A Invencível Juma
Na capital do país, ela vivenciou as três situações de maior vulnerabilidade para uma mulher: prostituição, encarceramento e a vida nas ruas. Hoje, Juma é redutora de danos, militante e figura de liderança para ajudar quem passa por dificuldades semelhantes às que já viveu.
Por Alexandra Kalogeras

A palestra estava marcada para 10h, mas Juma estava pronta no campus Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília desde 7h. Os alunos entravam na sala aos poucos, mas ela aguardava pacientemente, sentada na mesa dos professores, dividindo a atenção entre mim e o computador. Deu 30 minutos extras para encher a sala, enquanto preparava os slides e o datashow para a oficina que iria ministrar para estudantes de psicologia. O tema, “Redução de Danos”. Na camiseta, o perfil de Mariele Franco, vereadora morta no Rio. No momento de começar, sob os olhares admirados de universitárias que já a conheciam, dos que a viam pela primeira vez e da observação atenta da professora que a tinha convidado, ela se apresenta: “Eu sou a Juma. Sou redutora de danos, prostituta, moradora de rua e usuária de drogas”.
PATINHO FEIO
20 anos antes de apresentar aquela palestra para universitários, Juma Santos costumava ser Gilmara. Ela explica que só teve duas idades na vida: 16 e 33 anos. “Às vezes eu me esqueço da minha idade. Aí, tenho que perguntar pro meu marido”, e ri, alto e livremente. O motivo é comercial: são as melhores idades para uma garota de programa. Com pouco mais de 1,60 metro , cabelos loiríssimos (“A gente não fica velha, fica loira!”) e um sorriso travesso, Juma possui a tranquilidade dos fortes. Feminista, ela é devota de Nossa Senhora Aparecida, madrinha e “mãe da rua”, como diz. “Sempre fui muito católica, mesmo quando era prostituta. Uma coisa não exclui a outra”. Seu corpo é marcado por história; uma armadura de pele e sangue que enfrentou violência, noites de frio ao relento, brigas e fome.
Os olhos às vezes ficam cansados e se umedecem ao falar não dos horrores que já presenciou, mas da mãe. “Eu já não te falei que não queria mais falar desse assunto?”, reclama comigo. Natural de Brasília, Juma passou a infância em Alexânia, um município no interior de Goiás a 88 km do DF. Filha única, ela morava com a mãe, conhecida como Dona Inês, em uma casa com um quintal pequeno, uma goiabeira, galinhas sob uma amoreira e um pé de mamão. Ela e a mãe costumavam fazer caminhadas pelo mato, iam à feira e Juma ouvia. “A gente não conversava, não, mulher, era só ‘Sim, senhora’, ‘Não, senhora’. Eu era até corcunda!”. Mas Dona Inês gostava de contar histórias da Mula-Sem-Cabeça, Saci e Curupira. Dona Inês era analfabeta, mas tinha um espírito empreendedor: para sustentar a si e a filha, vendia pamonhas no terminal de ônibus de Alexânia e lavava roupa. Da horta que tinha em casa, tirava cheiro verde, tomate e alface para vender. Conseguiu ajuda do padre local para garantir que Juma frequentasse uma escola de freiras. Uma das lembranças favoritas é das vezes em que os ciganos passavam pela cidade trazendo música e dança e montavam acampamento sob o pé de pequi na frente de sua casa.

A VIDA ATROPELADA
Mas a infância no interior terminou de maneira abrupta e violenta quando Dona Inês foi atropelada e morta por um caminhão em Alexânia. Estranhamente, a avó de Juma, que tinha problemas de alcoolismo, morreu de maneira semelhante. O dinheiro da indenização pela morte da avó construiu a casa com a horta e a goiabeira onde Inês morava com a filha. Subitamente sozinha, Juma, que não tinha outros parentes, acabaria indo para o orfanato. “Além de ter medo do orfanato, eu achava que era lugar de criança ruim”. Decidida, ela pegou os pertences e retornou para a Brasília de carona em caminhões. “Naquela época, eu não sabia das coisas, não entendia o perigo”, analisa. Apesar do risco, nada de mau lhe aconteceu durante a viagem e ela chegou à Rodoviária do Planalto Central sã e salva. “Que linda que era aquela rodoviária em (19)85!”, sorri.
