“No que você está pensando agora?”

Já fazia tempo que algo o incomodava. Eram as notícias, as guerras, os escândalos, as discussões que elas geravam nas mídias sociais, as brigas no almoço em família e até mesmo na mesa do bar entre os amigos. Ao longo de sua vida nunca se sentira tão insatisfeito com o mundo e com as pessoas que viviam nele. Precisava fazer algo. Urgente.
Naquela noite ele não conseguia pregar os olhos. Tudo aquilo parecia estar prestes a explodir na sua cabeça. Como as pessoas não conseguiam enxergar o que estava acontecendo? Por que ninguém fazia nada? Eram tantas questões e as respostas pareciam ser tão óbvias.
Olhou no celular e viu que eram três horas da manhã. Levantou-se e resolveu fumar um cigarro na janela do quarto. Não havia ninguém na rua e os poucos carros que podiam ser ouvidos pareciam estar bem longe. Ficou cerca de dez minutos encarando a única estrela que estava visível no céu quando um ideia surgiu em sua mente. Se fosse um personagem de cartoon com certeza uma lâmpada teria acendido em cima de sua cabeça. Agarrou o maço de cigarro e o isqueiro, passou na sala para pegar o laptop da mochila e sentou-se à mesa da cozinha, que era a única que ele tinha em casa, e abriu o computador.
Seus dedos estavam agitados e mal podiam esperar o aparelho ligar. Já fazia um tempo que ele não postava nada em sua conta de Facebook. Mas desta vez ele sentia que tinha algo muito importante para falar e era através da rede e de suas palavras que ele queria que seus amigos e familiares soubessem o que se passava. Sua mente estava em estado de epifania, como nunca havia estado antes e ele mal conseguia lembrar de sua senha de acesso. “Pirocoptero1234!!!” — Enter.
“No que você está pensando agora?” perguntava a tela do Facebook. “Muitas coisas” ele pensava, “muitas coisas!”. Apertou os olhos como se quisesse enxergar melhor o teclado, respirou fundo e logo em seguida começou a vomitar as palavras através das digitais. Ele, que tinha dificuldade até para preencher um cheque, começou a bater nas teclas como se fosse Jerry Lee Lewis tocando Great Ball of Fire no piano. E tudo fluia como se realmente fosse música. O cursor na tela piscava como um metrônomo e as batidas das teclas pareciam ter um ritmo constante.
44 minutos e 4.891 caracteres digitados depois, o texto estava pronto. Apenas uma rápida passada de olhos para não deixar nenhum erro mais grosseiro e “clique”, estava postado. Ele não sabia se alguém iria ler tudo aquilo ou até mesmo se ganharia um único like, mas isso não faria a menor diferença pois neste momento seu sentimento era de alívio pleno e sua mente parecia estar entrando em estado de meditação. No mesmo lugar que antes ferviam palavras, agora restava apenas um grande vazio. Abaixou a tela do computador e foi caminhando lentamente até a cama, onde teve um sono profundo e tranquilo.
Acordou com a batida da janela que havia ficado aberta. A calma acabou quando se deu conta que já era tarde e estava atrasado. O celular tinha ficado sem bateria e não tocou o alarme. Correu até a cozinha pra ver o relógio. Já eram quase dez e o escritório ficava a mais de meia hora dali. Aproveitou para pegar o laptop e algumas roupas na área de serviço. Cinco minutos depois já estava chamando o elevador.
Ia entrar no elevador quando ouviu alguém mexer na maçaneta da vizinha do final do corredor. Pensou duas vezes antes de segurar a porta para que a Dona Serena do 97 pudesse descer junto. Ele sorriu e deu bom dia mas a única coisa que recebeu em troca foi um rascunho de sorriso no rosto da senhora e um rastro de perfume doce de quinta categoria.
Sorte que o metrô ficava a poucas quadras. Se tudo desse certo chegaria antes das onze no trabalho. O celular ainda estava descarregado e nem dava para avisar alguém do seu atraso. No vagão teve a impressão que algo estava diferente. Quase todos os passageiros estavam concentrados em seus dispositivos eletrônicos, ninguém conversava e o ambiente parecia estar mais quieto que o normal, mas como ele estava impossibilitado de usar o seu aparelho, achou que este seria o problema.
10h55 colocou os pés no escritório e um alerta vermelho piscou. Todos olhavam para ele. “O que teria acontecido? Alguém morreu? Será que vou ser demitido?”. Inúmeras possibilidades começaram a pipocar na sua cabeça. Começou a caminhar em direção a sua mesa mas logo foi interrompido por Lígia, a secretária de seu chefe, que informou que ele teria que se dirigir a sala dele. “Demissão, demissão, demissão” dizia o pop up mental.
