o urutau

A caçula tivera o desejo nas primeiras horas do dia e enquanto o velho enrolava o fumo perguntou timidamente, os olhos no chão.

Os ombros encolhidos abriram como as longas asas de uma garça, o pai acenou com a cabeça sem a voltar atrás e cambaleante foi até o fundo do paiol pegar o facão.

Os melhores coqueiros ficavam no fim da mata, nos bordos de uma estreita faixa monazítica e escura como breu.

Olhou para o céu sem olhar, a desconfiança no suor na testa. Os dedos queimavam como uma corda grossa feita para segurar fortemente todas aquelas coisas que escapam mais dia, menos dia.

O corpo sumido foi deixando um forte odor de tabaco e sal, enquanto as outras meninas acordavam com o calor e a sede.

No meio da mata exitou por um instante ao ouvir o canto do urutau. Cerrou o punho no cabo do facão e procurou a ave, mas não a avistou, nem a ouviu mais.

Madalena era a filha que lhe dava mais contentamento. Era de pouco dizer e muito observar, o corpo da alma brilhando por detrás das sombras das olheiras. Com as outras se impacientava sem motivo, dizendo que elas atrapalhavam o tempo passando, sem saber de nada da vida. Quando ouviu o choro de Madalena ao nascer desceu da árvore e saiu correndo de dentro da mata até a porta do casebre. O rosto sujo do pai beijou as imundices do corpo da filha e o cheiro dos dois virou uma festa única no ar da casa. A mulher exausta sorriu mais uma vez e deixou o mundo sem dizer palavra. Madalena nascia igualzinha a mãe. O velho ficou ali, de costas, admirando a vida nova, sem saber bem porquê.

Do nascimento de Madalena até o encontro com o urutau passou um instante apenas e a caçula esperava impacientemente a primeira criança que seria apenas sua. Era o tempo que ficava cada vez mais difícil de se ouvir, mesmo que nas horas mais calmas do dia.

O velho pisou na praia à procura dos coqueiros e o mais rápido que pode se afastou da mata, receando o canto do pássaro. Um sonho lhe contara que um dia as filhas o encontrariam estirado no chão como um peixe trazido pelo mar. Isso foi há muito tempo. Desde então evitava aquelas praias e a longa travessia da mata que lhe servia de presságio.

Olhou para o mar desconfiado, depois para o céu, e finalmente alcançou o grupo de coqueiros que procurava, subindo o mais rápido que pode.

O mar corria crespo com os ventos alísios que vinham de longe empurrando o oceano. Sozinho em toda aquela vastidão, do cimo da palmeira, o velho batia insistentemente o facão. O baque surdo do golpe o fazia pensar sobre coisas que não tinha controle e repentinamente parou de lutar.

Fazia duas semanas que Madalena não falava com ele. Duas longas semanas de olhar fugidio pela casa, apenas a velha caneca de café deixada no mesmo lugar sob a mesa, todas as manhãs. A desavença por uma grosseria, um desdém, e o silêncio que antes compartilhavam na solidão comum virou um silêncio de pesar. Olhou triste para o chão, tentado, de repente sentiu vontade de descer, mas não sabia como. Quando ouviu a voz da filha sentiu a alegria voltar. E vergonha. Por que não fora ele? Espiava Madalena de canto de olho feito bicho que vai dar o bote, mas se amuava pelos cantos, dono de coisa nenhuma. Pensava uma coisa, da boca saiam outras, a boca lhe traia. Era melhor calar. Com o passar do tempo foram se distanciando mais e mais, como se já não bastasse tudo aquilo que o tempo necessariamente separa.

O calor era tanto que escorria abundante pela musculatura das costas. Ao secar o suor do rosto, não gostou do que viu. Do fundo do oceano, mar adentro, erguia-se uma coluna de tempestade elétrica. Desceu da árvore do mesmo jeito que fazia quando era um menino, de um fôlego só, apressado.