A primeira coisa que fez ao chegar foi procurar uma escola para se matricular. Na Escola Classe da 104 norte, a diretora, Graça, recusou-se a matriculá-la por causa da falta de documentação e de adultos que se responsabilizassem por ela: Juma só trazia, consigo a certidão de nascimento e o boletim escolar do colégio de freiras. “Nesse momento, o Estado falhou comigo! Porque eu queria estudar e eles não me deixaram”. Sem ter para onde ir, Juma não aceitou a negativa. “Por uma semana, eu dormi na porta da escola, até ela aceitar me matricular!”, lembra em um momento de orgulho. A diretora cedeu e fez a matrícula “por baixo dos panos” e ficou responsável por ela até a 6ª série. Assim, Juma voltou a frequentar as aulas que eram dividas entre a Escola Classe e a Escola Parque.
Sem ter onde ficar, Juma passava os dias na escola e as noites no Hospital Regional da Asa Norte (HRAN). “Dormia nas cadeiras, com um cobertorzinho”. Quando, por um motivo qualquer, era impedida de dormir nos bancos do hospital, Juma escalava um pé de manga que ficava em frente e lá mesmo passava a noite. “Tinha medo daquelas coisas que minha mãe contava, do Saci, Mula-Sem-Cabeça, dos fantasmas da minha infância, mas também do Homem. Da maldade humana, sabe?”.

Assistir às aulas lhe trazia alegria e foi por isso que Juma suportou virar alvo dos colegas. “Aquilo era normal. Adolescente bater em uma menina do cabelo ‘ruim’ que não tinha casa”. Um episódio em particular que ficou marcado na memória aconteceu durante a aula de artes. A tarefa era criar uma história em quadrinhos e seus colegas fizeram a deles que relatavam agressões contra Juma do lado de fora da Escola Parque, depois das aulas. Ao ver o trabalho exposto aos olhos de todos no mural da escola, Juma tirou o cartaz da parede, rasgou-o e levou para a diretora. “Aí, eu, revoltada, falei, ‘Diretora, eles ‘tão falando de mim! Sou eu que apanho todo dia, nessa historinha! A escola inteira ‘tá rindo de mim!’. Você acredita que a desgrama da diretora da Escola Parque me fez colar o cartaz de volta, todinho? Ridícula”.
Ironicamente, foi a mesma Escola Parque palco de outro acontecimento marcante: o primeiro beijo de Juma, em um garoto do qual ela lembra o nome e sobrenome e que tinha olhos muito verdes. Naqueles dias, as crianças faziam uma brincadeira com nome de flor, na qual quem perdesse tinha que pagar um castigo. E o castigo dele foi ter que beijar o ‘patinho feio’ da escola.
NOITE DE HORROR
Em junho de 1985, uma chuva torrencial caiu, mas o vigia noturno do Hospital Regional da Asa Norte (HRAN) não se sensibilizou com o clima e não permitiu que Juma dormisse lá. Por causa da chuva pesada, o refúgio no pé de manga também não era uma opção. Juma, então com 13 anos, ao se ver subitamente sem ter onde passar a noite, retornou para a rodoviária. Em busca de um lugar seguro, dirigiu-se ao posto da Polícia Militar. Naquela noite, havia sete guardas de plantão. “Eu ainda mandei um migué (uma mentira) e disse que tinha perdido o ônibus, mas eles devem ter percebido que eu era da rua, que eu não tinha ninguém”. Os homens que deveriam garantir sua segurança durante a noite se revezaram para violentá-la e espancá-la.
Questionada pela Revista Esquina, a Assessoria da PMDF não tem informações sobre o episódio relatado, já que nenhuma denúncia foi registrada à época, mas a corporação garante que “ao longo do tempo, vem aperfeiçoando seu processo seletivo para inclusão de novos policiais” e que “todo desvio de conduta é apurado rigorosamente pela Corporação”. Entre as fases do exame para ingressar na PM, hoje, estão inclusas avaliação psicológica e investigação da vida pregressa do candidato.
Quando o dia raiou, a chuva havia parado e Juma chorava deitada no chão da rodoviária. As dores e as feridas permaneceriam. Quando confrontada com a crueldade e a indiferença que se seguiu a ela, a mulher na qual a menina se tornou não parece saber qual a machucou mais. “Ninguém olhou para mim!”, revolta-se e seus olhos se enchem d’água por trás dos óculos escuros.
