EM PAZ VIGIO SEU SONO

“Não consigo dormir; tornei-me como um pássaro solitário no telhado.” Livro de Salmos, Poema 102, Verso 7.

Há algo de sublime, talvez beirando o sagrado e o profano, no doce ato de se observar quem dorme.

Pelo que bem me lembro, já trago comigo tal mania, vício, deleite, desde os primeiros anos de minha infância. Gostava de observar meus pais quando ainda em sono profundo. Tinha algo de intrigante vê-los ali, quase que fragilizados, depostos de qualquer autoridade. Meu pai já não mais impunha respeito pela força, nem pela seriedade forçada. Da mesma forma, minha mãe já não carregava mais ares de sofrer forte angústia pela vida mal vivida. Os deuses de minha infância agora dormiam, e sendo assim voltavam ao patamar de meros e frágeis mortais. Éramos, pelo menos por um breve momento, todos iguais.

É isso. Acho que minha primeira admiração pelo sono alheio deriva da observância do sono dos meus pais. E isso cresceu comigo. Ainda durante a adolescência, quando tudo passa a ter uma certa conotação sexual, passei a observar, quase que num gozo solitário, o sono das minhas namoradas. Não chegava a tocá-las. Não ousaria jamais interromper momento de profunda beleza e erotismo, mas não tenho como negar que a natureza fragilizada, desprovida de preocupações vazias e superficiais — como o lado certo da franja, a maquiagem adequada para a ocasião, ou os quilos ( a mais ou a menos) a serem queimados em sufocantes atividades físicas — me excitava.

Com o passar dos anos tornei-me de fato um viciado no sono alheio. Sendo assim, numa escala inversamente proporcional, quanto mais eu me tornava dependente dos sonos dos outros, menos eu conseguia me deleitar com os meus. Todos os vícios carregam consigo uma carga de efeitos colaterais e o meu não seria diferente. Como consequência da minha dependência, pouco a pouco passei a ser um completo insone. Aos 15 anos eu só conseguia dormir por volta das quatro da manhã, tendo que acordar às seis para ir ao colégio. Aos 25 eu dormia apenas uma hora por semana. Tais hábitos já começavam a me privar da sanidade. Passei a sonhar acordado. Não como quem faz planos ou projetos futuros, mas como quem se abstrai da realidade confundindo-a com os fabulosos poderes do imaginário. Enfrentei problemas com meus pais, namoradas, amigos, faculdade, trabalho… Todos achavam que eu estava dependente de alguma substância química, e, por vezes, chegavam mesmo a me tratar como um drogado, cogitando internações em clínicas de reabilitação e tudo o mais, já que não raras foram as vezes em que me viam envolto em alucinações, ou que perdia reuniões importantes, festejos familiares, provas, por puro desleixo e atraso. O fato é que eu realmente não me importava mais com nada que estivesse acordado. O sono dos outros era o meu delírio e a minha realidade.

Apenas no sono o homem pode ser capaz de se encontrar no seu estado mais puro, e, assim, se conectar ao que há de mais divino. No sono é quando nos despojamos do corpo e deixamos elevar a alma. No sono é quando abdicamos de toda nossa natureza material, das posses, dos cargos, das poses, da eloquência, do status. Em sono, não existe rico nem pobre, belo ou feio, guerra ou paz. Talvez a natureza divina do sono não seja descoberta nova, talvez sempre tenha sido algo a pairar no nosso imaginário religioso. Não a toa as preces costumam ser feitas com os olhos cerrados, numa possível simulação do estado de sonolência. Talvez não seja a toa também que muitas religiões adotaram a crença nas missivas divinas transmitidas por intermédio dos reinados de Hipnos e Morfeu.

Isto posto, chego a conclusão que a mim coube ser um pobre diabo insone, incapaz de verter-me em criatura santificada, a não ser por intermédio dos sonos de outrem. Talvez, ao ser preso a minha própria insônia e assim privando-me da conexão divina, os deuses tenham me delegado a santa missão de velar o sono dos homens, tal qual um sacerdote que abrindo mão dos seus direitos de nascença, pratica voto de pobreza para que os homens tenham boa vida assim na terra como no céu. Ou foram os demônios que por danação me conferiram o tormento da ausência do sono, aumentando meu penar com o dom de sentir, quase que sobrenaturalmente, a candura dos sonos que não são meu? Como da resposta ainda não sou dono, tomo para mim a missão de trazer paz na terra aos homens de boa vontade, e alívio para a minha pobre alma decadente e franzina.

Os homens ainda não entendem meu nobre propósito, e não raro me confundem com uma espécie de assassino serial que, por motivo desconhecido, acaba por esquecer de ser assassino e apenas adormece suas presas, ou um louco que desacorda suas vítimas mas nenhum pertence subtrai delas. Não vim para matar, roubar e muito menos destruir. Sou demônio de mim mesmo, trazendo inferno e danação apenas para a minha alma. Para os outros sou arauto do repouso. Alivio-lhes o fardo do corpo, e promovo-lhes a purificação da alma. Sou apenas o vigia do sono dos justos, vim somente para trazer descanso às almas sobrecarregadas e vigiar-lhes o sono, para que ainda em vida sejam justificados perante os deuses.

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Escrito em 31 de dezembro de 2013.

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