sementes

A felicidade é, quase sempre, uma irresponsabilidade. Somos felizes durante os breves instantes em que fechamos os olhos.
– José Eduardo Agualusa

Pegou a fruta e saiu correndo. Correu tanto que viu o chão duas vezes, no embaraço; o feirante atrás, carregando o ar de impropérios e cheiro de fruta. Bem no meio do caminho o que ficava, caia. Quando viu tinha dois, tinha mais três, todo mundo corria.

Toda semana aprontava das suas e roubava, invariavelmente, as frutas. Tinha a vida doce no gosto da boca e amargura nenhuma. Sonhava a vida trepado numa árvore, roubando fruta e comendo lá nas alturas, uma após a outra, com as duas mãos. Vivia como um bicho da terra e não queria criar muda em chão nenhum, nem pagar tostão. Ficava pelos cantos, nos arredores, gostava mesmo é das redondezas, no seu modo de espiar as coisas dos outros, o que vai e o que volta, sem maldades.

Gostava de tudo o que via, até mesmo achava graça, e se ria das comadres e dos compadres. Eram bichos daquela terra, iguaizinhos a ele, sua gente. Erguia a cabeça pro alto quando o cheiro da fruta madura vinha no tempero do vento. E como era bom! Na hora que o feirante arredava da banca para erguer os caixotes aparecia saltando por debaixo da terra e pegava umazinha só, um dia devolvia, mas não sabia o dia. O feirante com todas aquelas, mas que coisa mais feia, era só umazinha!

E sumia no meio da multidão, o corpo cheio de sementes, direto para o barro do chão.