Foi um menino, também em situação de rua, que se aproximou dela, solidário com outra vítima da mesma violência que deve tê-lo atingido em alguma de suas noites. Tudo o que ele tinha era uma lata de tíner, um solvente para tintas que foi, por muito tempo, usado como o entorpecente favoritos das crianças. Então, foi isso que ele ofereceu. “A droga entrou na minha vida como um pedido de socorro e por um bom período foi fundamental na minha sobrevivência. A cola e o tíner foram fundamentais na minha infância pra poder crescer junto com as outras crianças, aqui no Plano Piloto e Rodoviária”, explica.
FIM DO MUNDO
Juma abandonou a escola na 6ª série e foi para uma escola diferente, a das ruas, onde aprendeu a fina e dura arte da sobrevivência. “Eu aprendi a usar as armas que tinha, minha palavra, meu corpo, minhas idéias”.

Ela lembra da primeira vez em que levou um tapa na cara e que aquilo lhe causou vergonha. “A gente tava numa roda cheirando cola, não sei qual foi a lombra do moleque”, diz. Até bater de volta, Juma conta que levou inúmeras outros tapas como aquele. A primeira briga em que não houve opção a não ser lutar foi depois de levar uma coronhada na cabeça. “Mulher sozinha na rua, não vive. Não precisa nem ter beleza. Você tinha que arrumar um homem pra ficar do seu lado, senão virava massacote dos outros. As pessoas falam, ‘ah mulher gosta de bandido’. A gente é obrigada a ficar do lado dessas p***!”.
Juma abandonou a cola por causa de uma estranha profecia. Passou a ter visões do mundo acabando toda vez que a cheirava. “A cola e o tíner tiram a gente dessa realidade. Eu acho que eles mostram seu medo ou o que você tem de melhor. Quando eu via o mundo acabando, pensava, ‘pelo amor de Deus, eu não quero morrer agora’”.
Na adolescência, o álcool tornou-se seu principal entorpecente, mas hoje é a droga que ela considera mais perigosa. “Todas as violências que eu passei, tirando a primeira, foram por causa do álcool. Às vezes não era nem eu quem consumia, mas as pessoas próximas. Hoje, com R$ 1,50 a gente mata uma mãe de família dentro de casa”.
LUZES DA CIDADE
Nos final dos anos 80, Brasília era uma cidade glamourosa onde boates como a Bataclan e a Zoom no Gilberto Salomão, que chegou a receber celebridades como Xuxa e Pelé. No Conic, o Cine Ritz, que passava filmes pornôs, funcionava a pleno vapor e as garotas de programa dominavam a noite. Uma delas, Madonna, foi quem encorajou Juma a fazer seu primeiro programa.
Na época com 15 anos, Juma ganhou 5 mil cruzeiros. “Fiquei com medo, mas fiquei maravilhada quando vi o dinheiro na minha mão”. A violência passada na rodoviária a deixou indiferente para relações sexuais. “Hoje, eu entendo, mas naquela época achava que era só abrir as pernas”.
O dinheiro saía com a mesma rapidez com que chegava: vaidosa, Juma comprava casacos, roupas e sapatos novos, além dos entorpecentes que a mantinham sã. Ela se lembra dessa época com carinho e um sorriso divertido. “A vida noturna de Brasília era muito rica! Quando comecei o trabalho sexual no Conic, era um luxo (…) O crack foi o que destruiu a vida noturna do Conic”. Quando a cocaína não mais lhe satisfazia, Juma também passou a usar merla, entrando em uma espiral de decadência paralela à da cidade que tanto adora. Acabou indo dormir com os ratos em bocas de bueiro. Uma noite, enquanto ela dormia sob efeito da droga, alguém colocou fogo nela. “A merla baixou muito minha guarda. Foi assim que eu acabei com 40% do meu corpo queimado, fui esfaqueada, baleada…”.
Na pré-adolescência nas ruas, Juma teve a primeira e única filha. Naquele tempo, além de tentar manter a si e a filha em segurança, tinha que fugir do Serviço Social que via como “um monstro que podia lhe tomar a criança”, visão que ela afirma ser muito comum entre pessoas em situação de rua.

