‘Era uma vez’

Era uma vez um senhor, grisalho, 60 e poucos anos, daqueles que ajuda todo mundo em tudo. Um sorriso sempre amigável e sereno no rosto sempre atento à vida, vendo beleza até no jeito de um passarinho voar ou em uma música que ouviu pela primeira vez.

Curioso, mesmo não tendo completado o ensino fundamental, queria saber como escrever certas palavras e o que significava certos conceitos ouvidos na televisão.

Conseguiu educar suas duas filhas com a premissa de que dinheiro gasto em educação e livros valia mais a pena que qualquer outra coisa.

De profissão, porteiro, aquele que responde nossos ‘bom dia’ atrasados com um sorriso no rosto e está ali para ajudar, vigiar, cuidar.

Um dia, no prédio em que trabalhava, surgiu um daqueles embates clássicos de condominio: um carro mal colocado na vaga estava impedindo que outro saisse.

Com cuidado, ligou para avisar ao dono do carro para assim que pudesse retirar o veículo e recolocá-lo de uma forma melhor. ‘Mas sem querer incomodar’.

No meio da madrugada, o dono do carro chega. Transtornado, bate aos murros na porta da casa do senhor e exige, aos berros, que esse o siga até a garagem.

Na garagem, humilhação. Gritos. A familia do porteiro, desesperada, desce de pijama até o local e vê: o senhor foi esmurrado. Na cara. Caiu no chão. Ainda assim pediu calma e não revidou.

O olhar sereno, fica confuso e machucado sem entender ao certo o que teria feito de errado. A família dele treme de medo e indignação.

Retornam à moradia do porteiro.

Nada é feito. O senhor decide não denunciar e o conselho do prédio concorda, afinal, para eles, foi apenas um rompante do morador.

Fim da história.

Fim da História? A dignidade é construída nas sutilezas.

Quem é digno de justificar seus atos em rompantes e transtornos psicológicos? E quem não é digno? Quem com a mesma atitude de agressor seria visto como meliante e perigo à sociedade?

Quem é digno de denunciar violências, sejam elas psicológicas ou físicas?

As tragédias também são construídas nas sutilezas.E se isso tivesse acontecido em um Brasil com porte de arma legalizado, por exemplo?

A quem interessar possa: o ‘era uma vez’ distante não significa que esse caso veio de um jornal, de um filme ou da minha imaginação.

Aconteceu no Rio de Janeiro. Centro do Rio. O senhor grisalho bondoso é meu pai, a família ferida é a minha, mas poderia ser qualquer uma.

A omissão também é uma violência. A perpertuação de ideias que sugerem que algumas vidas valem mais que outras é um soco, um tapa, um tiro disparado por quem as profere.

Pense com carinho.

    Alessandra França Sanaibre

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    Produtora de Conteúdo, em constante exercício de poetizar o cotidiano.