O que é ser permacultor no Brasil?

A pergunta do título foi a reflexão proposta pela Cláudia Visoni, a professora daquela aula do curso de Design em Permacultura Urbana da Casa da Cidade. Para conduzir ao pensamento ela mostrou história (na forma de fotos tiradas, em sua maioria, do livro Brasil, uma biografia*), falou dos quatro "ismos" que compõem a sociedade brasileira (colonialismo, racismo, machismo, autoritarismo) e passou um vídeo:

No fim do vídeo ela pediu a resposta à questão do título em uma palavra escrita em uma folha.

Eu não consegui escrever nenhuma palavra. Tenho mais perguntas do que respostas, muitas vezes não tenho conclusão nenhuma; opinião posso até ter mas quase nunca escolho ofertá-la. Comecei a achar que não ter uma resposta para essa pergunta, ou uma opinião, e nada para falar no debate do final da aula, é o começo da minha resposta.

Então hoje eu fui na manifestação contra a reforma da previdência na avenida Paulista e vi a cena da foto que abre esse texto. E vi na árvore a representação do que eu acho que é ser permacultor no Brasil.

Um ser vivo e verde que resiste, sozinho, em uma avenida brutalizada pelos carros e pelo corre de ganhar dinheiro, sobreviver — ou de explorar o trabalho de alguém.

Apesar de grande, frágil.

Ao fundo, um prédio vazio, abandonado, deteriorado — em uma cidade em que tem gente morando na calçada.

O povo embaixo gritando, lutando para continuar vivendo com alguma dignidade.

O brasileiro é vítima e seu próprio algoz, por assim dizer. O país que temos é o país que construímos: nós, os colonos portugueses. Nós, a nobreza europeia que aqui aportou e explorou. Nós, os negros africanos trazidos amarrados em porões. Nós, os índios escravizados, dizimados, catequizados. (Nós, os indolentes). Nós, os nascidos da mistura de europeus, negros, índios. Nós, os brasileiros. Nomeados por uma árvore extinta pela nossa ganância.

Dos 4 ismos que a Cláudia falou, o que acabou sendo mais discutido foi o racismo — por conta do vídeo da Lia Schucman. Mas o que mais aparece na minha reflexão é o colonialismo.

Pra ser permacultor no Brasil eu acho que tem que ficar quieto. Saber calar e escutar mais do que falar. Tem que conseguir refrear o ímpeto (pessoal e social) de querer colonizar o outro — o que sabe "menos", o da quebrada, os ex-donos das terras que compramos no litoral e no interior, a classe C/D/E dos empregos de copeira, cobrador, porteiro, caseiro do sítio; o que a gente acha que tá ajudando.

Tem que pensar em apropriação e imposição cultural. A permacultura ao mesmo tempo é uma metodologia que vem de fora, inventada por um gringo australiano, e um resgate de saberes tradicionais. Antes a gente escravizava e catequizava o indígena. Aqueles que não tinham "vontade" de trabalhar. Hoje a gente acha o saber indígena — caboclo, crioulo — bacana. E aí a gente empacota e vende.

Pra que a gente, classe média-alta paulistana em uma escola na Vila Madalena, possa virar permacultor, primeiro a gente tem que descer bem à terra.

Como disse a colega Marcella, a gente tem que "comunalizar os privilégios e redirecionar os recursos". Pra ser gente, no Brasil.

Aqui não dá pra ser nada sem ser política.

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*Brasil uma biografia — Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling

Escrevo sobre hortas, bichos, plantas e coisas do tipo no www.herbivora.com.br, faço vídeos e entrevistas no canal HerbívoraTube, cozinho e dou oficinas de horta na Casa Herbívora. Gostou do texto? Segue a página no FB pra ficar sabendo de outros.

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