O Início / Minha Jornada de Evolução Espiritual/

Tudo estava em paz. A vida fazia sentido. Havia um caminho certo, uma trajetória clara sobre o antes, o início, o durante, o fim e o novo (e tão esperado) início. Mas, aí veio a dúvida (de novo). E, dessa vez, resolvi segurar a pergunta e aproveitar toda a oportunidade de crescimento e evolução que um dilema/crise/paradoxo/inquietação/dúvida é capaz de proporcionar.


“Supreendentemente, o paradoxo pertence ao bem espiritual mais elevado. O significado unívoco é um sinal de fraqueza. Por isso a religião empobrece interiormente quando perde ou reduz seus paradoxos; no entanto, a multiplicação destes últimos a enriquece, pois só o paradoxal é capaz de abranger aproximadamente a plenitude da vida. A univocidade e a não contradição são unilaterais e, portanto, não se prestam para exprimir o inalcançável.”
(C.G. Jung em Psicologia e Alquimia)

Um pouco de contexto

Nasci em um família cristã protestante, membros de uma religião extremamente organizada institucionalmente, que tem a Bíblia como fundamento base único para suas crenças e valores. A Bíblia e a oração eram as formas essenciais de se conectar e se relacionar com Deus.

Meus pais sempre trabalharam como servidores profissionais dessa instituição, em diversas "unidades": hospital, editora, universidade e escritórios regionais que administram as igrejas. Toda a minha educação, do ensino fundamental ao médio, foi dentro das escolas dessa mesma instituição, com professores que professavam a mesma fé. Consequentemente, toda a minha comunidade, todos os meus amigos e educadores ou pertenciam a mesma religião ou sabiam exatamente no que eu acreditava.
Essa mesma comunidade era formada por pessoas muito inteligentes, estudiosas, questionadoras e profundas em suas pesquisas e buscas de crescimento espiritual, conexão com Deus e entendimento do mundo (dentro da visão bíblica). Mas era, de fato, um ambiente de muito pouca diversidade ou contato com macro visões de mundo diferentes.

Dentro de casa, todos os rituais tradicionais da religião eram seguidos. Tudo era muito gostoso, divertido, interessante e bonito. Admirava (e ainda admiro muito) a forma como meus pais falavam e ensinavam sobre relacionamento com Deus e crescimento espiritual. O amor estava claramente destacado como fundamental, também a obediência a Deus, relacionamento próximo com Deus através da oração, muita leitura e estudo, tudo isso recheado com músicas lindas, histórias emocionantes e fartas demonstrações de carinho e afeto.
Algo muito importante que aprendi, é que poderia crescer espiritualmente e infinitamente, através de uma conexão direta com Deus, vinda de conversas francas (sobre qualquer assunto) através da oração.

Durante vários anos, participei ativamente de vários grupos missionários da igreja, principalmente (e curiosamente) relacionados a área das artes: música e teatro. Participei de um grupo musical (por mais de uma década) que cantava sobre as crenças essenciais, a esperança e a grandeza do amor e perdão divinos, viajei por todo o Brasil e alguns outros países compartilhando essa mensagem. Participei, também, de um projeto, uma igreja 100% evangelística, onde todos os membros trabalhavam, ninguém esquentava banco e todos os talentos eram desenvolvidos e usados para a causa — atuei como roteirista e ator de uma série de peças de teatro que preparavam o público para refletir sobre o assunto principal da palestra principal que acontecia logo a seguir.
Tenho imensa gratidão, amor e saudade desses trabalhos. A convivência com esses grupos, os aprendizados e o senso de comunidade foram essenciais.

Algo extremamente relevante que aprendi ao fazer parte dessa religião, foi a forma como os fundadores entendiam as crenças, as verdades. Eles entendiam que "a verdade" é um caminho progressivo — a "verdade presente". Em determinados momentos da história, Deus revela uma nova luz, um novo conhecimento ou um aspecto da verdade que faz sentido para o povo. Por isso, eles tinham o desejo de construir uma religião sem dogmas, que estivesse sempre conectada com Deus, com o estudo do que já foi revelado e atenta para as novas revelações. Um caminho evolutivo, onde não se descarta o que já foi aprendido e fica-se atento plenamente ao que vai surgir de novos aprendizados.

"Não devemos pensar: Bem, temos toda a verdade, compreendemos as principais colunas de nossa fé e podemos repousar neste conhecimento. A verdade é uma verdade progressiva, e devemos andar em crescente luz […]." (uma citação de Ellen White, em 1890, uma das fundadoras da religião)

Institucionalmente, essa religião criou uma sistemática onde, a cada 5 anos, os líderes mundiais se reúnem para rever suas crenças, incluindo os novos aprendizados, as novas revelações.