Jogou os cocos espalhados pelo chão dentro daquilo que um dia fora uma rede de pescar e deu um laço apertado, enquanto olhava o leviatã enredando o litoral. O mar erguia-se em nuvens que desabavam feito ondas. Pensou nos peixes no fundo do oceano, grandes cardumes agitados e velozes. No início da trilha estancou e ouviu cuidadosamente. Assomava o matagal quando o urutau cantou duas vezes.

- Madalena — disse pra si mesmo, finalmente.

Não iria atravessar.

A mais jovem das filhas ficou sentada na pilha de madeira nos fundos do casebre, pensativa. Sentia-se aliviada e repetia muitas vezes pra si própria o nome do pai que tão pouco se ouvia naquela vida:

- Bernardo. Pai Bernardo — e repetia.

Gostava do nome que a mãe lhe revelou certa vez, depois de uma conversa de poucas palavras. A mãe fora buscar a certidão no fundo da gaveta do traste do quarto que fazia as vezes de cômoda. Quando voltou parou na porta e disse seriamente, naquele seu modo de dizer as coisas quase sem mover os lábios:

- É o mesmo nome do seu avô.

Madalena olhou para as letras do papel e achou bonito o que viu, as letras perfiladas feito feijões na mesa. Correu até o quarto pra buscar a sua certidão e ali mesmo juntou ambas, comparando cuidadosamente o que havia em cada pedaço de papel. De repente descobriu duas linhas iguais:

- O nome do pai está aqui, — adivinhou.

Madalena pensava com estranheza sobre a razão das coisas quando foi surpreendida pela chuva repentina. O vento veio em seguida, trazendo nos punhos cerrados o cheiro inconfundível do encontro do mar com a terra. Protegeu-se na cozinha e com os ouvidos atentos tomou uma última caneca de café frio e esperou o tempo passar. Não durou muito. Foi o agravo de um estrondo diante da porta que a fez correr pra dentro da mata o mais depressa que pode.

Do outro lado da ilha o velho se afastava mais e mais da praia. Ele venceu com dificuldade o primeiro grupo de rochas daquele lado da ilha e seguiu a passos largos ao lado da encosta, num pequena trilha íngreme e rala de vegetação. O corpo dava os primeiros sinais de cansaço. A visão era tão desoladora quanto exuberante. No meio do oceano um monstro marinho se revolvia em espasmos erguendo gigantescas ondas que castigavam a orla do litoral. Com alguma dificuldade conseguiu transpor outro grupo de rochas com as ondas rebentando à sua esquerda e o derrubando aqui e ali no chão da encosta. Foi com grande surpresa que avistou uma pedra gigantesca em seu caminho, desafiante, como o último limite entre o homem e a natureza. Não se recordava dela um dia ter estado ali. Até onde sua memória alcançava, não deveria demorar muito para alcançar o campo que o levaria até os limites do povoado. Para ele, aquele era o segundo presságio: o urutau se transformara em pedra e impedia o seu retorno pra casa marcando naquele instante o destino inamovível. Apoiado nas raízes do solo ele secou do rosto a água salgada que lhe embaçava a visão e olhou uma última vez antes de começar a subir.

Não havia muito tempo, Madalena sonhara com um peixe-homem trazido pelas ondas do mar. O seu corpo brilhava com escamas cor de prata que podiam ser avistadas da praia. Nadava e sumia para voltar a aparecer e sumir indefinidamente, tão satisfeito na sua condição de criatura marinha. Madalena perdia-se na graça daquele estranho animal, contemplando a sua felicidade com uma inquieta cumplicidade, como naqueles momentos em que uma alegria quase que incontida antecede uma grande desgraça. O peixe-homem parecia não se importar com nada, alheio ao que de pior pode acontecer nesse mundo. Foi então tão de repente que do meio do oceano uma coluna d’água ergueu-se assustadoramente e trouxe o corpo do animal até a praia, afogado e morto, os olhos cegos. Madalena num grito despertou sobressaltada diante daquele olhar sem fundo. No dia seguinte contou o sonho para o pai que comentou secamente:

- Há demônios no mundo que não podemos compreender.

Madalena corria para dentro da escuridão pensando no significado daquela frase. Não sabia que a criança jamais teria a posse do silêncio das manhãs com o avô, de todas as suas alegrias de filha, a mais perfeita.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.