POR QUE SOU EMPREENDEDORA EDUCACIONAL

Ser empreendedor, ou ter perfil empreendedor, não é uma característica inerente às pessoas. Podemos ao longo dos anos construir este perfil, trabalhar habilidades, atitudes e conhecimentos que nos ajudem a desenvolver as competências necessárias, ou pode acontecer que, numa das curvas da nossa trajetória, algo nos desloca para outra rota, quando descobrimos então nosso porquê.

Comigo aconteceu assim, minha irmã caçula, dez anos mais nova, nascida em agosto, iria mudar de escola na virada da alfabetização. A escola na qual ela estava não havia fornecido a base que ela precisava e o novo colégio, onde meu pai queria colocá-la, só a aceitaria, fora da faixa, se ela já soubesse ler. Quando ele me pediu ajuda, talvez não soubesse que estava traçando ali toda a minha trajetória de vida e me empurrando a descobrir minha grande paixão: ensinar. Eu tinha 16, fazia segundo grau, nunca tinha passado pela minha cabeça ser professora, ou algo do gênero. Além de ser um pedido do meu pai, considerava injusto que ela não fosse aceita sem que ao menos eu tentasse. Tínhamos pouco tempo, ela faria uma avaliação e precisava estar preparada, sem estar contaminada por inúmeras teorias, estudei os cadernos da minha mãe que havia feito magistério e comprei livros de histórias para que assim pudesse ajudá-la. Se ela estivesse pronta, aprenderia…bem, vocês já devem imaginar o final desta história.

Aos 20 anos, concluída minha primeira graduação, abri com duas colegas uma clínica psicopedagógica, numa época em que o assunto começava a ganhar força, estudamos muito, implementamos práticas diferenciadas, desenvolvemos nossos próprios materiais e derrubamos várias barreiras para levarmos nossa proposta. E o reconhecimento veio na mesma proporção.

Desde então, lá se vão quase três décadas, e neste caminho decidi que faria diferente, que não me contentaria com o conhecimento encaixotado e fechado, que a academia seria um dos passos, mas que haviam outros que precisaria de dar e outros tantos que deveria construir se quisesse fazer da minha história algo mais do que simplesmente existir. Como dizia meu avô, desta vida o único bem que realmente temos e o conhecimento que adquirimos. Pois decidi desde muito cedo que todo meu conhecimento seria para poder ajudar outras pessoas a fazer a diferença na vida de outras tantas e assim o conhecimento, de forma dinâmica, poderia circular.

Dizem que quem trabalha com educação segue uma profissão de fé, mas não me restringi à área educacional e nem me fechei a um único conhecimento. Por que não? Senti na pele a dificuldade daqueles que não optam por seguir uma carreira única, porém sempre pensei que precisava ir atrás do conhecimento onde quer que ele estivesse e que me fornecesse a experiência e a expertise que fosse chave para poder passar para o meu próximo nível. Como atuar junto a áreas tão diferentes se não conseguisse estabelecer conexão com elas.

Essa vontade de construir novas possibilidades e desenvolver processos que pudessem ser um diferencial fez com que eu integrasse, em minha formação, humanas, exatas e gerenciais. Linguagens diferentes, perfis diferentes, mas no final todos buscam os mesmos objetivos, afinal se não tiver aqueles que ensinam como poderemos seguir e fazermos a diferença num espaço em que a massa achata todos tentando nivelá-los por um padrão inferior. Para chegar onde ninguém chegou é preciso fazer o que ninguém fez.

Investir em educação é “trabalho de formiguinha” e, em especial para os que ficam nos bastidores, ainda mais complicado. Foi então que percebi que não precisava ficar sempre atrás das cortinas. Há pouco mais de um ano, quando mergulhei nos estudos sobre marketing digital e encontrei uma forma de pensá-lo como marketing de aprendizagem, como o Serge Rehem, ou ‘education based marketing’, como a Callan Rush, compreendi que os processos educacionais e de aprendizagem podem se expandir e trazer verdadeiras transformações nos processos de ensino e aprendizagem e alcançarem exponencialmente outras pessoas se puderem ser incorporados às práticas atuais.