Entrou na sala pedindo desculpas pelo atraso mas Jorge, seu chefe, mal ouviu e foi logo pedindo para que se sentasse. O tom de voz era de tristeza e seus olhos pareciam marejados como se tivesse chorado há alguns minutos atrás. Suspirou profundamente antes de lhe dirigir a palavra e disse o seguinte: “Amigão. Acho que posso te chamar assim, né? Eu li o que você escreveu. E sabe? Sinto que você leu a minha mente. Mais do que isso! Você leu a minha alma! Cancelei uma reunião agora de manhã só pra te aguardar e te falar isto: tenho muito orgulho de você aqui com a gente. E muito obrigado pelo que você escreveu.” Neste momento, os olhos de seu chefe pareciam que iriam transbordar em lágrimas novamente e foi ai que ele resolveu agradecer e pedir pra se retirar da sala para evitar que aquele momento não se tornasse mais constrangedor ainda. Mas nem chegou à porta e teve que se virar novamente para atender mais um pedido de seu superior, que desta vez já tinha uma lágrima escorrendo pelo rosto: “Mais uma coisa! Posso compartilhar seu texto?” “Sim, claro.” — respondeu ele rapidamente, olhando para o chão e saindo da sala.
Foi para sua mesa sem entender direito o que tinha acabado de acontecer. Havia esquecido completamente do texto que havia escrito na madrugada anterior e ainda não havia feito a conexão entre um fato e outro. No momento tinha achado que o chefe estava falando de algum relatório de trabalho e que ele estava emocionado por causa de alguma outra coisa qualquer. “Mas qual relatório teria sido este?” — se questionava.
O toque chegou quando sentou em sua mesa de trabalho e Rafael, que se sentava do outro lado da baia, esticou o pescoço para cochichar: —“Aê, mano! Belê? Cara, teu face tá bombando hein? Onde tu achou aquele texto? Foi você mesmo que escreveu? Já compartilhei, viu?”
Foi ai que a ficha caiu e as peças se encaixaram. Ele, que nunca acessava o Facebook do trabalho, fez uma excessão neste momento para saber da repercussão que sua postagem havia tido. “Pirocoptero1234”— Enter.
Ele não entendia muito de como funcionavam as redes sociais e nem tinha ideia do que poderia ser considerado popular, mas os números mostrados nas bolinhas vermelhas de notificação do site beiravam os 5 dígitos e aquilo já parecia fora da realidade. Principalmente pra ele, que teve como postagem mais popular até então, uma foto de quando tinha 5 anos de idade, vestido de Superman, que teve incríveis 49 likes. Afinal, quem eram todas aquelas pessoas que tinham curtido, compartilhado, comentado e que até pediam amizade? Começou a pensar sobre aquilo e teve medo das possíveis consequências. Fechou a janela do navegador e tentou lembrar do que havia escrito e se algo poderia comprometer alguém. Não lembrou de ter citado ninguém e também não sabia o que aquilo tinha de tão especial para fazer tanto sucesso. Tentou deixar o fato um pouco de lado e se concentrar no trabalho. Lembrou que tinha que recarregar o celular e o plugou na tomada.
Mal se passaram 2 minutos e a tela do celular acendeu e começou a apitar loucamente. Notificações passavam pela tela como carros na estrada em véspera de feriado. Ele apenas desligou o som do aparelho e sentiu uma grande necessidade de fumar. Bateu a mão no peito e lembrou que o cigarro havia ficado na cozinha de casa. Avisou o colega da frente que daria uma saída rápida e saiu da empresa ainda sob a mira de dezenas de olhares. Desceu pelo elevador se sentindo observado. “Será que todo mundo já havia lido o que tinha escrito e sabiam que ele tinha sido o autor?” — pensava.
Na padaria da esquina comprou um maço de Marlboro e pediu um isqueiro emprestado pra fumar lá mesmo. Enquanto dava suas tragadas na calçada, ficou assistindo a TV que estava ligada lá dentro. Na tela Ana Maria Braga e Fátima Bernardes pareciam conversar sobre fofocas e os acontecimentos do dia. Nada fora fora do normal além da presenças das duas no mesmo programa. Foi aí que a apresentadora loira tira de seu bolso um celular e diz que gostaria de ler um texto. Nas primeiras palavras já deu para identificar que aquele texto era o seu texto. “Mas como? Já? Será que aquilo tudo era real?”— gritando mentalmente.
Jogou o cigarro no chão e se aproximou do aparelho para ter certeza que o que estava ouvindo eram as suas palavras na voz da Ana Maria Braga. Depois olhou para os cantos como se estivesse procurando por câmeras escondidas e voltou correndo para o escritório. Na recepção cruzou novamente com o Jorge. “—Desculpa, sai pra fum…” — tentou dar mais uma explicação mas foi logo interrompido pelo superior. “— Amigão, eu sei que você deve estar cansado. Ficou acordado até tarde, né? Mas sei também que foi por um bom motivo. Melhor você tirar o dia pra descansar e esfriar a cabeça. Queria muito almoçar com você hoje, mas tenho um outro compromisso com minha esposa agora a tarde e deixamos pra segunda, ok? E olha só: imprimi algumas cópias do seu texto pra distribuir pros amigos. Bom final de semana!”
