Nós, os do meio


Nós, os do meio, somos sempre os que são feios, pero no mucho; inteligentes, mas não o bastante; os que estão ali entre a lama e o ouro e nunca alcançarão a glória. Nós, que habitamos o espaço irrelevante do mundo, costumamos arranhar acordes meio complexos no violão e desafinar em canções que a gente mesmo compôs. Claro, as canções que nós compomos nunca são boas o bastante para ser ruins e, no entanto, jamais serão grandes.

Nós, os do meio, gostamos de mostrar nossas canções para todos os nossos amigos. Eles, sem exceção, nos presenteiam com elogios e comentários do tipo: “Nossa, que verso lindo, parece do Chico”. E a gente ficará contente e se orgulhará de ter chegado perto do nosso ídolo, mesmo que semanas depois aquele mesmo amigo não mais faça ideia de qual seja aquele verso.

Nós, os do meio, nunca seremos Rimbaud, Cartola ou Tom Jobim. Sempre somos aqueles que se parecem com. Um poema à Rimbaud, um samba quase Cartola, um acorde difícil de bossa nova. Nós, que nós equilibramos no alto do muro, não conhecemos a dimensão real da palavra originalidade e escrevemos textos em que tentamos juntar o lirismo de Paulo Mendes Campos com a ironia machadiana. Evidente que o nosso texto nunca chega lá. Quer dizer, fica sendo ali aquela coisa meio boa, meio ruim. Em suma, cheia de ótimas intenções.

Nós, os do meio, acreditamos que é preciso acreditar e desacreditar ao mesmo tempo. Somos niilistas, mas ainda temos esperanças, almoçamos Cioran e jantamos Augusto Cury ou Martha Medeiros, tanto faz. Daí que escrevemos contos e compomos canções quase tristes, quase alegres, quase lindas, quase bregas. Nós, é bom que se diga, costumamos exagerar.

Nós, os do meio, somos sempre aqueles que são interessantes, mas nem tanto; e nos apaixonamos por mulheres quase inteligentes, quase bonitas. A gente sempre acha que essas mulheres podem crer, por um instante, que fazemos parte do topo. Mas elas sempre entendem qual é a nossa tática e nos dispensam com bastante cuidado. Porque não valemos a pena, mas é bom nos ter por perto. Se bem que, na verdade, a gente nunca fará falta.

Nós, os do meio, escreveremos muitos livros que juntarão pó em gavetas mal cuidadas e que serão lidos por dez pessoas no máximo (que foram obrigadas, claro). Ou talvez até sejamos lidos, mas ninguém se lembrará de nós dias depois. A gente sempre almeja a queda, a queda mais dura (que pode ser trocada por uma grande ascensão) e nunca alcança nada disso. Nem o chão, nem o auge. Incomodamos pouco, a não ser quando acreditamos que não estamos no meio e, nessas horas, a gente é muito chato. É óbvio que a gente sempre gosta de se lamentar.

Nós, os do meio, em algum momento vamos escrever um crônica que fala sobre sermos medianos e usaremos a ideia de um grande cronista. Porque a gente acredita mesmo que se esculachar é sempre a melhor solução para nossa dor que nunca passa.


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