Corpo

Ali estava e ficaria até o dia terminar. Olhando para o corpo á sua frente.

Nu.

Como se lhe dissesse que ela precisaria aceitá-lo como ele é. Como sempre foi.

Seu.

Já haviam se passado muitos dias e calendários inteiros até que aquele encontro acontecesse. A jovem de pensamentos rápidos e sonhos abandonados. De paixões febris e medos inexplicáveis.

É, ela teve medo dessa conversa.

Mas, finalmente estava ali, olhando aquele corpo juvenil, mas, com marcas de tantas lutas e batalhas ganhas e perdidas. Corpo com cicatrizes visíveis aos olhos alheios, e aos seus próprios.

E haviam outras marcas.

Invisíveis.

Sabe, aquelas onde por anos planejou passar uma faca, uma navalha ou o canivete de seu avô.

Então ela chorou.

Por lembrar algo escondido. Um olhar daquele que deveria protegê-la. Olhos vidrados em seu corpo infantil e nu. Mas, isso era errado! Era impuro e deveria ser pecado!

Era crime!

As lágrimas escorriam pelo pescoço e desciam naqueles seios tão fartos, que um dia, ainda magros, foram apalpados por um conhecido seu.

Que não respeitou seu espaço, seu corpo, seu grito abafado pela almofada. E mesmo querendo gritar, ela continuava calada.

E sentia-se sendo molhada pelas lágrimas da libertação.

E lembrou de todos os abusos da infância, das aulas que passou vomitando no banheiro, dos remédios em exagero, para dormir e não ver o dia recomeçar. Está aí uma palavra boa, ela pensou.

Re começo!

Que genial. Não poderia mudar o começo, então, escreveria um novo final!

E olhou por fim, com amor ao seu próprio corpo. E percebeu que ele havia lutado junto com ela. Todas as batalhas, lutas, brigas e guerras. E que ele merecia o que ela tanto procurava.

Respeito e cuidado. Era seu corpo recém amado!