Aquele calhamaço de papel na mão do seu chefe chegou a dar calafrios na espinha e por isso aceitou seu conselho e resolveu que iria pra casa. Enquanto pegava sua mochila e o celular contou para seu vizinho de baia o que havia acontecido na padaria. A reação não poderia ter sido pior. Rafael deu um grito e repetiu suas palavras num tom suficientemente alto para que todos no andar pudessem ouvir que seu texto tinha parado na boca de uma apresentadora de TV. Neste momento sentiu seu rosto ruborizar e sua única reação foi dar um sorriso amarelo e sair rapidamente da sala, enquanto todos os outros funcionários batiam palmas de felicitações.
No caminho de volta, sentiu o celular vibrando no bolso e resolveu conferir novamente o status da postagem. Os números já haviam dobrados. Decidiu então ler novamente o que tinha escrito e conferir o que o texto tinha de tão especial. Mas a recarga não tinha sido suficiente e já dava sinais de que a bateria estava acabando. Resolveu então parar num Starbucks. Lá teria tomada, wifi e um ambiente tranquilo para checar tudo novamente. Pediu um pão de queijo e um frapuccino e sentou no canto mais escuro da cafeteria.
Leu e releu o post. Sabia que não tinha o costume de escrever mas concordava que este seu texto até que estava bem escrito mas nada para ser comparado a algum colunista de jornal ou poeta. Eram apenas opiniões pontuais e pessoais. “Coisas que a gente sempre pensa mas nunca põe no papel.”— definiu ele em pensamento. Em seguida partiu para os comentários. Haviam centenas deles. Reconheceu alguns amigos, alguns parentes, colegas de trabalho, mas em sua grande maioria eram de pessoas que ele nunca havia visto na vida. Eram muitas palavras de agradecimento, corações, bonequinhos animados mandando beijos. Eram apenas coisas positivas a seu respeito e ao seu texto.
Enquanto lia as mensagens sentiu um vulto se aproximando. Era uma garota bonita, de cabelos compridos e olhos grandes e esverdeados. Aparentava ter no máximo uns 20 anos. Ela apenas sorriu para ele, deixou um bilhete em sua mesa e saiu caminhando sem nem olhar pra trás. Nele estava escrito que ela havia acabado de ler seu texto e que o reconheceu porque estava fuçando o seu perfil justamente na hora em que ele chegou. Ela também havia escrito que estava passando por um momento muito difícil na vida e que suas palavras a ajudaram a ter uma perspectiva de que as coisas poderiam melhorar. Dizia que era muito tímida para falar tudo pessoalmente mas agradecia imensamente.
Aquele bilhete ligou um botão dentro dele que o fez enxergar a importância do seu feito. Agora que o susto inicial havia passado tudo o que ele sentia era a satisfação de ter feito algo útil para as outras pessoas. Como se tivesse feito algo pela humanidade pela primeira vez na vida. Sua passagem pela Terra não seria mais em vão.
Pensou, então, em alguém para que pudesse contar as novidades e resolveu que faria uma visita surpresa a sua mãe. Ela com certeza ficaria orgulhosa e tentou imaginar a sua cara ao falar da Ana Maria. Pegou suas coisas e partiu para a rua. Agora caminhava com o celular na mão como se estivesse carregando um filho recém-nascido. Cada notificação era recebida como um sorriso de bebê. Ficou tão vidrado que nem percebeu o caminhão furando o sinal vermelho enquanto atravessava a avenida.
Testemunhas afirmaram que o impacto o matou na hora, que ele nem devia ter sentido dor de tão forte e rápido que foi. O motorista do caminhão tentava se explicar dizendo que o freio havia falhado. O carro de resgate chegou apenas 15 minutos depois do acidente e nada pode fazer. Seu coração havia parado de bater definitivamente naquele dia, mas seu celular foi encontrado intacto e com as notificações ainda chegando.
Ele não sabia, mas depois daquele dia, seu texto viajaria o mundo. Ganharia versões em outras línguas. Seria lido por oradores em formaturas. Teria trechos erroneamente creditados para o Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector e até Albert Einstein. Seria citado por Barack Obama no seu discurso de despedida. Ganharia memes. Seria tatuado nas costas do Neymar. Viraria um vídeo motivacional com locução do Pedro Bial e uma versão internacional com o Morgan Freeman. Ficaria estampado nas paredes da sede do Facebook na Califórnia para sempre, a pedido do próprio Mark Zuckerberg. Afinal, aquele texto era o primeiro textão de Face que havia mudado o mundo.
“Pirocoptero1234” — Enter.