Monstro

É possível sempre ver uma luz no fim do túnel? Evitar que a escuridão tome conta de tudo e nos inebrie, entorpeça e faça com que, em seu torpor, percamos todo e qualquer fio de luz que traga a esperança de ver algo melhorar? Aceitarmos que, em um momento ou outro, tudo vai se perder e que a derrota é algo impossível de se evitar, que é mais simples aceitar?

Há um verso do Future em “Rollin” que talvez seja a frase que mais martela na minha mente nos últimos meses. “I gotta accept that I’m a monster”. E… De fato, talvez tudo fosse muito mais simples e fácil se eu conseguir aceitar e abraçar que eu sou um monstro. Que não existe nada positivo em mim. Que não existe nada digno de se amar.

Como um bom monstro, É fundamental saber se adaptar ao ambiente correto. A viver na escuridão, nas entrelinhas. Sendo só o suficiente para não ser um estorvo completo para todos, se sentindo um completo peso, um lixo indigno de qualquer atenção ou carinho, que não merece ser amado por ninguém.

Saber que, como todo bom monstro, aos poucos você vai aprendendo a afastar os outros para que eles não se machuquem ao acreditar que você tem qualquer qualidade. Pra que iludir alguém, fazê-la achar que existe algo de proveitoso a ser tirado de conviver contigo, quando se sabe que a verdade é o exato oposto? Que de você, só sairá decepção e tristeza?

De certa maneira, é difícil olhar pra mim mesmo e não me enxergar como um personagem de contos de fada, vivendo numa história criada por um roteirista com algumas boas doses de sadismo em sua escrita. E não, não é como se eu conseguisse me identificar com qualquer um dos belos e idealizados príncipes da Disney. Eu sou muito mais um parente distante do Fera ou do Quasímodo do que um Eric ou Felipe.

A única constante na vida é sempre que você irá se doar, se dedicar e não encontrar qualquer reciprocidade. Que as pessoas vão te usar e te descartar quando melhor conveniente e você ou aprende a lidar com isso e aceita o triste destino a que está fadado ou passa o resto da vida se dedicando aos outros, sem esperar nada em troca, já que, afinal, um monstro não merece nada em troca.

As vezes o dano que algumas palavras ditas a ti quando mais novo são mais do que suficientes para causar um dano irreparável. É muito fácil pra mim saber que eu não mereço nada bom, que eu sou um lixo que não merece nada na vida. Afinal, aprendi desde muito cedo que a minha existência é um erro e, naturalmente, erros não nasceram para serem felizes.

Talvez seja essa escuridão que eu deva esperar para toda a minha vida. Trabalhando nos bastidores pela felicidade dos outros, sabendo que a minha hora nunca vai chegar, até eu finalmente alcançar a perfeição que eu espero de mim e consiga me libertar das garras das trevas que se apoderaram, pouco a pouco, da minha alma.

Ou talvez um dia eu encontre uma luz forte o suficiente para apagar aos poucos cada resquício de sombra que existe. Talvez uma luz forte o suficiente que consiga dar foco a essa imagem distorcida de mim que eu vejo no espelho chegue e consiga salvar essa alma que, pouco a pouco, vai perdendo a fé em encontrar algo que faça a dor parar.

Não é o que esperamos? Que em algum momento alguém consiga nos fazer perceber que somos dignos, sim, de que os outros nutram sentimentos bons conosco? Que somos dignos de mais do que ódio e desprezo? Que alguém pode, sim, nos amar, ter carinho por nós e querer de fato ficar ao nosso lado? Que podemos deixar de ser “Fera” e nos tornamos um “Adam”, um belo príncipe capaz de ser amado?

Quando se coloca o peso da perfeição em seus próprios ombros, é difícil aceitar que é possível sim viver sem esse fardo e a dor que ele traz. É como uma síndrome de estocolmo, em que aquela sensação se torna tão familiar que é impossível se adaptar a viver longe do cativeiro do próprio medo, da própria dor.

Eu perdi as contas de quantas vezes eu perdi por liberdade… Por libertação da dor das minhas próprias expectativas. È difícil viver com a dor das expectativas que eu mesmo coloco sobre mim e toda a distorção cognitiva que isso causa em mim. Se eu só consigo me ver como Fera, será que alguém realmente conseguiria me ver como príncipe?

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