O meu delírio é a experiência com coisas reais

Era um fim de tarde quente em São Paulo. Sentada na calçada da rua Caraíbas eu via palmeirenses indo e voltando. Era só levantar um pouco a vista que lá estava o imponente Alianz Parque e sua cobertura brilhante.

"Pra frente é que se anda. Mas eu queria tanto ter vivido isso tudo no Parque Antártica, o estádio onde estavam meus sonhos de menina".

As chaminés na rua Francisco Matarazzo são minha única lembrança do antigo Parque Antártica (Foto: Aletheia Vieira)

De vez em quando, meu namorado vinha até mim, perguntava se eu estava bem. Ele conversava alegremente com amigos em frente ao bar que frequentamos.

Mas eu queria mesmo ficar sozinha ali. Eu precisava. Precisava me dar conta de quanto maravilhosa é a vida.

Há exatos dois anos, eu vivi uma situação muito dolorosa em São Paulo a ponto de não querer mais voltar. Eu morava em Brasília e tive que enfrentar todas as consequências disso, diante da conclusão do meu mestrado.

Pôxa, se eu soubesse que dois anos depois estaria feliz por ter visto uma goleada do Palmeiras em cima do São Paulo no Alianz Parque... com o Rogério Ceni técnico. Que eu iria presenciar um gol de cobertura do Dudu, meu 7 favorito depois do Edmundo, de quanto sofrimento eu seria poupada.

Mas em 2015, eu não acreditava muito em mim e também no Palmeiras. Foram anos de tanto sofrimento, dor, lágrimas e desalento... tanto na minha vida pessoal quanto no futebol que comecei a desacreditar de tudo. Inclusive, no amor.

Eu e o meu namorado. Me mudei pra Sorocaba para ficar com ele e hoje estou há menos de duas horas do Palestra Itália.

O meu maior problema sempre era querer demais o desejável e não esperar o possível. Era uma ansiedade, que levava a uma frustração profunda.

Sim, o amor real uma hora iria chegar. Sim, o Palmeiras me daria alegrias. Sim, eu teria a chance de realizar o meu grande sonho de frequentar o Palestra (pra mim sempre será Palestra), que permeou toda a minha vida até o dia 11 de março de 2017, quando puder dizer a pequena Sthefany, que estava ao meu lado no estádio: "Aproveita. Nessa idade eu não podia nada disso".

Deixei o Alianz Parque com a frase do Belchior na cabeça, um dos meus lemas: "A minha alucinação é suportar o dia a dia. E meu delírio é a experiência com coisas reais".

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