A difícil arte de entender as mudanças ou «É a economia disruptiva, estúpido!»

Há uma excelente série americana chamada «The Knick», dirigida por Steven Soderbergh e estrelada por Clive Owen. Trata da vida profissional e pessoal do Dr. John W. Thackery (interpretado por Owen) e dos funcionários de uma versão fictícia do Knickerbocker Hospital («the Knick»), em Nova York, durante a primeira parte do século XX. Em determinado episódio da série, um personagem comenta que a indústria de querosene do pai está prestes a falir pois a luz elétrica está substituindo as lamparinas. Subentende-se a raiva daqueles que eram ligados a essa indústria tinham da lâmpada elétrica. Provavelmente pensavam que esta novidade estaria roubando empregos, que deveriam proibi-la ou taxá-la, pois o querosene sim é que deveria ser usado. O tempo veio demonstrar que a luz elétrica veio para ficar, e as indústrias de querosene se reinventaram ou fecharam.

Atualmente vivemos em um período de mudanças de paradigmas. A internet proporcionou o surgimento de serviços que são em algumas áreas o que a luz elétrica foi para o querosene. A Netflix permite que vejamos um extenso catálogo de filmes e séries, em qualquer lugar, totalmente sincronizados e com qualidade que pode chegar ao 4K, por valores que vão de 19 a 29 reais. O Uber oferece um serviço de transporte privado de qualidade, com bons carros, motoristas atenciosos e que pode ser requisitado, avaliado e pago com o celular. Comunicadores como o Skype, Viber, Telegram e especialmente o WhatsApp permitem comunicação mundial com custos mínimos ou nenhuns. A Netflix vai acabar com as operadoras de tv a cabo? O Uber acabará com os táxis? O WhatsApp será o fim das operadoras telefônicas? Daqueles que não souberem se reinventar, sim.
Essas novas empresas são parte da chamada economia disruptiva, que ocorre quando um produto ou serviço encaixa-se em novos ou emergentes segmentos do mercado que não são servidos pelo(s) incumbente(s) existente(s) na indústria. Os novos serviços têm em comum vários aspectos: 1) Permitem ao cliente acesso imediato ao serviço. Ter que esperar muito tempo por um táxi ou ter hora marcada para ver a sua série favorita é algo inimaginável em 2016. 2) Possibilitam ao cliente externar sua opinião. Quem nunca quis reclamar daquele taxista que além de mal educado ainda te enganou no trajeto, daquela operadora que te deixa sem tv quando você mais quer (uma tarde chuvosa de inverno, por exemplo) ou daquele alojamento horrível das últimas férias? Uber, Netflix e AirBnB procuram oferecer um serviço de excelência, mas se você é mal atendido pode reclamar, e isso é levado (e muito) em conta por essas empresas. 3) Estão baseados na internet. É algo ao mesmo tempo positivo e negativo. A ubiquidade da internet deixa tudo mais fácil e rápido, mas a sua ausência ou deficiência tornam o prazer da modernidade em um inferno da era das trevas.
E para onde vamos? Para um futuro cada vez mais conectado e mais apoiado em inovação, onde o poder está no conhecimento e não na matéria. O Uber já tem um valor de mercado superior à Petrobrás e à Vale do Rio Doce juntas. A Netflix foi a terceira «emissora de televisão» que mais faturou no Brasil em 2015, ficando abaixo apenas da Globo e da Record. E isso apenas com o dinheiro que recebe dos assinantes, sem recorrer à publicidade. A empresa anunciou que vai investir 5 bilhões de dólares em conteúdo próprio em 2016, com uma série ou filme original sendo lançados a cada quinze dias. Já há inclusive planos para a empresa de conteúdo por streaming entrar na área das transmissões esportivas e de notícias (NFL, NBA, UEFA Champions League, etc.), com suporte local para as emissões mundiais.
E as empresas «tradicionais»? Bom, cabe a elas se reinventarem e buscar um espaço nessa nova economia baseada na internet. O problema é que ao invés de procurarem melhorar seus serviços e disputarem os clientes com as «emergentes» elas querem taxar e/ou proibir seus concorrentes. Em especial no Brasil, onde a cultura do «tem que pagar imposto!» é tão natural. Há pessoas revoltadas não com o mau serviço prestado pelas empresas tradicionais e sim pelo fato do Uber ou Netflix não pagarem os mesmos impostos extorsivos que aquelas pagam. O lógico seria aliviar a carga fiscal que as empresas são obrigadas a suportar e não sobretaxar as novas. Há que se perguntar: Para onde iria o dinheiro dos novos impostos sobre a Netflix?
SPOILER: não seria para melhorar a vida da população. 😉