A mão

Alexandre Cintra
Nov 5 · 2 min read

No inventário do corpo, algumas de suas partes sempre prevalecem. A bunda e o peito são geralmente muito bem cotados, sensuais, despertam desejo. O abdômen também é muito valorizado e sempre é lembrado, seguido logo atrás pelas coxas, que nunca deixam a desejar. Outras partes, coitadas, não têm a mesma preferência. A mão, por exemplo, ninguém nunca ousa citar, é apenas ferramenta, objeto de trabalho. Tão sem carne, tão distinta, tão pouco desejada. Ela não é o objeto do desejo, ela é meio e não fim. Mas eu gosto da mão. Se o desejo por outra pessoa só se concretiza pelo toque, qual a melhor forma de realizar esse toque senão com… a mão?

Com seus milhares de receptores, ela permite o toque fino, a percepção de texturas. Ela é a parte do corpo, não, a ferramenta perfeita para a consolidação do desejo. Sem a mão, o desejo é só fantasia. O desejo, por meio da carícia, faz o corpo desejado existir por si só, como pura carne. A carícia desprotege o corpo, mostrando-o em sua realidade. Com o desejo realizado, podemos quase tocar a alma do ser desejado. A mão tem essa dupla função. Ela desnuda o corpo, expondo sua alma, e, ao mesmo tempo, veste-o, como diria Sartre, com sua melhor roupa: a nudez.

Por isso eu gosto da mão. Ela me permite transformar o meu desejo em realidade, assim como me permite sentir a reciprocidade do desejo pelo toque do outro. Ela me permite desejar e ser desejado. Por meio da carícia, eu posso sentir o outro ao mesmo tempo que ele me sente e mudar, mesmo que por pouco, a realidade de ambos.

    Alexandre Cintra

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    Eu não sei na verdade quem eu sou.