10 maneiras do mundo acabar

publicado originalmente na Confeitaria Mag em outubro/2015

Pode me chamar de catastrófica, mas eu acho que já estamos vivendo o apocalipse, e faz tempo. Em 2006, um e-mail que escrevi tinha o seguinte título: “O mundo está tão Blade Runner lá fora…”. No caso, era um blablablá para convencer um homem a ficar comigo — mas o medo era sincero. Eu sentia que a coisa estava braba (de lá pra cá só piorou, as evidências abundam). E o que eu tenho feito para aprender a lidar com um futuro desprovido de internet, transporte público, viagens internacionais, livros, café espresso, tofu, energia, petróleo e água — entre outras necessidades básicas? Olha, além de tentar convencer meus sobrinhos a estudarem técnicas para cultivar sua própria comida e não morrer de sede, eu leio ficção distópica para ir me acostumando. E pra ver se eu mesma aprendo alguma coisa.

Tudo teria começado quando eu era criança e descobri a ficção científica. E teria se aprofundado quando explorei a literatura cyberpunk nos anos 90. Adoraria que essa tivesse sido a nobre origem do meu gosto pelas distopias — mas desconfio que tudo tenha começado, mesmo, quando estava em um avião e vi minha vizinha de viagem devorando o primeiro volume de Jogos Vorazes, cujo cartaz estava em todas as livrarias pelas quais havia passado naquela viagem. Ué, mas não é livro de adolescente? Minha vizinha era adulta — e não largou o livro nas nove horas em que passamos juntas. Mal desci do avião e já tinha The Hunger Games na minha maquininha de ler.

Desde então, o mundo já acabou de diversos jeitos dentro do meu Kindle. Vou fazer aqui uma listinha do que eu tenho lido, caso você queira se preparar também (alerta de spoilers!):

O mundo pode acabar por causa de um Robocalypse . de Daniel H. Wilson. Esse é um medo velho — e provavelmente muito acertado. Aqui, a primeira máquina que adquiriu consciência começou a falar com todas as outras — liquidificadores, carros, robôs — e arquitetou uma rebelião massiva para eliminar os seres humanos e, assim, preservar a biodiversidade do planeta (o cara sabia das coisas e não tinha sentimentinhos para atrapalhar o que devia ser feito). Foi sangue e ossos por todos os lados, cidades destruídas, gente passando fome etc. Mas pequenos grupos de resistência se formaram e descobriram onde se escondia o computador chefe. Bora reconstruir o mundo?

Mas o mais provável é que o mundo acabe pela ação humana antes que as máquinas possam interferir. The Bone Clocks , de David Mitchell, não é uma distopia. É uma história bem louca sobre duas facções de humanos que não morrem, e seus respectivos poderes psíquicos. Mas o livro termina em um futuro próximo no qual vemos a protagonista, Holly Sykes, morando em uma ponta da Irlanda e tentando se virar com a escassez resultante de séculos de intervenção humana nos ciclos do mundo natural. Inundações e enchentes — como a que matou mais de cinco mil pessoas no metrô de Nova York — acabaram com a vida nas grandes cidades, e Sykes vive em um vilarejo isolado sem tecnologia, sem gasolina, com a comida acabando e os queridos vizinhos começando a se matar por causa disso. Essa parte ocupa nem 10% do livro — que entra na minha lista porque acho um cenário bem realista, altamente provável, e bem construído (e eu preferiria que o livro todo fosse sobre isso).

Outro bom jeito do mundo acabar é com uma guerra. Não que isso traduza exatamente o que acontece em The Gone Away World, de Nick Harkaway, cujo personagem principal se chama Gonzo. Esse livro é, aparentemente, cheio de homens másculos e grandes caminhões e atos de heroísmo e lutas — mas conta a história de um universo bem esquisito e me ensinou o que é reificação: “the making of an idea into a thing”, explica um personagem. A “go away bomb” retira energia e informação da matéria. Matéria sem informação se torna “Stuff” — que, sedento por informação, a encontra no mundo psíquico dos humanos ao redor, e materializa o resultado (transforma a ideia em uma coisa). Como, por exemplo, a garotinha que dorme sonhando que é um cavalo, é envolvida pelo “Stuff” e, quando acorda, virou um centauro inacabado.

Como quem mora em São Paulo já sabe, no futuro que bate à nossa porta o aquecimento global acabou com a água do planeta — mas a história foi praticamente reescrita e os culpados foram esquecidos. A personagem principal de Memory of Water, de Emmi Itaranta, é uma mestra da cerimônia do chá — e, como tal, conhece uma fonte secreta, cobiçada pelo governo. Ela e a amiga descobrem gravações que contam a verdade sobre a destruição ambiental. Te cuida, governador.

