Quantas fotos são necessárias para contar uma história?

Uma foto pode contar apenas uma parte da história. Para mostrar o todo são necessárias duas, três ou tantas fotografias.

Talvez uma das temeridades com relação ao fotojornalismo é esta problemática do congelamento do tempo na tentativa de contar uma história através de imagens. Afinal de contas, como resumir uma história complexa em apenas uma foto?

Um exemplo é o tumulto que aconteceu no último domingo, dia 18 de setembro, durante a manifestação contra Michel Temer na Avenida Paulista. É uma história onde o uso de apenas uma única imagem pode induzir qualquer leitor a interpretar os fatos de forma imprecisa ou passional.

Então, como contar o que aconteceu em poucas imagens e algumas palavras?É o que proponho aqui. E para tal desafio ser completo com razoável sucesso, é necessário que eu recorra a fotografias produzidas por outros companheiros fotojornalistas.

Introdução

A confusão teve como personagens principais uma vendedora ambulante irregular e um grupo de PMs. Os coadjuvantes foram Eduardo Suplicy, vários manifestantes e parte dos fotojornalistas que estavam perto do centro da confusão. E como figurantes alguns fotojornalistas, como eu, e alguns manifestantes que estavam mais longe.

A PMSP disse aos jornais que estava realizando na região da manifestação uma fiscalização entre todos os ambulantes. Pretendiam descobrir quem estava operando de forma irregular. Tal função de fiscalização é dividida entre a PM e a GCM e costuma acontecer em eventos grandes, como a Parada LGBT.

A vendedora ambulante tinha sido notificada da sua irregularidade: é necessária autorização da prefeitura para comercializar bebidas em vias públicas. Em seguida ela tentou pegar uma das caixas para guardar no carro mas foi impedida por um dos PMs, o que suscita ainda duas dúvidas:

  • Os PMs fizeram uma abordagem clara o suficiente sem omitir da ambulante que em caso de irregularidade a mercadoria toda deveria ser apreendida?
  • Ou os PMs em cena falaram da apreensão, porém, a ambulante não entendeu direito devido a proximidade com o carro de som?

Ficam as questões que só podem ser respondidas através de algum vídeo com áudio de qualidade razoável.

Outras questões são levantadas tanto pela organização da manifestação quanto por manifestantes:

  • Existia mesmo uma tarefa de fiscalização em andamento na região (N.A.: não notei PMs fiscalizando outros vendedores antes, mas alguém pode ter notado)?
  • Por que abordaram justamente a mulher mais próxima ao carro de som? Foi para provocar?

Já estas questões nem vídeo, nem áudio responderiam. Elas estão fadas a ficarem no eterno campo das conjecturas. E para evitar ao máximo interpretações dúbias ou passionais é que evitarei ao máximo questionar na história que se segue.

Quantas fotos são necessárias para contar uma história? Uma História em Nove Fotos — e algumas palavras

Foto: Paulo Pinto/AGPT

A foto acima foi produzida por Paulo Pinto e foi feita poucos minutos após a PM começar a abordagem. A vendedora resistia a apreensão de suas mercadorias, passava por um conflituoso puxa-puxa com dois PMs, ora com três e sem muito sucesso.

Foto: Paulo Pinto/AGPT

Neste jogo de puxa-puxa, empurra-empurra, a mulher caiu no chão. Se arrastava para impedir que suas mercadorias fossem recolhidas. Agarrava nos pés de algum PM.

Mais manifestantes começam a surgir e a fechar o cerco em cima da cena. Poucos segundos após esta foto acima, um manifestante surgiu empurrando um dos três policiais da cena; uma lata de cerveja foi arremessada do outro lado. O resultado da reação dos manifestantes segue na foto a seguir.

Foto: Paulo Pinto/AGPT

O spray de pimenta foi acionado por um PM, o que ajudou na dispersão dos manifestantes mais próximos. A vendedora conseguiu por alguns segundos agarrar o isopor que os PMs levavam enquanto a PM seguia acionando spray de pimenta para dispersar os manifestantes mais próximos.

