De Roraima aprendendo que não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte ( Mateus 5:14)

Sempre gostei mais das torcidas que dos times. Não sou torcedora entusiasta, mas as torcidas… ah… essas sim me tocam o coração. Ainda me lembro do dia que visitei no Estádio do Pacaembú o Museu do Futebol: debaixo das arquibancadas, projetado nos barrancos, a emoção que toma conta de quem tem o coração capturado numa causa. De repente, me descobri no meio de uma torcida… uma torcida muito mais poderosa, de muito mais significado, de alcance eterno: a torcida do bem!

Uma das melhores partes desse trabalho humanitário que fazemos é ser posta em contato com gente tão boa que a gente se descobre no mesmo time, fazendo questão de passar a bola redonda, torcendo pela alegria, não pelos gols desse ou daquele lado. O embate pouco importa… o que vale é jogar. Gente que doa com a alma, que larga tudo para servir a um povo depauperado e sofrido. Recentemente médicos, dentistas, enfermeiros e farmacêuticos que tornam sua profissão um sacerdócio ao realizarem mais do que seria humanamente possível. Gente aliada com Deus, que ministra, não só consulta. Gente que ao se machucar na véspera da Ação, já não sabe se chora de dor ou de tristeza porque vai perder a chance de ajudar. O ser humano é bom! Minha fé nos filhos de Deus está renovada !
Unidos pela Saúde

A ação “Unidos pela Saúde”de Outubro deu frutos muito bons. Nossa equipe do bem foi fenomenal. Adquiri rapidamente um grande amor por cada um, vindo de diferentes cidades e também de diferentes religiões: presbiterianos, batistas, católicos, independentes e nós, missionários da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias . Tivemos a honra de receber 5 médicos: Dra Eugênia, amiga de muitos amigos da Batista Central em Belo Horizonte, Dra Heloísa e Dra Vitória, pediatras, Dr Eduardo, do Rio, de Medicina de Familia, amigo das terapias alternativas ( me fez uma massagem maravilhosa para dores cervicais), Dr Mauricio, ortopedista. As dentistas foram um presente de Deus: Nicácia, de Almenara, que logo de cara comprou a ideia da ação e trouxe consigo Sulamita e Marta, dentistas, além da bioquímica Francisca e do instrumentador Marcelo. Outras dentistas foram Jéssica e Vanucci, e a única estudante Alana, de Guaranhuns. Só tenho elogios… entraram de cabeça na missão de fazer o bem. O trabalho foi intenso, chegando um médico a realizar 75 consultas em dois turnos. Houve dentista extraindo 38 dentes em um só dia.

Não haveríamos feito tudo o que foi feito sem o apoio dos voluntarios locais: Acadêmicos de Enfermagem e Farmácia, Estudantes do curso de Técnico em Saúde Bucal, médicos e enfermeiros venezuelanos que aqui não podem trabalhar sem diploma revalidado mas podem servir a seu povo na triagem e apoio logístico. Tivemos 2649 horas de voluntariado no total, creio que mais de 150 diferentes voluntários. Atendemos perto de 3 mil pessoas em 9190 procedimentos em 12 dias, sendo quase 2 mil consultas médicas e 1278 atendimentos odontológicos. E o melhor, a maioria absoluta com receitas médicas aviadas. Foram 2538 dispensações de medicamentos. Na véspera, cheguei a sonhar em ver o povo saindo de pacotinho nas mãos, medicamentos distribuídos, a primeira dose tomada. Básico mesmo, Albendazol (desvermifugante) para todos e Ivermectina para muitos, tratamento familiar para sarna, que grassa por aqui. Médicos e equipe todos se medicaram ao fim do processo. Eu continuo orando para que Deus me mantenha saudável. Diria que resolvemos o problema de muita gente. Foi gigante! E gratificante!!!

Estivemos reunidos em vários lugares: na "Igreja da Consolata", ponto central de afluxo venezuelano onde o programa “Mexendo Panela” se instala numa ação contínua de mais de 1000 refeições/dia há mais de 3 anos, "Igreja Maná para As Nações", buscando o povo que paga aluguel e onde tivemos publico de 40 % de brasileiros, "Centro Espírita Paulo de Tarso", onde o publico alvo foi o das ocupações expontâneas na area central. Voltamos a " Igreja da Consolata" por dois dias mais, terminando a semana atendendo na "Rodoviária".
Há casos graves, e a vinda da Dra Eugênia foi providência divina. Ela não tratou casos de gripe, como diz, mas para ela se concentraram os atendimentos complicados, as síndromes, as deficiências. Outro milagre foi contar com Mariangela, a nova “amiga de infância”, filha adotiva da Anita (minha professora no Colégio Batista). Anita nos conectou antes de eu vir e há seis meses ensaiávamos sair para comer alguma coisa… só deu certo quando nos encontramos para trabalhar.. E ela tem feito grande diferença com seu coração gigante e enorme disposição em ajudar.

