Desejo e Reparação (2007)

O ser humano é capaz de conter em sua alma os mais diversos sentimentos, ao mesmo tempo. Existem até alguns clichês que podem ser citados aqui, como a linha tênue entre o amor e o ódio ou a diferença abismal entre amizade e paixão. Cobiça, egoísmo, avareza, inveja. Alguns deles são até considerados pecados pela religião, sábia em exercer seu poder através do medo daquilo que é para todos um tanto quando desconhecido: o limite da mente humana, ou a ausência dele. É sobre a consequência dos atos desencadeados por esses sentimentos que fala Desejo e Reparação, de Joe Wright, diretor do ótimo Orgulho e Preconceito.

Briony Tallis (Saoirse Ronan, espetacular) é uma menina de 13 anos, nascida no berço da aristocracia inglesa do inicio do século XX. Com imaginação extremamente fértil, começa a escrever suas primeiras histórias muito cedo e é nesta mesma época que nutre uma paixão secreta pelo filho da governanta, Robbie (James McAvoy). Através de uma série de acontecimentos, culminando com um flagrante em uma noite bucólica e decisiva, Briony descobre o caso entre Robbie e sua irmã Cecilia (Keira Knightley). Inconformada com a situação, Briony ativa seus mais primitivos instintos, e mesmo com tão pouca idade, toma uma série de decisões que mudariam sua vida para sempre.

Seguindo os personagens e seus caminhos, o roteiro do longa é muito bem composto por Christopher Hampton, e viaja no tempo a partir de 1935 para contar todas as mudanças e amarguras que restaram daquela noite. A cinematografia do filme é muito bem trabalhada, explorando na primeira parte a luz abundante dos ambientes abertos e das grandes propriedades dos ricos ingleses e posteriormente se rendendo a uma luz mais desolada para narrar acontecimentos referentes à Segunda Guerra Mundial.

Mas, a grande sacada do filme é sua montagem e sua edição. A idéia de seguir o formato do livro de Ian McEwan, de onde o filme é baseado, foi uma das qualidades adotadas pela produção que se tornou indispensável para o sucesso da história. Da mesma forma que Gus Van Sant costuma fazer em seus filmes, alguns segmentos são conectados dependendo da visão dos personagens. Deste modo, podemos ver a mesma cena ou os mesmos acontecimentos de ângulos diferentes. Isso apresenta novos detalhes, enriquece os argumentos e influencia significativamente as conclusões tiradas por quem assiste.

Por fim, o filme aborda a questão de Briony como uma escritora, que criou e definiu sua própria história, mas com personagens reais. Através dos próprios sentimentos mudou destinos e condenou a si própria. Com isso, brota no filme através da literatura a ideia de que além de a obra de arte sobreviver ao artista, ela pode ser uma versão melhorada deste mesmo artista. Como se fosse uma outra dimensão, em que Briony, também como pessoa, possa se redimir, pedir perdão para suas vítimas e reparar a fúria de seu próprio desejo.

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