Valsa Com Bashir (2008)

O Massacre de Sabra e Shatila foi metodicamente organizado por milícias cristãs maronitas ligadas à Força Libanesa e colocado em prática dentro dos campos de refugiados palestinos de Sabra e Shatila. Mais de três mil refugiados foram executados entre os dias 16 e 18 de setembro de 1982. O episódio, uma vingança pelo assassinato do líder palestino Bashir Gemayel por cristões libaneses, ficou conhecido como um dos mais violentos e sanguinários da Guerra Civil Libanesa. Na época, Israel havia invadido o Líbano e controlava os dois campos de refugiados localizados na zona oeste da capital, Beirute. Assim, especulou-se que o exército israelense seria parcialmente culpado por ter facilitado a entrada da milícia nos campos ou por ter falhado na proteção dos refugiados. Ariel Sharon, Ministro da Defesa de Israel em 1982 foi considerado pessoalmente responsável pelo massacre na Suprema Corte do país.

Mais de 26 anos depois do massacre, o diretor israelense Ari Folman compõe este documentário animado e autobiográfico onde procura por lembranças que possam revelar qual foi sua participação nos eventos de Sabra e Shatila. Folman esteve presente em Beirute em 1982 e surpreende-se com o fato de ter simplesmente apagado os acontecimentos de sua memória. Determinado a encontrar pistas para lembrar de seu passado, o diretor viaja em busca de velhos amigos e companheiros de guerra para lhes questionar o que exatamente aconteceu naqueles três dias de genocídio. Aos poucos, com novas informações e pistas, os próprios sonhos de Folman parecem se misturar com a realidade e conduzem o diretor para uma viagem e um resgate da história de seu próprio país.

É inegável que o assunto que predomina nas discussões sobre este filme é a política. Assim, com ponto de vista delicado e abordagem extremamente crítica, Valsa com Bashir causou comentários apaixonados desde suas primeiras exibições em maio de 2008 no Festival de Cannes. O grande trunfo do filme está em cutucar na ferida ainda exposta dos acontecimentos de Sabra e Shatila, dar continuidade à vasta história dos traumas de guerra e ainda entregar um filme visualmente incrível construído com desenho feito à mão e ainda feito por um judeu. A simples idéia de se contar a história do ponto de vista de um dos possíveis culpados já seria suficiente para catapultar o sucesso da obra.

Mas, junta-se a isso a contribuição espontânea vinda de fora da obra, que consiste em comparar o massacre com algum tipo de Holocausto provocado pelos judeus. Essa comparação, além de ser um tanto quanto desproporcional, está simplesmente incorreta, pois quem realmente deu cabo do massacre foram integrantes de milícias armadas dentro do próprio Líbano. Por isso era uma Guerra Civil. Mesmo assim, o que ainda exala do filme é que Israel tinha força, inteligência e capacidade de parar o massacre, mas decidiu não o fazer. A própria duração da matança revela um mundo de opções: 36 horas de explosões, tiros e gritos. Mesmo assim, Israel alega que não sabia e não teve quaisquer indícios de que um massacre se desencadeava.

Depois da política, claro que o filme tem coisas boas. O lirismo do desenho surgindo na tela é feito com excelência. No entanto, uma cena já é candidata a ficar marcada na história da animação e do cinema: a única lembrança que Folman tem consiste nele mesmo, junto com seus companheiros de exército, erguendo-se das águas de uma praia de Beirute e caminhando para a areia, enquanto sinalizadores militares iluminam a cidade. Da mesma forma, imagens surreais de todos os tipos brotam de sua imaginação o tempo todo e é a junção de todas elas que reconstrói, aos poucos, a memória de Folman.

O tom crítico parece ter afetado as chances que o filme tinha de levar o Oscar de filme estrangeiro, que seria mais do que merecido. No entanto, nunca um filme que critica Israel conseguiria tal façanha exatamente no país de maior concentração de judeus do mundo, pelo menos não nas atuais condições.