dos estranhos que te abordam

e como não evitá-los.


há algumas semanas atrás, levei meu carro ao lava-rápido. a situação do veículo era deveras lamentável. e eu, que não possuo apego religioso algum a bens materiais, não me importo de confiá-los a terceiros por alguns minutos. além do mais, graças ao meu pai, desenvolvi uma ojeriza muito forte em relação a lavar um carro por conta própria. mas ele está certo, é uma droga fazer isso. se você pode pagar para evitar esse transtorno, pague. aprendi que é um dinheiro muito bem gasto.

lá no lava, me informaram que o meu carro ficaria pronto em uns quarenta minutos. como forma de passar o tempo, fui tomar um suco e zapear pelo Twitter na padaria que tinha em frente. sentei próximo ao balção. um free talker também teve a mesma ideia e se sentou a alguns bancos de distância de mim.

— meus deus do céu, o que o cara faz com uma coisa dessa — disse o sujeito apontando para uma mulher que entrava na padaria naquele momento.

resolvi ignorar, fingir que não era comigo. ou sei lá, dizer que ninguém tem que fazer nada, porque aquela pessoa não era uma coisa. eu sei, embora sem olhar para mim, sabia que aquilo era um gancho para engajar num diálogo com ele.

— trabalhei a madrugada inteira. com máquinas. muito trabalho.

— complicado.

não tive escolha. retomei rapidamente os olhos para a tela do celular. apesar de bem vestido, o cara estava com uma feição horrível, os olhos esbugalhados. além de uma noite sem sono, ele parecia ter consumido cocaína.

— mas o pessoal tá pagando bem, então vale a pena.

— muito bom.

acabei com o meu suco rapidamente e me despedi. eu só queria usar o meu celular em paz sem ter que ouvir uma pessoa que eu não conheço e não estava disposto em conhecer.


numa festa de final de ano de uma empresa em que trabalhava, bebi demais e abundantemente (como alguns gostam de dizer por aí). pelas consequências no dia seguinte, foi um milagre eu não ter saído de lá em uma ambulância.

a festa aconteceu numa quinta-feira e, seguindo todo o protocolo do bom senso que rege a maioria das corporações, no dia seguinte, teria expediente normalmente. claro, em uma festa do tipo open-bar, é de se esperar que todos tenham um bom senso apurado, e, mesmo sob influência de muito álcool, lembrarão que amanhã será um novo dia. imagina a produtividade.

me entupi dessas coisas que evitam uma ressaca maldita e, com exceção do sono, estava me sentindo bem.

dessa vez foi no ponto de ônibus. uma senhora com uns cinquenta e poucos anos.

— eu tô a quase um ano nessa empresa que eu tô agora e ganho setecentos reais.

interessante minha senhora, pensei que fosse aposentada. por favor, conte-me mais sobre isso.

— eles pagam pouco mas é uma empresa boa.

— isso é bom.

eu não ia evitá-la, ou dar entender que não queria conversa. eu só não tinha assunto pra conversar.

— eu cheguei nesse bairro em 1977.

— caramba! — disse esboçando uma falsa reação de espanto. muito me surpreendia que ela não tivesse chegado antes.

— mas era muito ruim. não tinha nada, nem ninguém. o único comércio que tinha era a padaria da dona maria e o ponto de ônibus mais próximo tinha que andar bastante pra chegar.

— imagino.

— meus filhos eram todos pequenos na época.

o ônibus estava muito atrasado. eu estava atrasado. comecei a sentir muito enjoo. pelo menos da dor de cabeça aquele comprimido me salvou.

— nessas férias, eu vou ver minha mãe lá na Bahia.

pedi licença e vomitei abundantemente.

não era o assunto, minha senhora, era só o meu corpo desintoxicando. desculpa.