O Início da Jornada — Como Tudo Começou

Influenciado por todo esse contexto e história, alguns dilemas, dúvidas, questionamentos, curiosidades e uma leve sensação de que eu poderia estar sendo enganado ou "usado" (mesmo no bom sentido, para um bom propósito) começaram a sobrevoar a minha mente por volta dos 30 anos.
Isso já havia acontecido antes. Mas, dessa vez foi diferente. Eu resolvi não sentir medo e não abafar essa curiosidade e esse desejo de buscar um conhecimento mais amplo, mais diverso. Iniciei, então a minha jornada.

“Não nos ocorre que quem traz perguntas pode estar querendo ser útil, ou pedindo ajuda para uma reflexão conjunta. Em nosso individualismo, recusamo-nos a pensar junto com o outro, porque isso não era estimulado na escola que frequentamos. O resultado é essa situação absurda, mas que é parte integrante do nosso cotidiano: as respostas nascem das perguntas; mas se todos deixarem de perguntar, de onde virão elas?”
(Humberto Mariotti em As Paixões do Ego)

Durante um período de 2 a 3 anos, alguns momentos foram muito representativos e marcantes como início da jornada. Esses momentos não foram sequenciais e nem desconectados, mas, consigo enxergá-los dessa forma:

Intuição de que eram apenas explicações diferentes de uma mesma relação: nos meus encontros com diversas pessoas, palestras e livros (e comigo mesmo) sobre a relação com Deus, com o transcendente ou o universo, tudo me parecia muito similar. Obviamente, meu mapa mental traduzia o mundo de acordo com tudo o que havia aprendido. Mas, por mais que um conceito ou a história de alguém fosse completamente diferente do que eu conhecia, após pouco ou muito tempo para digerir, entendia que era apenas uma maneira diferente de explicar, ou que foi encontrada para se relacionar com os principais dilemas da vida — de onde viemos, para onde vamos, existe um ser ou uma força superior regendo tudo, é possível uma conexão com esse ser ou força…

Respeito à diversidade pela observação da pluralidade de experiências de crescimento — talvez não haja um único caminho ou método: ao ampliar a diversidade das minhas conexões com pessoas de diferentes históricos e crenças, percebi evolução e crescimento espiritual na vida de cada uma daquelas que estavam buscando esse crescimento. Percebi que o método (religião, rituais, etc) era "acessório", o principal era a busca genuína. Ou seja, quem estava procurando, estava encontrando. O crescimento e a evolução da consciência, do amor, da conexão com o transcendente me pareciam evidentes e isso estava em todo lugar. Talvez, as possibilidades de conexão e relacionamento com o transcendente sejam tão diversas quanto a diversidade humana.

Indignação do uso da religião (e dos livros sagrados) como máquina de opressão para manutenção das classes sociais e do poder das classes dominantes: esse tema sempre rondava a minha mente ao estudar um pouco de história, mas nunca havia me imaginado como parte dele ou sendo influenciado por ele. Um dia, em uma palestra, uma pessoa contou sobre a origem do termo "a voz do diabo" e como ela foi criada (por uma religião) para abafar a força da criatividade e inovação natural do ser humano, mantendo-o estagnado em sua rotina de trabalho e de vida. Isso me deu um estalo gigantesco, já que no momento me toquei em como eu também estava influenciado por semelhante pressão, que acabava por me gerar um medo terrível de pesquisar, conversar e navegar por entre os meus questionamentos. Foi libertador! O medo sumiu e a busca começou (e ainda não terminou). Comecei a dedicar tempo e energia para lidar com todos os questionamentos. Senti uma segurança de que Deus não haveria de me "excluir do seleto grupo de vivos ou salvos" por usar a capacidade mental que ele havia me dado, mesmo se eu começasse por questionar a existência dele mesmo.

O ciclo vicioso do medo e da esperança: ao analisar minha própria relação com Deus e com a vida, ficava mais claro uma forte influência de um ciclo (que julgo eu) vicioso entre o medo e a esperança. Observei que a grande parte dos assuntos falados e das mensagens propagadas jogavam com essa questão. Você vai morrer, se ficar do jeito que está, se for do jeito que é… mas, se você seguir esse método e acreditar nessa história você terá alguma chance de viver. No meu entender, baseado no que isso gera em mim, esse ciclo gera uma grande força de bloqueio dos talentos e possibilidades. Mais do que isso, gera um tipo estranho de motivação egoísta para se conectar com Deus e entender a vida: o medo de morrer ou a intuição natural de manter a "minha vida" eterna. Especificamente na religião onde fui educado, um ciclo semelhante é usado: graça e obras (você já está salvo por Jesus Cristo, mas, por mais estranho que pareça, você tem que fazer algo para merecer a salvação que já lhe foi oferecida, e, esse algo, é praticamente impossível).

