ALT+RIGHT OU CTRL+LEFT?

CTRL+ALT+DEL

Alexandre Costa
Feb 25, 2017 · 7 min read

A ascensão da chamada Alt-Right tem fragmentado o espectro político de modo que quase espelha a complexidade do espectro político real.
Quem me acompanha sabe que eu evito me identificar com a direita ou a esquerda, porque vejo que essa rotulagem simplifica exageradamente o debate. Ser “direita” amarra um feixe de opiniões com as quais a pessoa fica amarrada, mesmo que não queira, junto à opinião pública, tanto quanto ser de “esquerda”. Nunca escolhi amigos ou influências políticas segundo se identificassem com esquerda ou direita. Sou liberal e acredito firmemente que este posicionamento não está ancorado à direita ou à esquerda.
Se você não mora numa caverna, está sabendo sobre a treta Joice Hasselman vs. Reinaldo Azevedo. Não vou me estender muito sobre o assunto, mas devo dizer que o fato de estarem um contra o outro não reforça as posições contrárias de nenhum dos dois, tampouco torna corretas as posições que ambos abraçam.
Joice cobra de Reinaldo uma posição mais dura para com o Governo Temer, e menos crítica da lava-jato; Reinaldo desce do salto e roda a baiana, abandonando sua racionalidade costumeira (mas não o pedestal onde ela o elevou) e dá um show de baixaria num vídeo “pit-bull”, parafraseando Míriam Leitão, que já o havia alcunhado assim, quando de sua contratação pela Folha de São Paulo.
A reação de Joice foi mais elegante, mas devo dizer que quase nunca concordo com sua visão anti-petista radical. Reinaldo, que é mais radicalmente anti-petista que ela, e notoriamente mais perigoso à visão de mundo e ao projeto de poder dos petistas, costumava elaborar as coisas “na mosca” muitas vezes, para ser ignorado por mim. Me vi lendo em suas páginas de blogue idéias que, ou já tinha elaborado a partir dos fatos, ou lá encontrava ótimos arremates, na forma de insights ora ferinos, ora engraçados, mas sempre inteligentes.
Joice, em quem nunca reparei em mais do que na beleza, segue dizendo as mesmas bobagens, sobre as mesmas pessoas, apoiando-se em factóides e cabendo como uma luva no espantalho que a esquerda fabricou para unir os seus contra um imaginário inimigo comum.
Reinaldo, porém, curiosamente, adotou uma postura bem diferente do resto da direita “xucra” como ele a chama tão propriamente. Bem mais condescendente com o governo Temer, em um pragmatismo conservador menos iconoclasta do que de costume, prega fervorosamente em seu bem-sucedido blog sobre a necessidade de deixar o Conde governar. A recuperação da economia é uma meta mais louvável, e deve ser o foco, justifica. E ela começa a dar sinais de que vai sair da UTI.
No entanto, a crise política brasileira não foi forjada. Ela vem da exposição dos mal-feitos dos políticos, pela maior operação anti-corrupção da história humana conhecida. Ainda que se possa temer a iconoclastia messiânica dos agentes da lava-jato, com seus excessos midiáticos, sem eles, o gigante ainda estaria sendo estuprado durante o sono, por inescrupulosos agentes públicos e o alto empresariado, que, no Brasil, formam uma só e a mesma classe.
Os procuradores envolvidos na operação deixam transparecer que têm sobre si uma opinião hiperbolicamente irreal. São Paladinos levando a lei aos infiéis do congresso. Mas independente disso (ou talvez até por causa disso), hoje conhecemos a podridão da vida pública brasileira como nunca pudemos sequer imaginar.
Todo o quadro leva o cidadão comum a ficar cínico e a amolecer o tônus moral, relativizando a culpa dos envolvidos com os quais simpatizam, em nome de um pacto que nos permita sair dessa sem guerra civil.
Se pareço catastrofista, converse cinco minutos com uma pessoa comum, um trabalhador pouco envolvido com política. Você ouvirá coisas como “esse congresso deveria ser fechado”, “todo mundo deveria ser preso”, e coisas do gênero. É o terreno perfeito para a volta do Lula, ou para a ascensão de alguém ainda pior.
Lula ameaçou voltar diversas vezes. Desde a condução coercitiva, quando disse que a operação lava-jato pisara “no rabo da jararaca”, excitando as hostes religiosas anti-petistas com imagens da cobra amaldiçoada no Éden, e as hostes religiosas petistas com imagens de revanche e “virada do jogo”.
Nas últimas pesquisas de intenção de voto, a Jararaca provou que está viva, e que seu olhar ainda hipnotiza. Ele vai fazer muita gente morder aquela maçã vermelha… de novo.
O que mais irrita Reinaldo Azevedo é que, para ele, Lula está voltando por causa da direita xucra. Isso é apenas parcialmente verdadeiro. Lula está voltando de prancha, a surfar no mar de lama da política brasileira, cujas entranhas a lava-jato expõe diariamente nos jornais do mundo inteiro.
Se TODOS roubam, melhor votar no Lula “que me deu meu primeiro emprego” vai pensar o antigo eleitor do PT, brevemente seduzido a um anti-petismo de ocasião, e agora recuperado. E o populismo volta a fazer suas vítimas.
O outro perigo é Jair Bolsonaro. Homem de curto entendimento e certo carisma, o Capitão Bolsonaro seduz as multidões, também. Mas multidões bem diferentes das que são mesmerizadas pela Jararaca. Seus seguidores são intolerantes e preconceituosos, e orgulhosos disso. Se há preconceito e racismo na noção esquerdista de “dívida histórica” ou a menos popular “apropriação cultural”, ela provém de uma identificação com o sofrimento do outro. A direita xucra, por sua vez, se orgulha de ser indiferente ao sofrimento. É uma mistura da antiga boçalidade aristocrática, com a boçalidade contra-cultural dos “objetivistas” randianos, orgulhosos do próprio egoísmo.