Foram duas semanas atarefadas, tentando cuidar dos venezuelanos e dos nossos convidados. O Exército fez um papel importantíssimo na logistica, montando e desmontando os pontos de atendimento, transportando os voluntários, colaborando no atendimento e suporte. Que grande benção contar com os Fundos de Ajuda Humanitária para promover ações como essa… é fácil fazer caridade com o $ dos outros, diriam, mas encaro essa tarefa com muita responsabilidade, cuidando para que o melhor seja feito com esses recursos sagrados. Lembro o dia em que demos com uma senhora internada no HGR segurando de pé no braço levantado, o vidro de soro na mão. Aquilo parecia o fim do mundo, até descobrirmos que havia centenas de suportes de soro guardados nos depósitos da saúde no Estado. Por essas e outras, (como oferecer à Maternidade a compra de duas incubadoras com um recurso imediatamente disponível e permanecer esperando a especificação até o dia de hoje) descobrimos rápido que colaborar com o Estado não seria seguro. Mas, o que fazer? Bati, bati, pedi , orei… até que a inspiração e o desenho da Ação que realizamos se configurou com clareza. Sei que foi inspirado por Deus para abençoar um povo sofrido.
Mal sai da atividade e já estava correndo para aprovar a ação de Novembro, em que vamos trazer 20 profissionais, onde os medicamentos já estão muito mais delineados. Acredito na demanda, acredito nas pessoas, acredito que tudo vai dar certo. Começamos essa semana! Já tem outro grupo chegando na cidade. Gente do bem, o time que me emociona! Orem por nós… queremos atender os que mais precisam!
INTERIORIZAÇÃO DO TRIMESTRE: 2651 PESSOAS!
Para nosso espanto inclusive (e ainda maior de quem está por aqui), nosso programa interiorizou 1096 pessoas no mês de agosto, 880 em setembro e 675 no mês de. outubro. Seria mais não houvesse o cerceamento que hora enfrentam todos que veem como solução para essa crise interiorização. Esse é um trabalho de equipe… um trabalho pesado que exige muito de muitos. Aqui em Boa Vista e Manaus Elder Martins, Sister Martins, Elder Myrrha, eu, Geraldo, Pedro, Queine, Zizi, Helamã, militares parceiros e outros. Contamos ainda com Júlio Sales, no Departamento de Bem Estar em São Paulo que não mede esforços para atender aos que estão em trânsito. A ele se juntam por demanda vários outros nas diversas capitais, incluindo o casal Bassi, missionários de serviço em São Paulo e recentemente o casal Amorim em Manaus. O time vai crescendo.

Claro que conseguir quase 30 casas em um mês é uma resposta de amor de nossos líderes onde quer que estejam. Coronel Urubatan ao saber dos números me perguntou: “não poderia ser metade dos seus e metade dos nossos?” Entendi a pergunta: não poderia ser metade de membros da Igreja de Jesus Cristo e metade de não membros? Aí , penso na maravilha de pertencer ao “Corpo de Cristo”: não adianta interiorizarmos quem não se reconhece como parte do programa dirigido pelo Sacerdócio. Até fazemos, Sister Martins trabalha duro para dar oportunidade a não membros através do Programa Brasil do Bem. A maior dificuldade? Encontrar acolhedores em outras cidades e outras religiões. Não tem a mesma força do nosso programa. Infelizmente. Cremos que acaso fosse feito mais pelas Igrejas em todo Brasil, Boa Vista estaria vazia, e os migrantes acolhidos. Exemplo de que é possível além do nosso? O pastor Abud , que levou 60 famílias ano passado voltou para buscar mais 20. Apoiamos iniciativas como essa! Quem acompanhou, foi o Tenente Giovanni, que fez questão de levar o grupo… vocês são organizados, declara.

Recebi finalmente o livro Passagieri di um sogno, de Stanley Savoretti. Esse amigo brilhante pesquisador e genealogista, escreveu sobre o fluxo migratório nas Minas Gerais de final do sec XIX. Aprendi muito. Interessante que chegou numa época da minha vida em que assisto de perto a outro fluxo migratório movido pela miséria. Aliás, a fome sempre foi o motor da migração: Desde que Abraão saiu de Ur dos caldeus, ou meu avô Carim saiu do Líbano em 1919, ou o bisavô do Rodrigo da Italia em 1878, enquanto quatro gerações antes a mesma família Laucas tinha saído do Tirol austríaco, todos foram motivados pela escassez. Encontrei tantos paralelos! O livro me trouxe fé no futuro, esses que hoje são os desvalidos terão outra história para contar em 100 anos.
Passeios pelo Rio Branco e Tepequém

Nossos finais de semana tem sido diferentes. Depois de sete meses só indo ao Lago do Robertinho, descobrimos agora o Rio Branco. Mariângela, a baixinha amiga de infância (estudou contemporaneamente no Colégio Batista comigo), tem um jet ski e amigos que tem lancha. Pra nós é novidade a água morna e os banhos no meio do Rio Branco, a lancha solta descendo veloz na correnteza… a gente junto! Já foram duas ocasiões muito agradáveis, indo pelo rio à Praia do Caçari. Jurei voltar e comer o peixinho frito que tem na ilha em frente. O fim de tarde é o melhor. Uma luz maravilhosamente dourada, o ar refrescando com o sol baixando, a água morna e a lua nascendo… Coisa pra sentir falta o resto da vida.

