Me dê motivo

Eu percebo olhando mais profundamente para dentro de mim o mecanismo de por certos períodos de tempo no modo operacional de não questionar absolutamente nada ao meu redor, normalmente esse estado aparece entre intervalos onde muita dor que me abarca devido a sentimentos mundanos externos ao meu ser. Então esvazio-me de tudo automaticamente buscando a leveza necessária para flutuar em meio a um oceano de podridão, dou as costas ao chorume e foco minha visão para os céus, almejo no futuro qualquer sinal operacional diferente a este de agora, neste momento o meu próprio desejo me atualiza e destruo as fundações do passado. O que pode fazer um ser inserido em um mundo cercado de reinos constituídos de muros altos e cercas elétricas que não vê motivo em construir o seu próprio castelo? Visitar outros reinos, estar apenas de passagem e abruptamente sumir! Está é a dolorosa vida do mensageiro, ser encarregado de conectar microuniversos e fazê-los dialogar mesmo quando há dicotomia expressiva, não é uma escolha fácil este papel portanto, abdicar de ter a sua própria toca regida por programações cotidianas em favor de viver sobre o regime do fluxo e instintos transitórios. Os limites da propriedade, são os limites da nossa própria pele, involucro, carne-claustro, o que fazer quando não se quer ser dono de nada? Se desapropriar de si mesmo é uma ilusão dentro de um espaço onde o convívio é demarcado? Ainda me anima flanar na aleatoriedade para sempre e em alguns instantes atravessar o terreno dos grandes herdeiros e colecionadores de tijolos da terra afim de viver pequenos momentos em que nossas vidas se tornam menos solitárias. Estar só, ou cercada de gente, tanto faz! Há uma rede invisível que nos une e nela deságua toda a nascente do meu penar: ver nos outros motivos de estar presente em discordância a todos os meus, neste momento visual o mundo em sua sensível violência a qual eu tento me abdicar me confronta como uma bala perdida, me atravessa sem pedir licença! É como se eu estivesse, como disse lá atrás, flutuando em águas tranquilas e uma âncora fosse amarrada ao meu pé sem permissão, me fazendo afundar para que sua vaidade me obrigue a ver tudo que limpo do meu campo de visão, toda a mazela que fundamenta o mundo das maravilhas superficiais, a televisão que abdico de ver, o jornal que não leio. Percebo que viver no passado e no futuro a espera da utopia sempre me facilitou a sobrevivência… Porém, nestes tempos desgasto-me da produção de beleza que não dão frutos, enxergar o feio se fez necessário e todos os pontos inalcançáveis estão se extinguindo sobre a custa do vazio de existir, seguir em frente é mais fácil para quem sabe lidar com a ausência de sentidos? Tem sido assim, mas eu não aprendi está maneira de navegar e resisto como uma transeunte produtora de motivos inalcançáveis….