, mas se vê num prazer inenarrável quando realiza os sonhos e vontades das pessoas a sua volta. É a mulher que é apaixonada pelos nossos amigos e faz questão de agradá-los sempre, sempre, sempre. Só não pode acordar a vovó no meio da madrugada pra pegar mais travesseiro. Aí essa doçura toda vai embora rapidinho.

É o ser possuído que nos causou o problemão de não conseguirmos mais pedir pizzas no bairro, porque ela ligou pra reclamar de todas. Uma delas mandou até pizza com unha pra gente. Não é brincadeira. “Eu passei a mão no telefone e falei: mas essa massa de vocês é uma bela de uma porcaria, não? Eu não quero outra. Não queria comer nem a que eu paguei, veja bem!”. Furiosa.

É a pessoa que vai aos lugares e na mesma hora é elogiada. Linda demais, né? É só falar dos incríveis olhos azuis dela que o discurso aparece: “Muito obrigada, imagine, eu já estou velha… Já tive meus tempos de glória”. Clássico.

É a pessoa que, quando eu era pequena e morava na praia, mal tendo acesso e recurso pra usufruir das coisas legais que toda criança tem vontade, fazia questão de me surpreender com um pacotão pelos correios todo mês recheado de bobeirinhas. Desde o tão esperado CD do Rouge, à meias coloridas anti-aderentes, até os 30 reais escondidinhos no meio de uma cartinha cheia de amor. Era o dia mais esperado, seguido de uma ligação dela, extremamente gostosa e aconchegante.

É o ser humano que sempre colocou minha felicidade em primeiro lugar e que jamais me deixaria desamparada, seja lá quem eu fosse (e eu sou bem legalzona, apesar das tatuagens — segundo ela mesma). Sempre que eu faço uma nova, ouço que vou ser deserdada. Que ela não quer mais falar comigo. Que isso. Que aquilo. E aí a raiva passa e dona Miriam volta a ser dona Miriam, só porque ela não conseguiria ser ou agir diferente.

Confesso que essa capacidade da minha vó de amar nesse nível me intrigou por muito tempo. Sempre quis ser como ela. Hoje eu gosto de acreditar que eu estou no caminho. E poderia continuar, infinitamente, falando de todo o privilégio que tenho de conviver com essa mulher. Mas como o objetivo aqui não é deixá-los com (muita) inveja, finalizo dizendo que, assim como Miriam Buso de Freitas, eu tenho um amor que não cabe em mim. Por isso, escrevi esse texto pra registrar a gratidão que me invade todos os dias que a vejo, com sua canga enrolada no corpo, possuída de raiva ou carinhosa, em mais um episódio dos mistérios da vida, me esperando chegar em casa. Eu queria que vocês sentissem isso também. E se lembrassem dela com carinho sempre que passassem pela rua Casa do Ator, só porque isso faria ela mais feliz.

Eu amo você, vovó.