PERSONALIDADE

OU RECEITA DE COMO CRIAR UM MOSTRO?

Minha família nunca foi muito grande. Não conheci meus avos maternos e embora minha mãe tivésse outros irmãos nós nunca os conhecemos. Quando meus pais separam-se, ela mudou-se com meus irmãos para a cidade de Santa Maria/RS. Eu estaria com 8 anos ou quase.

Naquele tempo nossa comunicação restringiu-se às boas e velhas cartas. Raras, mas elas sempre vinham em resposta as inúmeras cartas que eu enviava. Telefone era luxo — E, era mesmo! Podia-se medir o grau de poder aquisitivo de uma pessoa se ela dissesse que tinha telefone em casa. Se tivesse um carro, então era ‘rica’.

Eu não tinha amigas, exceto aquelas com quem minha irmã e eu brincávamos. Posso dizer que em função da diferença de idade, todas eram mais amigas de minha irmã do que minhas. E muitas dessas meninas eram irmãs daqueles meninos que abusaram de mim por um tempo. Dessa forma, minha vida resumiu-se a conviver e brincar comigo mesma.

O pai, talvez por frustração e tristeza, após a separação passava mais tempo na rua e esquecia da filha em casa. Sequer eu sabia, mas ele arrumou um segundo emprego o que não fez nossa vida melhor em termos materiais, ao menos pra mim. Muitas vezes eu sequer via meu pai, durante dias. Havia momentos em que acordava de madrugada e via ele dormindo, então eu o abraçava e beijava. Quando acordava, era como se tivesse sonhado, novamente estava sozinha.

Havia dias em que eu passava sem tomar banho (preguiça natural de criança — aprendi isso quando tive meus filhos). Havia dias em que acordava e sequer tomava café, e do jeito que saia da cama ia pro pátio (quintal) brincar com os brinquedos que tinha.

(Perto de nossa casa, havia um terreno baldio onde as pessoas largavam seus lixos. Era lá que eu apanhava muitos de meus brinquedos e algumas vezes materiais de escola. Felizmente haviam muitas professoras no meu bairro. O único brinquedo legal que eu tinha era um boneco que tomava mamadeira e fazia xixi no peniquinho. Eu o batizei de Sandrinho. Aquele boneco passou a ser o meu companheiro em tudo. Era nele que eu chorava abraçada quando sentia muita saudades de minha mãe e irmãos. Era com ele que eu dormia abraçada quando ficava com muito medo dos barulhos da rua ou nos dias de tempestade. E era nele que eu descontava minha raiva pelo mesmo motivo. Eu tinha ataques sérios de raiva e revolta. E nesses instantes eu “esquartejava” o boneco que meu pai havia me dado, depois quando via ele todo desmontado eu chorava de remorso e juntava tudo de novo.

Isso realmente era sério. Anos mais tarde, confessei pra minha mãe que tinha medo, pois achava que realmente estava enlouquecendo e talvez eu precisa-se de ajuda. Tomei uma bronca por isso. — ‘Falta do que se ocupar.’ — Foi a resposta dela.)

Como meu pai e eu morávamos nos fundos da casa de meus avos era com eles que eu almoçava. Depois me arrumava pra escola e saia, voltava as 5. Nossa mãe sempre nos trazia impecável pra a escola. Lembro dela preparando nossa merenda, um pão recheado. Lembro dela conferindo nosso banho e nossos dentes antes de sair e penteando nossos cabelos, prendendo sempre uma fitinha branca ou elásticos com bichinhos.

Cabelos presos em “marias-chiquinhas”, camisa branquinha e perfumada, saia sempre bem passada, meias e sapatos limpinhos. É a lembrança mais bonita que tenho de mim.

Porém naquele momento eu já não conseguia me manter daquela forma. A camisa e as meias foram ficando encardidas, a saia já não era tão plissada e com o passar do tempo os sapatos foram furando e como eu disse, o pai ter dois empregos não fazia com que nada me faltasse. Muitas vezes, eu mesma remendava meus sapatos, noutras vezes já não tinha mais solução. Certa vez meu avô me flagrou remendando meus sapatos e ele tomou a iniciativa de dar-me novos. Era um kichute horroroso que mais se pareciam com chuteiras, mas era o que ele podia me dar. Com o tempo virei alvo de chacotas e piadas das outras meninas na escola. Nunca imaginei o quanto as crianças podem ser cruéis, e ainda que só estejam reproduzindo conceitos que assimilam na família, crianças são muito cruéis.

Ao menos o foram comigo!

As meninas passaram a me isolar e em alguns momentos hostilizar. Talvez porque eu estava sempre com cara de quem não entendia nada as professoras faziam eu sentar-me na frente. Dali eu não precisava ver ninguém porém ainda podia ouvir as piadinhas, os risinhos e algumas meninas que até hoje não esqueci o nome, cantarolavam baixinho: “neguinha suja, suja borrada e muito burra, não aprende nada.”

Certa vez uma delas veio falar comigo no intervalo e eu pensei que realmente que ela estava querendo ser legal.