A cobra Bolsonaro, no entanto, se alimenta também da estupidez do eleitorado, bem como da onda de lama, cuja linha d’água chegou aos queixos do Presidente Michel Temer, ainda que por não ter sido ainda citado na lustrosa lava-jato.
Apesar de suas diferenças morais, os populismos, de direita ou esquerda, sempre resultam em conflito, polarização e sofrimento, e seguem sendo os maiores inimigos do liberalismo. Porque o liberalismo se caracteriza por uma consideração racional dos fatos políticos e econômicos, e da escolha da via que beneficie mais gente em menos tempo. Apenas considerando como a realidade é mais complexa do que consegue apreciar nossa vil ideologia, seja ela qual for, é possível a adesão a um liberalismo dinâmico o suficiente para fazer juz ao próprio nome.
A práxis econômica da Alt-Right, por sua vez, nem mesmo se dá ao trabalho de mascarar que seus objetivos são tão desenvolvimentistas, protecionistas e coletivistas quanto os da esquerda: ela apenas representa uma elite diferente.
Esta semana saiu um texto excelente do lúcido libertário americano Jeffrey Tucker, listando cinco pontos em que o libertarianismo (já chamado por ele em outro texto de liberalismo, numa tentativa — possivelmente vã — de resgatar o termo, que foi ‘sequestrado’ pela esquerda americana desde o trabalho seminal de John Rawls, A Theory of Justice) difere da auto-intitulada Alt-Right.
Para mim, simplificando a análise, Direita e Esquerda têm a ver com mais poder, mais controle, mais regulamentação estatal. Liberalismo não é uma coisa nem outra. É simplesmente mais liberdade. Simples assim.
Tanto a Direita como a Esquerda são fabricantes de teorias da conspiração as mais absurdas. Ambas são populistas e estatistas, porque, convenhamos, ser populista é o único jeito de se vencer uma eleição nas democracias contemporâneas. E quanto maior o estado, mais essa elite — tão diversa na aparência, mas igual quando a análise desce ao chão duro da economia — se revitaliza e eterniza.
O que o Brasil está aprendendo com a Lava-Jato, com todos os seus excessos, é que os políticos raramente são inocentes — se é que o há algum. E isso tem um efeito devastador na democracia e no estado de direito.
Quando o Zé Povão defende o fechamento do congresso, esquece-se (ou não sabe) que o contrário do estado de direito é parecido ao que vimos no Espírito Santo, durante a greve da polícia. Aparentes “cidadãos de bem” incorporando a besta humana, roubando e matando.
Na medida em que legisladores legislam em causa própria, e o judiciário se quer — e se consegue — intocável, o brasileiro vai se dando conta de que é ralé — não importa sua disposição para o trabalho, suas boas idéias, seu bom humor — uma ralé escravizada por uma elite inalcançável, que produz factóides e inimigos imaginários, com a ajuda de uma imprensa que depende enormemente de contratos com o governo para pagar suas contas.
Mesmo que todos seguissem as regras, ainda assim seria injusto e anti-meritocrático que a aposentadoria dos servidores públicos, só para citar um exemplo, fosse tão mais onerosa ao contribuinte do que a dos demais mortais. Tanto que o Brasil dormiu um sono apolítico de muitos anos, e os serviços públicos nunca foram satisfatórios.
Taí um motivo para criticar a autoritária reforma da previdência do Governo Temer: ela desconsidera a gordura do estado, passando a conta para os futuros cidadãos brasileiros. Só não sei se teria governo que ousasse fazer diferente. A não ser quem comete a irresponsabilidade de concluir que “não há rombo na previdência”.
Temer, meus caros, não é o inimigo. Temer é uma figura histórica datada. Seu fim, não é difícil de prever, está próximo. Nossos problemas o antecedem. Antecedem o PT. Antecedem nossa geração. E quase certamente nos precederão com poucas alterações.
Sempre que estou conversando isso com alguém, ouço a seguinte reclamação: “E o que você defende?”. Eu? Liberdade. Que se faça o que é justo. Que se estripe a burocracia, não importa quantos burocratas tenham que ir para debaixo da ponte. Que se estripe a política, não importa quantos políticos venham a ser postos atrás das grades.
Se for para ter impostos altos, que se implemente o imposto de renda negativo. Se for para financiar educação, que seja via vouchers, permitindo mais liberdade de escolha por parte das famílias, e que se acabe com a obrigatoriedade da “escolarização” sob a descerebrada desculpa do “abandono intelectual”.
Que cada um defenda o que quiser, desde que não agrida; Uma polícia bem remunerada, bem equipada e motivada por um judiciário ágil, para diminuir a sensação de impunidade que gera o “vale-tudo” urbano.
Nem Alt-Right, nem Ctrl-left. Ctrl+alt+del. Em resumo, uma utopia. E a história já mostrou o que reserva aos utópicos: cadeia e fuzilamento. Espero que nosso futuro nos conceda destino menos trágico.

Alexandre Costa

Written by

Psicoterapeuta, músico, escritor, humorista e podcaster. Psicólogo e Diretor técnico da Casa da Esperança. Podcasts: alexandrecosta.org/podcasts

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