Também conseguimos levar nosso casal companheiro para dois dias relax no Tepequém. Foram também Adilane e Rafael. Formamos um sexteto muito bom. Muito amor envolvido, podemos dizer. Escorregar nas pedras e ganhar massagem natural da água borbulhante não tem preço. Foram muitas risadas gostosas… No segundo dia caminhamos até o Tilim do Gringo e a Cachoeira do Funil. Sister Martins concluiu que já não está tão novinha para tanta aventura. Mas são saudáveis e o caminho foi divertido. O problema é que para cada hora longe da internet, inúmeras mensagens dos que carinhosamente chamamos de “tamagushis” esperando por cuidados no retorno. Quem se lembra do joguinho da década de 90 em que o desafio era cuidar do amiguinho dando comida, remédio, água, colocando pra dormir? Que se tornem independentes tão breve enquanto possam é nossa esperança e incentivo!

Saudades
Noite dessas sonhei com Sarah, minha netinha. Ainda não era noite, mas ela já dormia apagada no sofá. Me aproximei na intenção de levá-la ao quarto e então me veio o sentimento: “ela está tão crescida… e faz tempo que não brinco com ela … Não posso perder esse tempo precioso de fazer parte da sua infância”, sonhei, pensei. Acordei com saudades. Nem sempre eles tem disposição de conversar com a vovó que está tão longe. Bia às vezes se entrega numa conversa. Mas pouco pro meu gosto. Consigo capturar o Victor mostrando repetidamente os bichinhos de balata que comprei para o Natal. Passa a eternidade de minutos envolvido em repetir os sons dos macacos, da arara, encantado com o tamanduá mamãe e filhinho. São bichinhos da região, bem brasileiros. E farão sucesso como fazem os que guardei da época do Diogo e que hoje sempre estão a mão na casa da Vovó em Provo.

Falo todos os dias com Nat… me relata em detalhes as novidades do dia. Falo dia sim dia não com Diogo… que por sua vez fala mais com Rodrigo. E falo com Camilla a cada vez que ligo para falar com as crianças. Fora isso, e os irmãos para tentarmos ajudar os pais que envelhecem, não mantenho comunicação muito frequente com ninguém. Mas outro dia acordei com a clara sensação de que me comunicava com minhas avós. Senti saudades das duas… cada uma a sua maneira marcaram minha vida. A vida é assim: a gente se concentra na atividade que está desenvolvendo. O coração cuida de relembrar as faltas.
Uma Cidade sobre o Monte
Nos dias da Ação Unidos Pela Saúde de Outubro, tivemos nossa Conferencia Geral da Igreja. É sempre um deleite espiritual, mas ouvir o discurso do Presidente Nelson sobre o “Segundo Mandamento”, (1) ele falando de maneira clara e distinta sobre nossos programas de Ajuda Humanitária, não teve concorrente. Amei! E então me veio a certeza clara como a luz do dia: Essa é uma Igreja viva, guiada por Jesus Cristo, que sabe bem onde nos quer levar. Enquanto ouvia e relia essa fala poderosa e esclarecedora, conexões ficaram claras e entendi o quanto somos abençoados com direção que nos antecipa os passos. Caminhamos a frente realizando já a mais de um ano a interiorização dos venezuelanos , o que só agora recentemente passou a ser o foco principal da ação desenvolvida aqui. Ensinamos auto-suficiência a eles para que sigam com confiança e determinação para um novo lugar. E uma nova vida. Ensinamos português. Ainda não há muitos que persigam essa meta de preparação que pode parecer óbvia. Advogamos a causa dos que alugam cortiços (creio que mais de 20 mil) e lutam mês a mês para sobreviver. Muitas entidades permanecem centrados nos 7 mil que estão nos abrigos, ou nos 2 mil que estão nas ruas. Mudamos nossa conduta no programa para adequá-lo as instruções de nossos lideres, e percebemos claramente a muita sabedoria nos conselhos que recebemos. Como comentou o Coronel Urubatã: "Vocês estão alinhados com nossas duas maiores preocupações: interiorização e saúde." Estou achando que é o contrário… estão seguindo a luz que vem de Quem sabe o que faz.
https://www.churchofjesuschrist.org/study/general-conference/2019/10/46nelson?lang=por