O uso da Bíblia para julgamento alheio e o sentimento de missão de mostrar os erros dos outros (ou mesmo sentir pena de quem é diferente): a interpretação da Bíblia já foi usada para defender e justificar as mais diversas atrocidades e barbáries à diversidade humana. Nesse meu momento de vida, o tema da homossexualidade era o que estava em voga no contexto contemporâneo do Brasil e no uso da Bíblia para claramente justificar que um ser era mais superior que outro ser (ou um ser era certo e outro era errado, somente por ser). Percebi claramente o uso indiscriminado e descarado da Bíblia e da forma manipuladora que ela é usada pelas lideranças religiosas. Definitivamente, a minha sensação é de que seria muito mais proveitoso para o crescimento espiritual não ter Bíblia ou nenhum livro sagrado, pelo poder de potencial devastador que ele pode gerar. Quantos casos de suicídio acompanhei, onde pessoas desistiam da própria vida por causa de um texto de um livro sagrado usado de maneira descarada, fora de contexto, como arma de ataque e opressão.

Definitivamente, a igreja não aceita o ser humano como ele é em sua diversidade: percebi, em diversos episódios, comigo ou com amigos próximos, que a igreja impõe uma forma, um estilo de vida, do vocabulário ao vestuário (e muitas vezes sem nenhum embasamento). Quem é diferente da forma tem duas opções: ou finge que tem a forma ou será excluído (naturalmente por não aguentar uma vida de fingimento ou forçadamente por insistir em aparecer por lá fora da forma).

“As comunidades humanas não diferem da vida em geral. Elas também são formadas a partir dessas duas necessidades — a necessidade de autodeterminação e a necessidade que temos uns dos outros.
Mas, na sociedade moderna, é difícil acatar o paradoxo inerente a essas necessidades. Procuramos satisfazer uma delas em prejuízo da outra. Muitas vezes, o preço de pertencer a uma comunidade é se privar da autonomia individual. As comunidades se formam em torno de doutrinas, tradições e padrões específicos. Os indivíduos são solicitados a se conformar (…)
Com a perda de autonomia pessoal, a diversidade não apenas desaparece, mas se torna um problema gerencial. A comunidade gasta cada vez mais energia com novas maneiras de controlar os indivíduos por meio de políticas, padrões e doutrinas que proliferam indefinidamente.”
(Margaret J. Wheatley em Liderança para Tempos de Incerteza)

O Valor da Comunidade: pequenos grupos de pessoas, daquele tamanho onde cada um consegue se conhecer a ponto de perceber que é completamente diferente e dependente do outro, tão diferente e tão dependente que é necessário que exista amor para que a diversidade seja reconhecida e incluída, para que a convivência se torne possível e para que se encontre uma forma desses seres tão diferentes se coordenarem juntos para algum propósito comum. Como se fossem partes do mesmo corpo: absurdamente diferentes, absurdamente conectados e abusurdamente interdependentes. Essa percepção me veio através da convivência profunda, aberta, interdependente com pequenos grupos muito diversos com quem tenho convivido por muitos anos: família, um grupo de amigos pequeno com décadas de convivência (que se auto entitula de "patota"), um grupo seleto da amigos de profissão, que continua conectado mesmo após se desconectar de uma empresa e, por fim e muito importante, meus atuais sócios.

A diversidade de fontes e a conexão entre elas: "entre o céu e a terra" existe muito mais coisas acontecendo do que jamais poderíamos imaginar. Com o avanço e as descobertas da neurociência, física quântica, as profundezas do inconsciente e por aí vai… Um pouco de contato com essas descobertas, percebi que muito do que antes era relacionado ao mundo espiritual, hoje é explicado pela física ou pela neurociência como fenômenos químicos ou físicos. Percebi que muita coisa está conectada (pesquise a ciência da complexidade). E, ainda, descobri que há milhares de anos, pessoas têm tentado se conectar com esses fenômenos, essas interrelações e foram sempre martirizadas ou excluídas da sociedade, simplesmente por terem coragem e curiosidade para lidar com o desconhecido (alquimistas, bruxas ou até mesmo simples camponeses questionadores de princípios imutáveis da teologia).
Senti uma forte intuição de que eu deveria estar mais aberto para acessar outras fontes e estar atento para perceber a conexão entre eles e delas comigo. A natureza, por exemplo, seria um tipo de livro sagrado muito mais profundo e que mantém sua conexão com o Divino e com o contemporâneo. O nosso inconsciente, por exemplo, nos envia mensagens estranhas através de sonhos e imagens difíceis de interpretar, mas não impossíveis. Ou, até mesmo, nossos dedos do pé, quanto tempo da vida a gente passa ignorando essa fonte tão importante que diz muito sobre nós?


Bom, por isso tudo, tomei a decisão de parar de frequentar assiduamente uma religião, mas assiduamente buscar uma evolução espiritual, podendo ser eu mesmo, podendo questionar e, principalmente, podendo errar e conviver com a dúvida.

Neste Blog, vou compartilhar aprendizados e encontros, sem querer que ninguém siga o mesmo caminho, mas que pessoas que estão buscando a mesma coisa, possam se conectar comigo e possamos crescer juntos, respeitando o caminho, a velocidade e o ser de cada um.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.