Com o avanço do empreendedorismo digital, uma avalanche de cursos começou a circular, sobre uma infinidade ainda maior de conteúdos, saberes e fazeres. Entretanto, mesmo que todos estes autores e produtores tivessem feito licenciatura numa faculdade, independentemente da área de formação, dificilmente o que aprenderiam estaria afinado com a velocidades com que as tecnologias, mídias e processos de interação avançaram. Existem inúmeras metodologias, algumas derivadas do design instrucional que surge na época da Segunda Guerra Mundial ou da educação tecnológica da década de 1970 e outras bem mais recentes já voltadas para o ensino online que aplicadas corretamente surtem efeitos positivos. O que não necessariamente implica em processos de aprendizagem.

E porque volto a falar sempre de aprendizagem. Acumular conhecimento não gera transformação e nem te leva para a ação. Coloque um monte de livros na estante e veja o que acontece, ou vá à biblioteca todos os dias e caminhe pelas prateleiras, folheie os livros, ou acesse a internet e faça buscas por temas…. hoje temos conhecimento disponível à vontade, mas e daí.

Fazer a ponte entre este conhecimento e a prática, fazer com que o conhecimento possa ser fator de transformação cultural, social, e no mercado de trabalho é determinante para que um curso seja a diferença no seu nicho. O problema é que existe uma ponte maior, a academia fica muito distante do espaço real de onde as aprendizagens cotidianas acontecem. E são poucos dos grandes especialistas que se dispõem a trabalhar diretamente com aqueles que estão na ponta e que vão efetivamente contatar as pessoas que precisam daquele conhecimento para colocar aprimorarem seus processos e práticas.

Então, por que não? Depois de orientar mais de uma centena de alunos na pós-graduação e na graduação em projetos de diferentes áreas, participar na produção, desenvolvimento e aplicação de capacitações nacionais para órgãos públicos com mais de dez mil pessoas envolvidas, de desenvolver cursos para instituições privadas, fazer consultorias para empresas que desejavam implantar e-learning….percebi que seria muito mais importante conseguir trabalhar diretamente com os atuais empreendedores que ainda não se descobriram como empreendedores educacionais, mas que diariamente buscam inovar em processos para fazer com que seus conhecimentos cheguem a um público maior.

Mesmo mantendo o foco do meu trabalho no digital, em e-learning, há mais de uma década, não posso e não quero afastar-me da academia. Procuro sempre estar presente e participar de eventos onde possa encontrar-me com acadêmicos, professores, pesquisadores e publicar. Enquanto no digital se ganha autoridade pelo número de curtidas ou de leads que se conquista, na academia são os artigos, orientações, prêmios, eventos que te garantem um lugar ao sol. Existir nestes mundos paralelos é mais que um desafio.

Que seja dado o próximo passo! Não vim ao mundo a passeio. Não posso deixar tudo isso fechado numa gaveta ou pendurado nas paredes do meu escritório, conhecimento é dinâmico, precisa circular, expandir, ressignificar.

Hoje resolvi contar um pouco desta história por uma razão muito simples. Anteontem meu filho chegou em casa, eu não estava, ele viu meu diploma do doutorado em cima da minha mesa de trabalho (havia acabado de pegar na universidade) e ele, segundo o pai, ficou orgulhoso e sem se conter de felicidade. Afinal faz parte da história da vida dele e da irmã. Minhas idas e vindas, noites e noites sem dormir, as viagens, as opções que fiz em relação à minha carreira para que pudesse deixar para eles um grande legado.

De outro lado, o dono da banca da minha quadra que também me conhece há mais de uma década me perguntou qual seria o próximo… Muitas pessoas nunca chegaram a ter acesso a todo este conhecimento, muitas podem até ter e não saber o que fazer com ele. Se eu conseguir que pelo menos para uma pessoa eu consiga fazer a diferença já me valeu… Bem, neste sentido estou no lucro, porque meus filhos vibram a cada passo que dou rumo a realização dos meus sonhos afinal #empreendertransforma.

Colocar tudo isso no papel, neste momento, não foi fácil, e olhe que nem passei do prefácio do que é minha trajetória dentro do empreendedorismo educacional. Fazer isso agora só foi possível pelas inúmeras tiradas diretas do grande André Cia, que me fez ver além e perceber que poderia sim sair dos bastidores.

Sou imensamente grata a todos que fizeram e fazem parte desta trajetória. Seria injusto e incorreto trazer apenas alguns nomes, já que estes somam mais que algumas centenas entre colegas, professorxs, mestres, amigxs, incentivadores, conhecidxs, que passaram e deixaram um pouquinho de si que contribuíram para o que hoje eu sou.