Quando dormia, Juma colocava um pedaço de madeira sob a cabeça para garantir a proteção das duas. Uma noite, Juma relata, o pedaço de madeira foi usado contra um homem que ela, ao acordar, viu levantar o vestido da filha. “Tentaram violar minha filha e eu acabei tendo que defendê-la. Mas mulher moradora de rua não tem direitos, viram que eu quase matei o cara de paulada, mas ninguém viu a defesa”. Juma acabou encarcerada e enviada para a PFDF (Penitenciária Feminina do Distrito Federal ), a Colmeia. “Sofri muito no sistema penitenciário, mais do que na rua. Porque na rua você passa por várias violências, mas a liberdade nos proporciona algumas saídas”.
A Gaiola
Entre beliches e colchões espalhados pelo chão, Juma dividiu uma cela com mais 60 mulheres. Ela ficou 2 anos e 8 meses encarcerada, período em que sofreu com a abstinência da merla. Sua filha foi adotada por uma mulher que já tinha dois filhos, mas queria uma menina e que cuidou dela até mesmo depois de Juma ter sido solta.
Nesse período, a maconha se fez importante para ajudá-la com as dores físicas, a rotina do sistema prisional e o difícil processo de abstinência da merla. Uma droga tranquilizante, Juma afirma que a maconha entra com facilidade dentro do sistema prisional para apaziguar os ânimos dos encarcerados. “Eu comecei a usar maconha de manhã e de noite, e aquilo me fez bem. Ela tirava minhas dores e resgatava algo que tinha morrido em mim”. Hoje, Juma é militante pela legalização da maconha e está à frente da ala feminista da Marcha da Maconha de Brasília.
Quando foi solta, Juma não tinha família e nem para onde ir e acabou voltando para a rua. “O Estado é assim: te prende e depois te joga na rua”. No primeiro dia em liberdade condicional, rumou para o Conic, lugar que por tanto tempo tinha sido o centro de seu mundo. Lá, tomou uma cerveja gelada e reviu os amigos. Um em especial, Parazinho, tinha um quiosque durante o dia e pela noite, uma barraca de cachorro-quente que alimentava as profissionais do sexo. Ele arrumou para ela um quartinho para alugar em Brasilinha por R$ 50.
A filha, ela optou por deixar na casa da mulher evangélica que se dispôs a cuidá-la, visando poupá-la do estilo de vida duro que levava. “Eu ainda estava muito fragilizada e ela estava numa estrutura tão boa financeiramente. Era melhor do que a rua”. Contudo, Juma sempre se recusou a assinar os papéis oficiais que dariam a guarda da menina para a mãe adotiva definitivamente, e ia visitá-la com frequência, levando-a consigo por alguns dias para a rua e devolvendo-a à casa depois. “Buscava pra passar o fim de semana comigo na rua. “Participei muito da vida dela. Fui virada pra escola, na formaturazinha dela, toda fedida de fumaça de cigarro. Cheguei com uma roupa horrorosa. Foi arrasante esse dia, minha filha me chamou pra ir lá pra frente de mão dada e eu morta de vergonha”, recorda. Hoje, mãe e filha mantêm contato diariamente e Juma tem um neto e que lhe provoca sorrisos sempre que é mencionado.
Foi o mesmo finado Parazinho, de quem Juma se lembra com carinho, que lhe apresentou o homem que hoje é marido dela. Funcionário público criado em uma família de militares, Marcos conheceu Parazinho por causa do carrinho de comida que o comerciante mantinha em frente ao Ministério no qual ele trabalhava, onde vendia café e lanche.
Na noite em que os caminhos de Juma e Marcos se cruzaram, ela parou na barraca de Parazinho com as amigas. “As raparigas queriam ir pro Barulhos”, lembra, em referência ao local onde hoje funciona o Bar Barulhos no Parque da Cidade. Marcos acabou sendo a carona, e chegou na boate com o carro cheio de garotas de programa. Parazinho, que era amigo de Marcos, confiou em Juma para tomar conta dele naquele universo desconhecido.

Desde o início, Marcos nunca foi um cliente, mas Juma o viu como um investimento a longo prazo. “Via no sexo oposto uma oportunidade, então usava meu corpo e minha sensualidade. No momento em que bati o olho no Marcos, eu o vi como uma oportunidade de sair da rua”. O amor entre Juma e Marcos veio aos poucos e, então, subitamente. “Gostei da personalidade dela”, conta 13 anos depois, sentado no sofá da casa na Vila Planalto que os dois dividem com dois gatos e uma cachorra recém-adotada. Ele também foi visitá-la quando Juma estava encarcerada. Anos de parceria e companheirismo construíram a relação que se mantém até hoje. Na casa aconchegante, Juma mantém nas paredes fotos da filha, da mãe, do neto e do casal. No quarto, uma penteadeira com maquiagem e cosméticos. “Maquiagem é tudo, menina”.
