Água é vida.

foto da minha amiga tartaruga tirada no Havaí, em fevereiro de 2013.

Cena do filme Imensidão Azul de Luc Besson. O mergulhador Jacques Mayol sonha que seu quarto está sendo preenchido de água, vinda do teto em direção a sua cama. O líquido preenche todo o ambiente e golfinhos aparecem nadando livremente.

Página 94 de O gosto do cloro, quadrinhos de Bastien Vives, um casal de jovens adultos faz uma pausa nos treinos de natação em uma piscina pública. Debaixo d’água, a garota fala algo que não pode ser escutado pelo garoto. Ela pergunta se ele entendeu e ele diz que não. Ela combina de revelar o segredo na semana seguinte. Ela não aparece.

Aproximadamente 16 horas do dia 11 de março de 2011, estação de trem de Shizuoka, Japão. Estou diante de uma TV vendo cenas do tsunami que havia acabado de atingir a região nordeste do país. Casas e carros boiavam como se fossem brinquedos.

Tenho fascinação pela água. Seja na ficção ou na vida real. Atração e respeito ao mesmo tempo. A água é poderosa. Ela é essencial à vida mas também pode ocasionar a morte de dezenas de milhares de pessoas de uma só vez.

Confesso que, apesar disso, não sei nadar direito. Talvez isso aumente o meu respeito por ela. Fiz natação quando tinha uns 5 anos de idade. Consigo cruzar alguns poucos metros na água, mas me atrapalho todo na respiração e nas braçadas. Já fiz aula de mergulho com tanque de oxigênio, já nadei ao lado de uma tartaruga marinha numa praia semi-deserta no Havaí (pra minha sorte ela estava no raso), mas nunca soube nadar muito bem não. Se estivesse numa prova de natação nos jogos olímpicos ficaria pela metade do caminho tentando me segurar nas bóias que separam as raias (fora o mergulho de barriga na largada).

Não posso reclamar muito. Tem uma escola de natação a poucos metros da minha casa. Passei uma vez lá para me matricular, mas nem molhei os pés lá dentro. E, mesmo assim, preciso contar que a natação fez um bem danado para minha saúde, mesmo que indiretamente. Vou explicar.

A escola de natação exigia que eu tivesse um atestado médico que comprovasse que eu estava em condições de frequentar as aulas. Algo que faz parte das regras de qualquer academia. Sendo assim, aproveitei para marcar consulta com uma endocrinologista e aproveitaria para fazer alguns exames de rotina.

A consulta ocorreu de forma tranquila até o momento em que ela pediu para examinar o meu pescoço para sentir a região da tireóide. A princípio, ela suspeitou que eu pudesse ter algum pequeno nódulo e incluiu entre os exames de sangue, um ultrasom da região do pescoço. Algumas semanas depois, fiz o exame que confirmava a presença de dois nódulos na minha tireóide. A etapa seguinte foi confirmar a natureza destes nódulos através de um exame de punção, que nada mais é que inserir uma agulha de seringa no pescoço para retirar amostras de tecido. Doeu.

Peguei o resultado do último exame pela internet: carcinoma papilífero, vulgo cancêr. Ou vulgo: “tava fodido pra cacete”. A médica que eu estava me consultando estava grávida e o bebê havia nascido nesse meio tempo. Mas consegui me consultar com outra médica no mesmo dia que peguei o exame e ela me tranquilizou. Ela explicou que o câncer de tireóide costuma ter uma evolução bem lenta com pouquíssimas chances de se espalhar. O tipo de cancêr que as pessoas escolheriam se tivessem que escolher um, disse ela. A solução era uma só: retirada total da glândula de tireóide através de procedimento cirúrgico.

Saí de lá com algumas indicações de cirurgiões, mas minha irmã me indicou o pai de uma amiga, que por sorte também aceitava o meu plano de saúde. Dia 02 de maio de 2012, fiz a cirurgia. Deu tudo certo conforme haviam me dito. Hoje, como consequência disso, todos os dias, preciso tomar um pequeno comprimido do hormônio da tireóide sintético. E um gole de água.

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