Um novo dia para Ilitch
Era uma segunda e o grande frio já havia passado.
Acordou cedo e tomou o remédio para a dor nas costas que postergou até não aguentar mais. Estava lhe fazendo muito bem, mas o ânimo que lhe advinha decorria de que, depois de 13 semestres na universidade, finalmente voltaria a fazer exercícios físicos. Era um acadêmico incorrigível.
As aulas foram maravilhosas, mas spinning e pump matariam qualquer um. O gozado é que quando se está feliz, tudo é mais leve _mesmo com cercivalgia. Saiu cansado, mas sentindo os músculos do corpo, sentido-se vivo às 9h da manhã. Enquanto os outros seguiam suas rotinas, ele contemplou o céu azul rajado de dourado-sol. Tomou banho, voltou para casa e não se matou de comer _embora a fome apertasse.
Viu por alto as notícias caóticas na internet, deu risada com memes, enervou-se com o tempo gasto no computador. Almoçou um restô d’ontê e comeu um bolo-delícia. Leu revistas antigas tomando sol na varanda. Lá embaixo a vida seguia agitada. No horizonte, muitos caminhos. Pensava sobre eles. Era um dia muito bom! Não fora trabalhar no dia anterior nem iria no próximo. Agradecia a Deus seu novo emprego, há tanto tempo desejado e merecido.
Ao cair da tarde começou a assistir um dos filmes que selecionara para quando terminasse a segunda graduação. Eram muitos acumulados desde 2013, mas já estava findando a lista. Assistiu a quase todos sozinho, e com este não fora diferente. Ela, porém, seguia no seu pensamento.
Assumira de vez que gostava de filmes românticos. Não desses comerciais, claro. Mas não conseguiu ir contra sua ascendência canceriana. Infelizmente estava dublado, porém como o dia estava bom e ele feliz, deu risada ao ver o título traduzido: The Disappearance of Eleanor Rigby para Dois Lados do Amor.
Era um filme intenso, que valia ser visto. Do alto dos seus quase 25 anos, entendia e sentia os dramas das personagens. Identificava-se e, a cada desencontro, pensava o que deveriam ter feito para que tudo fosse diferente. Pensava o que ele teria feito. Pensava nela, via o filme, e sentia confusamente.
Estava abandonando o racionalismo que o caracterizava, em prol do desenvolvimento emocional. Não era fácil, nem sempre, mas fazia avanços. Queria ter visto o filme com ela ou, ao menos, que suas histórias fossem como as da tela. Racionalmente, sabia que poderia ser uma fantasia _mas algo lhe fazia sentir diferente.
Triste com o que julgava ser o fim do filme, alegrou-se ao lembrar que iria estudar os ensinos de Jesus à noite. E amava Jesus acima de tudo, por ser este o único que nunca lhe decepcionara de alguma maneira. Pelo contrário!
Só que o filme não terminou de um modo triste, e ele foi feliz ao encontro de seu Mestre, caminhando pela noite agradável e pensando nas surpresas que a vida nos reserva quando menos esperamos…