Após A Prisão
Em 2002, recém-saída da Colmeia, Juma lembra que tinha medo de ser pega na rua após seu toque de recolher, às 22h, pois isso significaria perder a liberdade provisória. Uma noite, enquanto fazia programa no Conic, um homem a abordou com uma proposta diferente: ele lhe perguntou se ela queria um trabalho. “Eu tinha o segundo grau, mal fiz a 6ª série, usuária de droga, sem dente na boca! Moradora de rua! Ex-presidiária! ‘Que emprego é esse, doido?’”.
O homem era Claudiney Alves, um dos primeiros redutores de danos de Brasília e conhecia Juma como uma figura de liderança entre seus pares da rua, vendo ali uma possibilidade de alcançar mais pessoas através dela. A primeira reunião foi numa sexta-feira, pela manhã. “Ou eu comprava o meu miojo, ou comprava um reloginho pra não perder a hora da reunião. Comprei o reloginho, olha aí a oportunidade de um empreguinho, bixa. (risos). Acordei 4h30 da manhã, doida, peguei uma carona e desci no posto de saúde. Banguela, toda sem-graça, daquele jeito. Vamos ser redutora de danos”.

O programa de Redução de Danos do DF nasceu em 1999, vinculado à Secretaria de Saúde e, inicialmente, visava prevenir a contaminação de AIDS. Os primeiros redutores distribuíam camisinhas e kits de seringa para impedir a contaminação entre os usuários de drogas injetáveis. Em 2013 quando a atuação do SUS foi intensificada no DF, a redução de danos passou a abordar também outras questões. “Redução de Danos não é um tratamento, ela compõe um tratamento que a pessoa deseja. Se a pessoa quiser abstinência, a redução compõe essa abstinência. se a pessoa quer mudar de droga, a redução compõe esse tratamento”, explica Juma durante a palestra.
O programa de redução de danos complementa o sistema de saúde para as populações mais vulneráveis, e tenta compreender e satisfazer as necessidades dessas populações. Seus princípios básicos são a defesa do usuário. “É chegar em alguém da rua e não querer saber da droga dele, mas da boca dele que tá machucada. Explicar que ele pode pegar AIDS ou hepatite , dividindo o cachimbo, o baseado. Na hora eles perguntam ‘como? por quê?’, porque a gente pode até morrer de facada, de tiro, mas morador de rua nenhum quer morrer em cima de uma cama de hospital”, conta Juma. Assim, ela explica, as pessoas em situação de rua veem que a preocupação principal não é a droga que eles consomem, mas eles enquanto seres humanos. “A sociedade enxerga o cachimbo de merla, mas temos que enxergar a pessoa por trás daquele cachimbo. E isso ninguém enxerga. Eu falo isso porque senti na pele. Se bem que hoje eles enxergam, a loira platinada sentada na rua, caríssima (risos)”.

Pelos primeiros seis meses, Juma trabalhou sem retorno financeiro, mas o pagamento veio de outra forma. Ser ouvida e respeitada por quem era e pelo que tinha vivido abriu as portas para seu processo de empoderamento. “Não me exigiram nada, só o compromisso de estar presente nas ações. Só queriam que a minha história servisse pra me aproximar das pessoas. E isso era o que eu tinha pra dar, eu não tinha outra coisa”, diz. “Eu comecei a sentir prazer nessas coisas, no trabalho, em ajudar as pessoas. Em ser elogiada no serviço. Isso pra mim era melhor do que os R$ 250 que eu passei a receber”.
Através da Redução de Danos, ela se tornou militante e entrou para o REBRADE, um projeto da UnB que durou um ano e acolheu 3500 usuários de drogas. Os redutores de danos chamados para o projeto eram todos igualmente usuários e tinham patologias como HIV e hepatite. Juma é a única membra sobrevivente. “Eram pessoas que o Estado não queria e que nunca teriam oportunidade de trabalho, mas fizeram um trabalho muito grande. A Redução de Danos de Brasília existe graças a eles”.
