Feliz ano novo, Paulo

Primeira segunda-feira do ano. Dia de desgarrar da cama e me arrastar como um bezerro recém parido até o ponto de ônibus. Tudo que preciso é um canto para escorar o mau humor, companhia ideal para elevadores, filas de banco e outros momentos de espera. Chegou então um cego caminhando lentamente, mais pelo peso da idade do que pelo tatear da bengala e sentou no banco, bem no meio de duas mulheres.

“E agora minha filha grávida, Deus do céu, o que eu vou fazer?”

- Olha, preste bem atenção, fale para ela tirar o mais rápido possível.

“O quê? Eu não tenho coragem e nem posso concordar com uma coisa dessas.”

- Bom, eu acho que é melhor tirar. Qualquer coisa, congela. Aí depois você vê o que prefere fazer.

“Isso é loucura, jamais farei um negócio desses. Não sei ainda. Botar na rua?”

- Olha, você pense o que acha melhor fazer, eu só sei que jogar fora também não vai. Tanta gente querendo. Melhor congelar, mais para frente pode querer e aí vai se arrepender.

“Deixe de falar besteira. Não é assim que se resolve esse tipo de coisa. ”

- Pode dar para o porteiro também, ele leva para casa e come no jantar.

Foi aí que o ceguinho deu uma pigarrada, resmungou coisas que não deu para entender e saiu tropicando e maldizendo aquelas duas. Ele perdeu o desfecho da conversa e, principalmente, o ponto de vista. Aquelas mulheres, tanto a morena magricela da esquerda quanto a branquela de cabelos vermelhos à sua direita, tinham nas mãos além de unhas roídas, celulares de última geração com os quais cada uma conversava com interlocutores diferentes do outro lado da conexão. Enquanto a desnutrida brigava com o marido, que queria expulsar a filha de casa, a esquisita apenas discutia com sua adolescente mais velha sobre descongelar ou não as sobras da lasanha que a avó preparou no Natal. Logo deu para ver que acabara de nascer um dos anos mais longos da minha vida.

Alexandre Feliciano

CONTANDO NINGUÉM ACREDITA — pequenas histórias sobre pessoas degradadas, vidas bizarras e casos dificilmente explicáveis.

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