Já a trilogia Wool, Hugh Howey, segue a linha de Jogos Vorazes. O mundo foi destruído, o ar lá fora é tóxico, e os humanos que restaram vivem em grandes silos subterrâneos cheios de regras. As pessoas têm profissões e papéis bem definidos, não se fala muito sobre o que aconteceu, revoltas são abafadas, existem um rígido controle social e a heroína é uma adolescente que vai descobrindo coisas.

Existe também uma linha de pensamento que diz que o mundo vai acabar com um acidente cósmico. Neste livro, o mundo se esfacela após um meteoro bater na lua. E aí, amigo, haja tsunami, terremoto, tempestade, mudança de clima — e o consequente fim da vida como a conhecemos. Essa é a história da série de quatro livros de Susan Beth Pfeffer: Life As We Knew It, The Dead and the Gone, The World We Live In e The Shade of the Moon. No fim, assim como em várias ficções distópicas, o mundo que é reconstruído perpetua os mesmos problemas e injustiças do passado, porque humanos não aprendem.

Mas o mundo também pode acabar pela ação de um vírus, como todo mundo já viu em filmes de zumbis. Aqui, o bicho é extremamente violento, e, em poucos dias, dizima boa parte da população do planeta. Station Eleven, de Emily St. John Mandell, é mais “cabeça” que a maioria dos livro dessa lista. Talvez porque, nele, acompanhamos a vida sobre tração animal de uma trupe teatral que encena Shakespeare (ou talvez eu apenas pensei assim porque li uma crítica no New York Times). Outros humanos são o problema no novo mundo, mas a arte promove a redenção de quem pensa que sobreviver não é o suficiente.

The Giver Quartet Omnibus, Lois Lowry, é um conjunto de quatro livros com universos diferentes mas que se interligam. Não é um livro sobre o fim do mundo, e talvez nem sobre o futuro. Não se sabe em que época estamos e nem onde encaixar as sociedades diferentes que retrata. É, na verdade, um livro de fantasia — mas contém um elemento bem comum de futuros distópicos: uma sociedade opressora e o desejo humano de liberdade. Por isso, e por que é uma história bonita e lírica, entra na minha listinha.

Para ninguém dizer que eu só leio bobagem, a última indicação, sim, tem origem nobre: é uma coletânea organizada pelo MIT (Massachussets Institute of Technology) anualmente e editada pelo autor de um dos livros mais importantes do meu rito de passagem para a meia idade (Holy Fire), Bruce Sterling. Twelve Tomorrows (a capa acima é da edição mais recente) apresenta doze contos de escritores de ficção científica. Os participantes desta coletânea são apontados como legítimos futurologistas, descrevendo cenários altamente prováveis, baseados na ciência e no estado atual de desenvolvimento tecnológico e humano. Na edição que li, de 2014, são histórias mais pessoais, com foco nas mudanças do cotidiano no futuro — como a da designer cujo trabalho é atender ligações de eletrodomésticos com problemas não apenas mecânicos, mas também psicológicos. Ninguém fala especificamente sobre o fim do mundo, mas os contos têm sempre elementos distópicos: pós humanismo, governos controladores, o fim da privacidade, máquinas tomando atitudes radicais contra humanos. Aliás, pelo que me consta, ninguém na literatura conseguiu imaginar futuros que não sejam caóticos.

E, para terminar com uma diferença e uma ponta de esperança, deixo também um filme: Goodbye World. Um cyber ataque terrorista põe as grandes cidades em um estado de caos. O que fazer? Fugir para as montanhas, claro — e lá vai a turma de antigos amigos, gente talentosa e cabeça, se reunir na casa no norte da California onde um casal vive off the grid: uma hacker, um milionário dotcom, e a filha. A casa é linda, a adega está cheia de vinhos do Napa Valley, os amigos trazem as memórias e conflitos e, os vizinhos, as tretas. Quando ameaça faltar tudo, men eat dog. Mas, no final, why can’t we all get along? We can. And they do, e, o mundo, se lá fora acaba, termina em amor para os novos hippies. Que é como eu, hippie que sou, desejo que termine o meu.

Ainda que eu ache que está mais pra Blade Runner, mesmo.

*imagem do destaque: Twelve Tomorrows

Agradecimento mais que especial pra minha amiga mais elegante e intelectual Fabiane Secches — que me publicou na Confeitaria e, mais importante, me editou e ainda me edita, tornando meu texto sempre melhor ❤

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Faço tacos veganos e oficinas de horta na Casa Herbívora, escrevo sobre hortas, bichos, plantas e coisas do tipo no www.herbivora.com.br, faço uns vídeos e entrevistas no canal Herbívora no YouTube. Gostou do texto? Segue a página no FB pra ficar sabendo de outros.

Muito grata pela leitura!

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