Foto: Paulo Pinto/AGPT

Neste momento eu tinha conseguido me aproximar um pouco mais da cena, mas sem ainda conseguir contato visual com o que acontecia: o cerco de fotógrafos, cinegrafistas e alguns manifestantes em cima da PM e de Eduardo Suplicy. O político acaba de descer do carro de som para tentar acalmar os nervos e negociar a situação toda.

Foto: Paulo Pinto/AGPT

No entanto, a tentativa de pacificação foi um fiasco. Poucos segundos antes, uma lata de cerveja foi arremessada de cima do carro de som na direção dos PMs. Pouco depois, um PM acionou o spray de pimenta e talvez contra algum manifestante que se encontrava na direção de Suplicy. E a confusão foi instaurada novamente.

Foto: André Lucas Almeida/CHOC Documental

André Lucas Almeida, fotógrafo do CHOC Documental, é o encarregado desta parte da história: um PM se exaltou e partiu para cima dele e, segundo o André, visando atingir a sua câmera. E ele leva como prova uma foto produzida por ele alguns milésimos de segundo antes da pancada. E apanhou por que? Por fotografar?

Foto: Paulo Pinto/AGPT

Caso a foto do André ainda suscite dúvidas se o PM visava manifestantes a sua frente e não o André, um outro ângulo da situação por Paulo Pinto. André é o fotógrafo de boné. Haviam mais três fotógrafos na frente do PM, um deles ficou atrás do André e do qual só é possível ver um braço levantado com uma câmera no alto acima da cabeça de André.

Foto: Ariadne Barroso para a Agência Photo Press

A PM recuava para a frente do Parque Trianon, local onde outros PMs estavam posicionados. Seguiam cercados a distância por manifestantes e por alguns fotógrafos dispersos na multidão. Durante o recuo mais garrafas e latas foram arremessadas e nesta foto, que fiz em longa exposição devido a adrenalina no momento, é possível ver o rastro de uma garrafa verde caindo nos PMs — e um deles olhando para o objeto.

Foto: Ariadne Barroso/A Lente Imparcial

A situação seguiu tensa por longos minutos. A maior parte da imprensa se posicionou neste ângulo da foto: atrás dos PMs. Lembro de um senhor coletando uma garrafa perto dos PMs, falando que só ia retirar dali para ninguém pegar e jogar novamente nos PMs: foi repreendido por um PM, muito nervoso após ver tantas garrafas e latas arremessadas contra ele e seus colegas de corporação. Seguia uma troca de olhares entre a PM e os manifestantes, muitos gravando tudo com os seus smartphones; eventualmente, um ou dois PMs olhavam para trás, para nós, fotógrafos e cinegrafistas.

A tensão passou.

O que falarão os jornais da grande mídia?

O que falarão os jornais e meios da mídia livre?

O mesmo de sempre: um lado mostra apenas o preto, o outro só o branco, alguns se arriscarão e mostrarão um pouco do cinza. Cabe a quem ler a árdua missão de interpretar, duvidar, filtrar e questionar.

Epílogo

Entre o preto e o branco existem várias nuances que não podem ser ignoradas. Portanto, seria injusto veicular apenas as fotos que produzi desses longos minutos de tensão.

Este é um dos motivos para termos muitos fotógrafos presentes em grandes eventos como esta manifestação na Avenida Paulista: um fotógrafo sozinho pode não conseguir todos os ângulos e está fadado a “mentir”, mesmo que ele não tenha a intenção de ser um “mentiroso”.

E afinal de contas, com quantas fotografias se conta uma história?

Para não distorcer o que aconteceu na Avenida Paulista e procurar aproximar o relato mais ainda dos fatos reais, aqui foram utilizadas nove fotografias produzidas por três fotógrafos distintos. Mas poderia ser contada com dez ou mais fotos de três ou mais fotógrafos: tudo devido a todas as nuances do caso relatado. Alguns pontos infelizmente a fotografia não auxilia no processo de contação de histórias: dai surgem as palavras organizadas num texto torto.