BATALHA
Hoje, Juma continua seu trabalho como redutora de danos na ONG Namastê, vinculada à Revista Traços (um projeto social e jornalístico com pessoas em situação de rua). Além disso, faz visitas semanais ao Setor Comercial Sul e entornos para trabalhar junto aos “pares” (como gosta de chamar as pessoas com quem trabalha) e oferecer a eles dicas para tratar feridas, reforçar a importância de beber água, oficinas de cuidados com a saúde e DST’s, ou mesmo companhia e um bom papo. Ela é membra da Diretoria da Associação de Redutores de Danos e representante da entidade no DF. “A rua ´tá sempre com a gente. A gente sai dela, mas a rua nunca sai da gente”.
Por iniciativa própria, ela terminou os estudos no supletivo em 2007 e chegou a fazer um curso de brigadista. Ela criou a ONG Tulipas do Cerrado, que visava continuar o trabalho de redução de danos do antigo REBRADE, mas adicionando entre seu público as profissionais do sexo. “É muito difícil a gente falar da mulher em situação de rua, ou falar de redução de danos sem falar de profissionais do sexo. Quantas mulheres tem seus direitos violados por que essa profissão não é regulamentada? Porque não é ilegal ser prostituta, mas é ilegal procurar um ambiente seguro para trabalhar. Quando corremos atrás do direito dessas mulheres, lembramos que essas mulheres são trabalhadoras, são mães”, explica.
A Tulipas do Cerrado atua desde 2005 em Brasília, mas não possui CNPJ porque não há uma sede, exigência para oficializar uma ONG. Além do trabalho na ONG Namastê, Juma faz palestras e leva estudantes de psicologia e serviço social a viagens de campo junto a moradores de rua e usuários de drogas para apresentar os próximos redutores de danos a seus pares. Ela participa de projetos como o Cine Rua, que leva sessões de cinema para pessoas em situação de rua por todo o DF com uma tela e um projetor.
Por causa da nova exigência de um diploma de graduação em Serviço Social para quem atua em sua área, ela iniciou o curso de Serviço Social na UnB. Orgulhosa de sua herança e sua trajetória, ela teme que a nova exigência desanime ou impeça outros redutores de danos nativos das ruas a fazer o que ela faz. “É muito cruel que digam pra mim hoje, ‘você tem que ter um diploma pra trabalhar’, sendo que eu passei minha vida inteira estudando na rua. A rua foi a melhor faculdade da minha vida”. Hoje, ela é considerada a última redutora de danos nativa da rua. “Eu tenho muito orgulho de ser redutora de danos. Mas eu acho que eu vou ser a última”.
Logo quando nos conhecemos, ela me disse: “Eu não suporto que me coloquem como mulher vulnerável. ‘Ah, tadinha daquela menina lá. Coitada dela’. Não existem pessoas vulneráveis na rua, pelo contrário: somos muito fortes, principalmente as crianças. Olha eu aqui, moro nas ruas desde os 10 anos de idade, ‘tô viva e saudável. Não tenho nenhuma patologia, fora ser um pouco louca (risos)”.
Naquela mesma oficina que ela ministrou na UnB, Juma confessa que, às vezes, até ela se sente cansada. “Mas aí, eu penso: o que vai acontecer com essas pessoas se eu não conseguir mais fazer essa caminhada?”. Nos slides, ela nos mostra fotos de conhecidos e amigos e nos conta as histórias dessas personagens beckettianas: um senhor que foi abandonado pela família e está nas ruas há 40 anos, um homem que aprendeu a usar sacos plásticos para absorver o calor do sol e espantar o frio, um menino de 11 anos que é usuário de crack e para quem eles fizeram uma festa junina de presente, uma jovem de 18 anos que estava grávida do 9º filho quando foi levada para fazer o primeiro teste de HIV, uma mulher trans que ela conheceu quando era um garoto que dormia na Rodoviária. Histórias reais e cheias de humanidade.
E no final da palestra…
“Me chamo Juma Santos, fundei a Tulipas do Cerrado, faço parte de outros movimentos feministas nacionais, como a Rede Feminista Antiprotecionista. Hoje, venho à frente de uma ala feminista das mulheres daqui de Brasília na Marcha da Maconha. Sou referência no Movimento de Trabalhadores Sexuais e pretendo me formar em Assistência Social porque o Estado não permite que eu assine minha carteira de Redutora de Danos sem meu ensino completo”.
A palestra termina e todos aplaudimos de pé.
Todas as imagens utilizadas nessa reportagem foram cedidas pela entrevistada e fazem parte de seu arquivo pessoal.