wetwired
Tem algo muito sugestivo em olhar o caminho escolhido e o não escolhido. Consigo enxergar todas as escolhas que fiz até aqui. A maioria foram escolhas que as pessoas provavelmente julgariam serem as mais fáceis. Pra quem? E se um belo dia eu realmente parar pra analisar o tempo? Esse tempo que passa em momentos, momentos que definem caminhos,
to see the reasons why all things happen.
Causa e efeito.
Aos dezessete anos, primeira aula da faculdade de Direito, cheguei atrasada. Sentei na cadeira, olhei ao redor, olhei o professor de terno e gravata e códigos e papéis e pompa e circunstância, e, naquele exato momento, em poucas frações de segundos, decidi que aquilo não era pra mim.
Eu tinha muita preguiça de entender o que falavam. Eu me achava muito descolada pra me enquadrar naquela estética. A minha vida não iria ser definida em passar anos e anos estudando os mesmos livros, os mesmos artigos, parágrafos, e signos, vestir os mesmos terninhos e saltos, ter a vida regida e ditada por outros homens de terno que acham que sabem o que estão fazendo.
Ser igual a todo mundo quando eu nunca fui igual a todo mundo.
Pequena, mesmo sem querer, meus olhos vesgos e os óculos com esparadrapos que trocavam de lente semanalmente acabavam fazendo o trabalho (sujo) de que eu chamasse atenção por ser diferente. Um destaque torto. E quando, aos quatorze, depois de um processo de anos e anos usando aqueles esparadrapos nos óculos, sendo olhada de um jeito, eu me livrei dos olhos tortos e virei reta, direita, normal, eu não tava preparada.
Eu (para os outros) me enquadrei. Passei a me destacar por não usar mais esparadrapo nos óculos e nem os óculos. Foi um livramento. Foi relativamente rápido. Eu não tava preparada pra ser o destaque por não ter mais.
Ainda acho que, lá dentro, o que existe de verdade é aquela Alessandra vesga que conta que ficou assim por assistir televisão muito de perto, reproduzindo uma ideia sem nem se aprofundar e notar que veio com defeito de fábrica.
Ainda naquele momento lá, sentada na cadeira depois de chegar atrasada na primeira aula da faculdade de Direito, decidi que aquilo não era pra mim. Não só por uma decisão estética, mas também uma questão de inteligência. Aquele conhecimento novo não fazia sentido nenhum, não entrava na minha cabeça. Talvez pela resistência de fazer parte, mas também por uma programação mental insuficiente pra receber aquele tipo de informação.
Eu era nova. Despreparada. Por mais que ‘ao redor’ tivesse feito sua parte direitinho, o problema era dentro. O problema era eu. O problema era que eu era rasa e não queria ter nem o trabalho de possivelmente gostar daquilo. Em um segundo eu tomei a decisão (precipitada) que fez até hoje um buraco na minha vida profissional. Achando que eu teria um todo, fiquei pela metade.
Causa: imaturidade.
Efeito: ainda sofro da causa.
Dia desses percebi que tenho pensado muito mais em mim. No que sinto e no que não sinto. Foi uma construção de anos, Gustavo, maternidade e o que deu a liga do bolo foi a Claudia.
Sabe o que é engraçado? Em 2005 ou 2006, eu tava brigando com um (ex)amigo pelo MSN e essa pessoa me acusou de escrever muitos ‘eu’ nos textos que eu enviava. Como se fosse um grande demérito ortográfico e, além disso, lendo a minha personalidade pela tela de um computador, isso dissesse que eu era a pessoa mais egoísta da face da terra por não controlar o eu numa briga de internet. Aí, desde então, desde 2005 ou 2006, qualquer texto que escrevo, volto pra ler quais ‘eu’ posso tirar.
Só que de uns anos pra cá. Só que de 2009 pra cá, vou deixando um ‘eu’ a mais sempre por aí. Só por precaução, pra que eu nunca esqueça.
Pra lembrar que eu sou o que eu quiser e escrevo quantos ‘eu’ for necessário pra que eu me sinta eu e ninguém nunca mais vai me dizer o que eu posso ou não posso ou o que eu devo fazer. Quem decide sou eu. E quem quiser ficar por aqui, fique com quantos ‘eu’ forem necessários.
Causa: percepção.
Efeito: auto-confiança.
A primeira vez que fiquei sozinha na Garantia foi na primeira vez que o Carlos tirou férias, segundo semestre de 2015. Foram quinze dias. Ele e a Amanda foram pra Alemanha e mais algum lugar que não lembro.
A primeira grande confusão que aconteceu quando fiquei sozinha foi um suposto vazamento no banheiro do apartamento da Dona Elza, inquilina há anos e anos e anos da Dona Terezinha, que estava gerando um vazamento enorme no apartamento debaixo, da vizinha Sheila, num prédio ali por perto do Reduto.