— Eu tenho um monte de sapato que não uso mais, minha mãe vai dar pra alguém e eu perguntei pra ela se podia dar pra ti. Tu quer?

— Claro que sim. Tu vai dar eles pra mim?

— Ah! Claro, vou falar pra mãe.

No dia seguinte a musiquinha na fila da entrada era outra. “neguinha suja, suja e pobre, não tem dinheiro pra compra sapato.”

Aquela foi a primeira vez em que não aguentei queria bater nelas e quando entramos pra aula, uma delas deu-me um encontrão e durante a aula eu tinha vontade de reclamar com a professora, mas não tive coragem e comecei a chorar e acabei por fazer xixi nas calças. Fui mandada pro Serviço de Orientação Educacional da escola— SOE. Lá a orientadora pensou que eu havia chorado por que tinha feito xixi, quando na verdade eu fiz xixi por que estava chorando. Vê se entende!

Depois disso as coisas não foram facilitadas pra mim, embora tenha parado por um tempo, logo as piadas voltaram e agora eu alem de neguinha, pobre e suja era a mijona e chorona.

Tinha vontade de morrer, de sumir, descontava a revolta sozinha, as vezes na frente do espelho quando eu olhava pra mim, eu puxava meus cabelos até arrancar punhados. Com o tempo passei a faltar às aulas. Eu saia pra escola mas no caminho ia pra biblioteca pública que ficava ao lado da escola. Nasceu ai a minha paixão pelos livros. Em cada livro que eu lia, eu era uma pessoa diferente assistindo a história de outras pessoas. Quando os livros chegavam ao fim eu voltava pro vazio que era a minha própria existência e, buscava logo outro livro. Ao chegar ao fim do ano, antes de completar 9 anos eu já havia lido Josué Guimarães, Érico Veríssimo, Stephen King e, não sei como, também li Bocaccio.

De certa forma, os livros me continham, passaram a me acalmar, eu aprendi coisas que não aprenderia com mais ninguém, pois não havia quem me ensinasse. Inclusive aprendi a entender alguns livros de autoajuda que na época não me ajudaram muito, mas com o tempo algumas coisas foram uteis o suficiente para me fazerem aceitar que as coisas que aconteciam comigo poderiam ter uma recompensa no fim. Que toda a maldade seria um dia punida e que o paraíso estava reservado aos oprimidos. Eu era a oprimida e Deus estava vendo tudo aquilo; ‘um dia eu seria justiçada’.

Eu era uma criança de 8 anos, sexualmente abusada aos 5 anos, não por uma mas por várias pessoas. Estava sofrendo bullying e vivia pela conta e risco pois não tinha a quem recorrer, pai, mãe, professor, avos. Ninguém. Não eram apenas o meu boneco e os meus cabelos que sofriam as consequência da minha revolta, eu também cortei-me uma ou duas vezes, com um pedaço de espelho que quebrei em um daqueles acessos de fúria.

Tenho ainda as cicatrizes para lembrar-me desse passado, embora hoje quando olho para elas fico triste porque não posso voltar no tempo e impedir que aquela menina se fira. Me envergonham essas marcas, e temo que em algum momento eu tenha que inventar alguma mentira pra justificar como elas foram parar ali.

Hoje eu sou forte e aprendi a confiar, pois vi a Lei do Retorno agir sobre minha vida, assim como na vida de alguns que me magoaram. Sou a prova viva de que nenhuma ação fica sem reação.

Minha alma? Ainda hoje carrega algumas marcas. Me agrada dizer, que todas foram curadas, curadas a ponto de agora estar falando sobre elas sem sofrer duas vezes, sem me ausentar, sem sentir pena de mim. Mas claro, há o lado negativo, não posso dizer que passei por tudo sem sequelas.

Não sou uma pessoa fácil de conviver; não escondo mais o que sinto e embora hoje, ainda esteja treinando esse lado de conter o que penso, sempre falo mais do que devo e magoo com isso alguém. Desenvolvi uma racionalidade critica bem severa e tendo sempre a julgar sem justificar as atitudes das pessoas. Não tenho paciência para entender e justificar atitudes egoistas, ignorantes, imaturas e prepotentes. Nem quero! Mas fico feliz pois não é nada pessoal com ninguém, uma vez que eu sou a pior juíza de mim mesma.

De tudo isso acho que a pior coisa que carrego e que restou é o fato de que não me apego às pessoas, por mais que as ame não consigo demonstrar, ser simpática, ser legal e acaba sempre parecendo que a arrogante e antipática sou eu e quando me abro um pouquinho sempre acabo deixando se expôr um pouquinho da minha carência. Então prefiro viver aqui, nessa redoma de ausência na qual me pus voluntariamente, aqui as pessoas não partem, não me agridem, não me ferem e por minha vez nem eu poderia atingi-las. Elas estão a salvo de mim!!!

Gostaria de não ser assim mas neste ponto, falta-me vontade para ser diferente, pois entendo que primeiro, teria de resolver a carência afetiva da menininha que vive, escondida, em algum lugar… dentro de mim.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Alexandra Porcellis’s story.