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Eu não costumava usar muito o metrô no Rio. Quando morava na Tijuca, era nova demais para ir pra escola sozinha. Depois me mudei pra Barra, onde o metrô até hoje não passa de uma lenda. Quando finalmente fui parar na Zona Sul de novo, me instalei no final do Leme, e minha preguiça de andar vinte minutos até a estação mais próxima me impediu de aproveitar a praticidade do subterrâneo. E aí eu me mudei pra Paris.

Não é novidade pra ninguém que o metrô de Paris é o paraíso dos transportes públicos. São 16 linhas + 5 linhas de RER, o que te dá liberdade para ir de qualquer ponto a qualquer outro ponto na cidade em no máximo 40 minutos. Eu moro na linha 7, a linha rosa-claro, umas quatro estações antes da estação final. São 14 estações de distância da minha escola e faço o trajeto em 25 minutos.

No meu primeiro dia de aula, a Fabienne me acompanhou até a estação Crimée e compramos meu Navigo, o passe de metrô válido por um mês. São 70 euros para ter a comodidade de usar o transporte quantas vezes eu quiser todos os dias até o mês seguinte. Eu garanti a ela que sabia exatamente como chegar na escola — bastava saltar em Châtelet e caminhar um pouco até lá. Mas é lógico que eu me perdi no segundo em que eu saí da estação.

Essa estação, além de ser a mais movimentada do sistema metroviário, é assutadoramente imensa. Ela deve ter, o quê?, umas 15 saídas diferentes? 15 lugares diferentes, no meio de Paris, para eu escolher no meu primeiro dia. Segui pela saída mais próxima da plataforma e tentei me localizar pelas placas. “Centre George Pompidou”, é pra lá que eu ia. Eu já tinha feito uma ampla pesquisa no Google Street View para conhecer os arredores da escola, que fica no Beaubourg, bem no coraçãozinho de Paris. Então eu sabia que, se chegasse no museu, estaria no caminho certo.

Talvez seja genético, talvez seja cultural, mas o fato é que eu tenho sérios problemas de orientação. Eu tinha um mapa que me mostrava exatamente por qual caminho seguir, mas o que estava escrito ali no papel não batia de jeito nenhum com as ruas que eu via. Eu precisava entrar no mapa, pisar nele e encontrar a direção certa. Consegui encontrar a Rue de Rivoli, na esperança de que, a partir dela, eu acharia a rua da escola. Mas não podia ser tão simples assim, não é mesmo? É claro que não. Porque a Rue de Rivoli, além de ser uma das ruas mais famosas e importantes da cidade, tem por volta de 3 mil metros de comprimento e corta umas 50 ruas. Alguma delas era a rua da minha escola, e isso era tudo o que eu sabia. Se eu deveria ir para a direita ou para esquerda era um incógnita total, porque isso variava a cada vez que eu girava o mapa e tentava decifrar as referências visuais.

Como eu cheguei em uma época de férias em Paris, tanto os metrôs quanto as ruas ficam vazias durante a manhã. Então não foi tão simples assim conseguir escolher alguém para pedir informações às 8h, quando tudo ainda estava fechado. Pedi ajuda a um homenzinho que parecia muito apressado, mas que olhou pro meu mapa, andou de um canto ao outro do quarteirão e ficou bufando e passando a mão na testa como se estivesse muito incomodado e ao mesmo tempo dedicado em me ajudar. Aliás, os franceses fazem muito isso: bufam e passam a mão na testa.

Ele olhou, olhou, andou, leu placa, rodou, bufou e disse “eu não sei, mas vai pra direita, porque acho que é por lá” e saiu apressado, ainda bufando. Eu não tinha mesmo muito mais informação para usar, então decidi seguir o palpite do homenzinho e segui pela direita. Deu certo: cheguei em 5 minutos no Hôtel de Ville, a maior referência que eu tinha. E daí foi muito simples: bastou subir a Rue du Renard até o número 23. Mas eu precisava de um código para entrar, porque aqui t-o-d-o-s os lugares exigem uma senha eletrônica pra que a porta se abra.

Enquanto eu vasculhava minha bolsa procurando pelo papel onde estava anotado o número pra entrar, passou um homem me olhando e foi desacelerando até parar na minha frente. Ele ficou olhando pra minha cara e e eu olhando pra cara dele. Ele perguntou: “Isso aqui é uma escola?” e eu disse “É sim.”. E ele perguntou “E você estuda aí?” e eu respondi que oui, já achando isso muito esquisito. Comecei a procurar mais rápido pelo papel, porque não estva a fim de dar papo pra gente estranha na rua. “Você tem tempo pra tomar um café?”, “Não tenho não, brigada”. Pô, nem 8:30 da manhã do meu primeiro dia e já tinha que lidar com isso. “Me dá seu telefone então”, quando ele disse isso eu finalmente encontrei o código. “Não tenho telefone aqui em Paris ainda, acabei de chegar, au revoir”, a porta apitou e me deixou entrar.

Primeiro andar. Subi as escadas e minhas mãos começaram a suar mais uma vez, a cada degrau meu coração subia mais um pouquinho pela minha garganta, e eu tinha certeza de que assim que eu chegasse lá em cima ele ia saltar pra fora. Porque eu fico tão nervosa com essas coisas? É só uma escola, cheia de gente que também não tem a menor ideia do que esperar.

Assim que cheguei na recepção, conectei com a rede wi-fi da escola. Ainda eram 4h da manhã no Brasil, mas eu tinha a esperança de que alguns amigos ainda estariam acordados. “Gente, me mandem energias positivas. Primeiro dia.”. Ninguém me respondeu, mas eu não precisei: já estava sentindo toda a positividade do mundo.

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