Quem entrou em contato comigo foi a vizinha Sheila, num papo de que era necessário ser refeito todo o armário dela, o banheiro, o corredor e eu entrei em pânico. Dona Elza rebateu: aqui não tem vazamento nenhum. O banheiro tá novinho, eu cuido muito bem do apartamento, viu? Mandei o Seu Alceno dar uma olhada lá nas condições do banheiro pra ver quem tinha feito tempestade num copo d’água e tirar a prova dos nove.
Acontece que aprendi com o tempo que não existe tempestade em copo d’água em imóvel alugado. Existe mesmo o tsunami inteiro, com alarme de terremoto e tudo que tem direito.
O banheiro da Dona Elza, do apartamento da Dona Terezinha, realmente tinha algum vazamento e arrumei o Junior Encanador na lista de contatos do Carlos pra ir lá num sábado fazer o reparo do registro do banheiro achando, triunfante, que tinha resolvido a questão.
Porém, o que eu iria descobrir com muito desgosto era que a Dona Sheila, essa senhora que me ligou dezenove vezes durante a hora do almoço, que me contou todos os percalços de sua vida difícil e solitária de secretária de um órgão público qualquer, sem parentes, sem filhos, sem ninguém pra cuidar dela nessa fase derradeira, estava, na verdade, querendo me passar pra trás.
Descobri que era aquele tipo de senhora passivo-agressiva que deu com um pedaço de gesso na cabeça do Junior Encanador porque ele não fez o que ela queria. E ele apareceu na segunda-feira me pedindo mil desculpas, mas nunca mais iria voltar pra terminar o serviço. E que o serviço que o Junior Encanador fez era meio que desnecessário por se tratar de um problema de vazamento do próprio apartamento da Dona Sheila e não do apartamento da Dona Elza/Terezinha, constatado pelo Seu Oly, o outro encanador que arrumei pra dar uma olhada no estrago.
A maior lição que aprendi na primeira vez que o Carlos tirou férias foi a seguinte: deixa de ser otária, Alessandra. Ninguém é bonzinho. Cada um só pensa no próprio umbigo. Cada um pensa no próprio bolso. Ninguém pensa em ti. A grande maioria é lobo em pele de cordeiro.
Até então eu sofria de uma espécie de cegueira ilusória de que todo mundo tem um lado bom e que isso faz com que o lado ruim seja anulado. Até então, sempre convivendo com pessoas completamente normais, de comportamentos adequados e esperados, nunca imaginei que o ser humano em geral, como raça, pudesse ser tão doido. E isso não é uma piada.
Depois dessa primeira vez que o Carlos tirou férias, eu fiquei fascinada pelos velhos da Garantia Imóveis. É meio triste ter uma cartela de clientes predominantemente de idade mais avançada, porque eles vão simplesmente morrendo.
O primeiro grande baque foi o Seu Pantoja, que vivia por aqui, que ligava todo dia, que pedia pra gente consultar a fatura da casa dele no site da CELPA e um belo dia morreu. Do nada. Tinha uma chamada perdida dele no celular do Carlos e não deu tempo nem de dizer tchau.
Aí depois foi a Dona Ana Amélia, recentemente Dona Daisy, Dona Maria Antonieta e anteontem o Seu Wilson.
Pessoas que só conheci por vozes num telefone me dizendo ‘minha filha, já saiu meu aluguel?’, nomes que escrevi por extenso nos cheques pra repassar o tão esperado dinheiro, dados da conta bancária que gravei na repetição do dia a dia.
Em relação a dinheiro, rei morto é rei posto. Já sei os nomes dos cônjuges, herdeiros, já sei da briga de inventário, de quem e em qual conta de qual banco deve ser depositado o aluguel. Aprendi a ter responsabilidade inclusive jurídica sobre cada telefonema que atendo, a me documentar por e-mail, a não falar por impulso. Aprendi a não precisar ser agradável o tempo todo. Aprendi a me impôr quando alguém tenta dar uma de esperto pra cima de mim. Hoje, eu sei dizer não. Hoje, naquela briga de 2005 ou 2006, eu teria mandado uns trocentos ‘EU’.
Causa: necessidade.
Efeito: efeitos? Muitos.
Essa é a primeira vez que o Carlos tira férias por trinta dias em doze anos. Serão trinta dias sozinha na Garantia Imóveis. Eu, Alessandra, internamente vesga, torta, direita, reta, não tão besta, que já aprendeu o significado do trabalho, que consegue enxergar seus erros, que entende as causas e os efeitos, que diz não, que vai errar, que vai aprender, que já sabe que pode usar o ‘eu’ quantas vezes quiser.
Dizem que quando a gente vai ficando mais velho, a ignorância é uma bênção. Aqui, usando o meu terninho xadrez que comprei por causa do terninho xadrez da Scully no piloto de Arquivo X, eu digo pra vocês o seguinte: o meu processo é justamente ao contrário.
