De volta para Macondo. Mas como?

Muitos meses depois, sozinho diante do espelho da memória, Ogro recordava cada momento que passara com ela. Nunca havia de esquecer o dia em que colocara tudo a perder, ao ir embora da cidade.

Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos.

Ogro amava Macondo. Mas estava comprometido com um sonho de uma noite de verão. No caso, um sonho que durara mais de três anos e que, Ogro refletia, teve muito de pesadelo. Mas ao ir embora da cidade, ele estava fixado naquilo que lhe parecia ser um futuro promissor, projeto de vida.

Ogro também era amado por Macondo, pois apesar das diferenças era firme e faceiro, nobre e malandro ao mesmo tempo. Não fazia mal a ninguém, mas guerreava por todos perante uma injustiça. Entretanto, sua partida abrupta fora um choque muito grande.

Macondo sentiu sua falta por muitos meses, mas afinal parecia ter superado. A cidade funcionava como devia: todos acordavam e dormiam como de costume. Ergueram um monumento no ponto central e todos foram forçados a saber quem foi Ogro.

Contudo, em um não tão belo dia assim Ogro voltou. Trazia em si a tristeza dos que investem as economias em uma empresa falida. A sensação de tempo perdido lhe pesava os ombros. Seu porte físico diminuíra, a altivez já era mais baixa. A firmeza de caráter permanecia a mesma, mas Ogro estava triste por ter reconhecido como se enganara, acreditando no mundo que tentara fazer parte e que, de fato, não lhe pertencia. Entretanto, ele ficava feliz ao pensar que finalmente percebera o equívoco. Voltaria à Macondo e esta o receberia de braços abertos _afinal, Ogro informara-se bem e sabia o quase luto que ela enfrentara em sua ausência.

Como se afastara por muito tempo, teve dificuldades para encontra-la no regresso. Durante muitas e muitas semanas procurava-a por todos os lados, inutilmente. Ao ouvir seus primeiros rumores, ainda que a distância, seu pulmão encheu-se do ar da vida. Ogro livrava-se do enfado, da tristeza e da saudade ao ouvir a voz de Macondo, ao ler o que ela escrevia por aí. Mas Macondo estava mudada. Não reconheceu seu retorno sincero. Quis expulsar-lhe com ataques, depois com indiferença. A cidade quente parecia glacial. Retraía-se desconfiada com medo de ser novamente abandonada.

Da fantasia de três anos, Ogro guardava poucas lembranças espontâneas. Forçava a memória e, quando encontrava o pouso sereno, uma miríade de decepções lhe invadia o ser na sequência, com o fel de quem se esforçara para fazer dar certo inutilmente. Com Macondo, nem precisava fechar os olhos para rememorar os diversos momentos incríveis que passaram juntos, em cada esquina, prédio, carro, rua, praça e parque. Seu olhar brilhava ao se lembrar de Macondo e ela, por mais que se esforçasse, não queria fechar suas portas. Mas ambos não sabiam o que se passava com o outro. Precisavam saber para decidir-se. Quem tomaria o primeiro passo?

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.