doença moderna

depression, by echok (echo), DeviantArt

E a vida deste momento jamais poderá ser anulada. Ela está além do tempo.
- William Saroyan

-Não tenho mais jeito, não, Elvira. Não levo mais jeito não…pras coisa.

-Olha, tu só tá aflita porque tem andado muito solitária. Não sai de casa. Não conversa com viva alma além da irmã que já está velha e sem assuntos de gente jovem como tu. Não fique assim. Logo tudo passa, tu vai ver.

-Não sirvo é mais nem pras coisa da casa. Não presto. A comida sai salgada demais. A roupa tem o cheiro ruim. O mato cresce e eu fico na varanda espiando o mato, ele arrodeia tudo, mais um tantinho que seja e adentra a casa. Não vou nem falar nas goteira, que este telhado me cai na cabeça um dia. Pois que caia logo que já não aguento mais. É só desejo pela cama. Um alívio o silêncio por aqui, apesar das moscas. Tu escuta uma ave muito longe, ela não quer nada com a tua vida, já tem lá os assuntos dela pra resolver. Perdeu até a beleza, sabe? Passa um boiadeiro ou outro, inseparáveis, esses brutos que carregam as bestas com o repuxo dos pulmões. A mim me cabe ficar calada. Calada e deitada, e uma coisa ou outra se dá na terra, seja noite, seja dia.

-Minha irmã…

-Sabe Elvira que me veio lágrima escorrendo assim do nada? Nem me dei por conta. Quando virei de lado, pro descanso das costas, ela se revolvia inteirinha, querendo o mais distante da minha alma. Passei os quatro dedos, minha tristeza desaguando feito as águas baixas do leito de um rio. Um dia tio Adelino foi chamar o médico. Ele chegou feito uma aparição, todo branco como a Virgem. Disse que eu tinha depressividade. Que era coisa da cabeça. Deixou aí uns remédios que eu tratei logo de jogar fora. Mas eu lhe digo Elvira, o que me acontece é do fundo da alma, ela anda furiosa comigo desde o dia que derrubei o menino no chão e ele ficou cego. Tanto trabalho pra cuidar do menino. Era tão pequenino. Tanta lida e tanto amor. Até o dia em que esqueci a porteira aberta e ele foi atrás de mim. De repente não havia mais o menino. Foi assim. Sumido no riachinho. Se fosse coisa da cabeça, Elvira, eu já tinha enlouquecido. Como é odiosidade da alma, como só eu pude errar tanto na vida e ser tão desgraçada, só se resolve quando a alma tiver sumido desse mundo. É por isso que eu espero, Elvira, em nome do Senhor Jesus Cristo. Ele fará de mim o que achar necessário. Eu espero de olhos bem abertos e com este coração negro. E eu nunca mais vou sentir toda essa pena nojenta que eu sinto de mim mesma.

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