Pelos traços da vida
Nilson Adelino Azevedo tira um enorme cachimbo da gaveta e o coloca junto a um pacote de fumo. Ele afirma que o natural não faz mal, embora o tempo de uso tenha deixado marcas em seu sorriso, além de uma tosse que insiste em aparecer enquanto conversamos. É um senhor de estatura baixa, com seus cabelos brancos e lisos e barba rala.

Após nosso primeiro contato, ele reúne um amontoado de publicações do sindicato em que trabalha, bem como livros contendo ilustrações suas, e se dirige para uma sala calma para um papo leve sobre si mesmo, as charges que desenha e tudo mais.
Nilson é belo-horizontino de nascimento, descendente de índios, mas se considera raul-soarense. Os pais do desenhista, Adelino Martins de Azevedo e Aracy Áurea de Azevedo, o levaram, junto com seus outros nove irmãos, para o município que herdou o nome do Presidente de Minas Gerais (Raul Soares) e lá ficou, até o dia em que voltou a morar em Belo Horizonte, aos 15 anos.
No geral, sua infância foi daquelas consideradas normais para o padrão do interior mineiro. Ele ia para a escola, brincava com os amigos pelas vazias ruas da cidade, fazia suas refeições com a família, subia em árvores. Nilson recorda que aos cinco anos espantou as pessoas ao retratar um cavalo. “Eu gostava de desenhar olhando pela janela, pelo quintal”. Tanto que sua família lhe contou que, ainda mais novo, já usava os lápis trazidos pelo pai para rabiscar as paredes da casa em que moravam, “até onde alcançava com as mãos”. O chargista ainda recorda: “Meu pai não dava dinheiro para comprar revistas. Quando conseguia algum, comprava e ia trocando”. Essas trocas aconteciam entre amigos, principalmente após a matinê do cinema, que ocorria aos sábados. “Igual ao Cinema Paradiso”, ri Nilson. Dentre os personagens que admirava, destaca Tarzan, Fantasma, Zorro, Mandraque e Pernalonga. “Minha personalidade é uma influência de Jesus Cristo e Pernalonga”.
E foi com essa fé e humor que chegou aos seus 66 anos, trabalhando hoje no Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Energia Hidroelétrica (SINDIELETRO), sem nunca ter estudado desenho de forma catedrática. Nilson credita a sua carreira uma certa dose de sorte, pois trabalhou com profissionais que julga serem os maiores jornalistas e humoristas do Brasil. Sua primeira publicação ocorreu no suplemento Cartum JS, que era publicado no Jornal dos Sports e que foi criado por Ziraldo. Pupilo e discípulo de Henfil nos anos 70, ele chegou a morar com outros cartunistas engajados na cidade do Rio de Janeiro — que experimentava ser a vanguarda do humor na época -, embora tenha sido rechaçada por seu amigo tão logo. “Como dizia o Henfil, o Rio já era!”. E assim, após um período no Rio de Janeiro, seguiu os conselhos do amigo e partiu para a cidade de São Paulo, em 1979, não hesitando em retornar a Belo Horizonte anos depois.
Nilson é daqueles que fala muito. Ao final de uma pergunta simples, têm-se uns 10 minutos de informação, ou mais, cheias de referências, nomes e datas. Foi casado, mas hoje não o é; pelo menos, oficialmente. Ao logo de sua carreira publicou suas charges e desenhos em diversos jornais brasileiros, enfrentando a censura do período da Ditadura Militar e a censura velada dos meios de comunicação. Seu posicionamento político — de esquerda — chegou a colocá-lo em risco algumas vezes, embora nunca tenha sido preso ou tenha sofrido violência por causa de suas ideias. Ele ri ao comentar sobre sua sorte, pois sempre saía da redação antes de alguma abordagem feita pelos órgãos repressores da ditadura. Dentre os trabalhos feitos, o autor destaca o Almanaque Humordaz — caderno de humor que teve apenas 02 publicações, sendo então censurado — e desenhos publicados nos jornais O Pasquim e Diário de Minas, além de livros diversos e publicações feitas para sindicatos.
O embrião de sua visão política é atribuído ao impacto causado por Pererê, personagem criado por Ziraldo e publicado inicialmente no ano de 1959. “Aquilo pra mim foi uma revolução. Eu vou desenhar e quero fazer cartum”. Quando tinha 15 anos, conheceu Ziraldo em Belo Horizonte, com auxílio de uma irmã. Maravilhado com o encontro, escreveu duas histórias e as mandou ao autor/cartunista. Nilson afirma que seus textos foram usados por Ziraldo no último número publicado de Pererê. “Pô, virei uma celebridade na cidade (Raul Soares). Quase morri quando vi aquilo. Só que foi o último número do Pererê”.
Para Nilson, o momento pelo qual passam os chargistas no Brasil é triste, chegando a comparar a importância do trabalho do cartunista à importância do horóscopo. Um problema de credibilidade, constata: “Humor, para mim, é dizer a verdade com graça. Dizer uma mentira, com graça, é [ser] um mau humorista”. Indo além, acrescenta que a discussão sobre a liberdade do artista não possui fundamento se você trabalha em um veículo jornalístico. “Humor tem limite sim. Vai perguntar para o seu editor!”. Contudo, acredita que o material humano em Minas Gerais é muito bom e faz milagre com o espaço disponível.
Com seu jeito elétrico e falador, Nilson se expôs em quase de 03h00 de conversa. O SINDIELETRO é hoje a casa do chargista e ele se diz feliz com a vida que leva hoje. Contudo, percebe-se um leve tom de desapontamento em sua voz, quando constata que as portas do mercado jornalístico convencional estão fechadas para ele. “Não se pode vencer todas as batalhas”.
Ao término do encontro, o prédio do sindicato se encontra vazio. Entre apertos de mãos e trocas de sorrisos, a despedida. Fica a certeza de que o humor sempre se fará presente em sua vida e em sua arte. E que na luta, a ternura jamais será perdida, pois sempre haverá espaço para se desenhar novas ideias.
