Permacultura na cidade: sobre a responsabilidade que se apresenta

Viveiro Escola Nova União, zona leste de São Paulo

Podendo ir praticamente para onde quiser, tenho escolhido por enquanto permanecer na cidade de que tanto já quis fugir. Olhar na cara da responsabilidade que aparece na minha frente, não desviar. Muito fácil seria ir embora, morar na praia, no mato, na ecovila. Ter mais terra pra plantar, respirar o ar puro, ficar dentro da natureza. No entanto tenho achado que a saída é através — e não ao redor, ou por cima. Se isso é o que se apresenta pra mim, aceito; junto do chão a lata de cerveja, junto o papel higiênico que transborda da lixeira no banheiro público, não desvio o olhar do cachorro abandonado. Se é isso que o mundo tem pra mim hoje, quero ver, quero sentir. Quero trabalhar. Manda mais.

Tenho pra mim que juntar aquela sacola de plástico com logotipo de açougue boiando no mar em uma praia deserta é o que vim pro mundo pra fazer. Uma sacola de plástico com logotipo de açougue boiando no mar em uma praia deserta: um símbolo do errado do mundo. Mas não é à toa que eu estou ali olhando pra ela. A sacola é um reflexo do errado em mim. Percebo que é pra isso que estou aqui: pra me ver refletida naquela sacola. Eu tô aqui, viva, nesse tempo, nesse lugar, dia e hora, pra isso: tirar essa sacola do mar.

(ah, mas não fui eu que sujei o banheiro, joguei a lata no chão, abandonei o cachorro. Foi sim, fui eu enquanto representante do coletivo humano. Essa parada de achar que eu individualmente não tenho nada a ver com o que a coletividade faz só tá servindo pra foder ainda mais com tudo. A gente precisa assumir a responsabilidade individual pelas cagadas coletivas da humanidade. Só assim a gente vai começar a agir de fato, e parar de esperar que alguém — qualquer alguém, menos eu — faça alguma coisa)

O trabalho com a terra tem que buscar diminuir a desigualdade social, devolver a terra pros caboclos, simbolicamente através da produção de alimento e da geração de renda dessa produção. Os frutos da terra têm que ser acessíveis aos que não são mais donos de terra nenhuma. Pelo menos isso. Tem gente à deriva aqui na cidade, tem problema, tem cachorro que humano largou se multiplicando e sofrendo. Tento não desviar. Não vou fechar a porteira da ecovila e virar as costas. A saída é através, e não ao redor. É preciso comunalizar todo esse privilégio que eu sempre tive na vida. O trabalho do permacultor é redirecionar os recursos, né não?

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Estive oito dias imersa em um lugar na zona rural estudando permacultura. Um lugar maravilhoso, de céu intenso e experiência imersiva, o barulho dos bichos no mato, sem sinal de internet. Não foi meu primeiro contato com a permacultura, mas foi o mais intenso até agora. Mas sou novata ainda, e as questões que foram despertadas em mim provavelmente já passaram pelo pensamento dos mais experientes. Pois é: a gente precisa pensar nisso.

A permacultura propõe uma outra maneira de ver o mundo, distante da perspectiva antropocêntrica, da ideia de que o planeta inteiro está aqui para o dispor do humano. O humano seria o maestro que orquestra os elementos de um sistema vivo com o objetivo de diminuir a entropia. No entanto, tudo é tratado como recurso — e recurso é fácil de objetificar. Conta-se com o “guarda-chuva” ético permacultural para mediar essa relação entre o humano e os recursos — mas isso é como contar com o bom senso que, sabe-se, muitas vezes tem mas tá em falta. Quando você põe os animais como recurso, especialmente, você está dizendo que pode dispor deles. Você está definindo uma hierarquia em que o humano é superior, e portanto pode decidir sobre a vida dos animais que, afinal, são sua propriedade. Objetos.

A grande maioria dos alunos do curso que eu fiz vive em ambiente urbano. Vão voltar para os seus apartamentos e continuar comprando no supermercado pedaços de gado que pasta no que era floresta, foi comprado para lavar dinheiro, é morto cruelmente e foi embalado pela Friboi. Quando se diz que a solução é mudar a maneira de criar animais, do agronegócio para o design gentil permacultural, você precisa pensar também no que deve ser feito enquanto isso não acontece (e pra maioria das gentes isso NUNCA vai acontecer). Mesmo deixando de lado a questão do sofrimento e exploração dos bichos, o consumo de proteína animal tem uma série de problemas ambientais e sociais que interseccionam com o guarda-chuva ético permacultural — meio-ambiente, direitos trabalhistas, poluição, consumo.

E olha lá a gente de novo olhando pra porteira fechada da ecovila pensando se entra. Ou não.

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Achei um texto que conversa com esse: Por uma permacultura morena e ecossocialista, do Djalma Nery.

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Escrevo sobre hortas, bichos, plantas e coisas do tipo no www.herbivora.com.br, faço vídeos e entrevistas no canal HerbívoraTube, cozinho e dou oficinas de horta na Casa Herbívora. Gostou do texto? Segue a página no FB pra ficar sabendo de outros.