Explicando melhor que treta foi essa do SoundCloud

No fundo, sou um Attention Whore

Aparentemente, o Soundcloud é a solução perfeita para armazenamento de mídia em áudio para podcasters. Oferece armazenamento ilimitado a um preço razoável (ainda que seja em dólar), estatísticas numéricas e geográficas, e tem uns players super bonitos, que se adequam a qualquer espaço de armazenamento.

Na prática, no entanto, o troço não é tão simples. Se o teu podcast é sobre um tema não tecnológico, geralmente as pessoas que o escutam nem sabem o que é um podcast. Toparam na tua página através do google, viram um botão de play, clicaram nele, e se gostaram do que ouviram, compartilham, principalmente no Facebook.

Mas já existe um público de podcast no Brasil que gosta de receber os episódios no dia certo, ativar download automático, ser surpreendido por aquele conteúdo que acompanha por uma notificação. Este pessoal está possivelmente (ainda) na sua maioria, no iTunes, assinando teu podcast através do Apple Podcasts.

Se ele for fã do Robozinho Verde, vai de pocket casts, ou se for muquirana, vai de alguma opção gratuita infestada de propaganda.

Todo esse pessoal depende da tecnologia RSS (Real Simple Syndication), que já teve sua morte decretada diversas vezes nos canais nerds da internet.

O SoundCloud é desenhado para compartilhar música, e por muito tempo, era bastante complicado usá-lo para armazenar podcasts. Vladimir Campos enfrentou essa época, e conversamos sobre esses problemas várias vezes, através dos diversos canais que alimentam nossa amizade virtual.

Desde 2011, é possível usá-lo para este fim, mas o contato via e-mail com eles, segundo vários amigos me reportaram pessoalmente diversas vezes, era menos responsivo do que se poderia esperar. No entanto, desde o dia 28 de abril de 2015, eles abriram sua plataforma para podcasters publicamente.

Tomaram quatro anos para evoluir a plataforma a esse ponto. Hoje, eles têm até uma página em português explicando como fazer seu podcast no serviço. E pelo preço que cobram, é tentador para muitos, como foi para mim, e como o Vlad comprou a idéia.

No entanto — e não posso culpá-los por isso — eles não querem vários podcasts hospedados na mesma conta. Provavelmente, do ponto de vista deles, isso seria barato demais. Na minha opinião, estão enganados. Ganhariam por volume de assinantes. Mas eles devem ter fontes mais confiáveis que meus instintos, para tomar suas decisões de negócios.

Muitos podcasters americanos e britânicos vêem a estratégia do Soundcloud com extrema desconfiança, e compartilham comigo o aturdimento em relação à decisão de deixar o link mp3 tão escondido. Nós, podcasters, precisamos dele para referenciá-lo no arquivo XML (o esqueleto da tecnologia RSS) que vai entregar o episódio no tempo que você espera. O link deles só é referenciado por eles, nas entranhas do RSS deles. Portanto, se eu pegar o RSS do SoundCloud, submetê-lo ao iTunes, ou ao Stitcher, uma outra plataforma de distribuição de podcasts recentemente adquirida pelo Deezer, problema resolvido.

Quer dizer, problema resolvido se eu tiver apenas um podcast sendo publicado lá. Claro que eu posso usar a conta para apenas um dos podcasts, e publicar os demais como playlists, você não precisaria ouvir TUDO o que eu falo na internet. Tem gente que curte, mas acho que não é a maioria das pessoas, a experiência e a intuição me informam. Caso você quisesse mesmo fazer isso, bastaria me seguir no soundcloud, e veria meus sons públicos na minha timeline, que incluem Músicas que canto, piadas, poemas, e até a famosa vaia cearense. Nada disso você receberia no seu podcatcher preferido, porque eu preciso marcar que quero que um áudio vá para o RSS do SoundCloud, para que isso aconteça.

Mas não é isso que eu quis fazer. Eu usei sites como este e este para colar o link de cada episódio, e usá-lo livremente no meu próprio RSS.

Há cinco dias, eles descobriram como quebrar o hack que os caras usavam para gerar um link mp3 que, além de ser usável para o fim que eu desejava, ainda contava como download nas estatísticas do site deles. Um puta hack, você tem que admitir. O impacto nos meus downloads foi devastador.

Comparem minha audiência antes e depois do ataque terrorista do @SoundCloud aos MEUS links mp3. pic.twitter.com/BVIvynSenR
— Alexandre Costa (@alexandre786) 13 outubro 2015

Gravei uma queixa em inglês no próprio SoundCloud, e enviei o link para o email de suporte deles. Para minha surpresa, me responderam no mesmo dia:

Eu não li a letra miúda, mas seu o meu inglês ainda presta, eles me mandaram um educado cease and desist extra-judicial. E eu fiquei puto, mas entendi os motivos deles. E desisti. Os hackers continuam trabalhando para contornar o que eles quebraram. Não me importo. Não vou entrar num jogo de gato-e-rato com um serviço que aprendi a admirar.

Assim, decidi retomar minha assinatura Libsyn 400, que me custará mais $20 mensais (isso aí, sem “R”, 20 Obamas, mesmo) para ter uma quota de 400MB de downloads no Libsyn. Este último é o queridinho dos podcasters gringos. É o maior provedor de hospedagem de mídia do mundo, concorrendo diretamente com o Blubrry por este título. É um serviço criado por podcasters para podcasters.

Ele me mostra exatamente quantas pessoas, onde estão, que tecnologia usam, para ouvir meus podcasts. As estatísticas são MUITO mais completas que as do SoundCloud, que focam mais nos dados geográficos, e são imprecisos quanto à tecnologia usada pelos ouvintes para consumir minha mídia.

Deste modo, vou passar a produzir duas versões de cada um dos meus podcasts. O negrito é para indicar que nem todo áudio que publico na web é um podcast. Vou usar o player do soundcloud diretamente no post do episódio, e o código

<p class=”for-syndicate”>&Aacute;udio deste epis&oacute;dio para <a href=”http://traffic.libsyn.com/alexandrecosta/iTH063_libsyn.mp3">download</a></p>

para inserir um link de download no post, que devido ao atributo class da tag <p>, irá indicar ao renderizador de RSS que aquele link, e não o do player do soundcloud está sendo distribuído como podcast. Sendo assim, acredito que estarei sendo um cidadão SoundCloud educado (embora $20 mais pobre) e ao mesmo tempo obtendo uma estimativa tão precisa quanto possível de quantos e onde estão os ouvintes dos meus podcasts (e dos meus áudios no SoundCloud).

Meu fluxo de trabalho na produção do T&P

Mas porque é tão importante pra você saber quantas pessoas te ouvem?

Ah, por vários motivos. Para mim, pelo menos no momento, é porque tiro quase todo o incentivo que tenho para produzir conteúdo para a internet da atenção que recebo, e a maioria das pessoas te ouve e não deixa comentário em canto nenhum. Nem pra te espinafrar. Elas simplesmente não se dão ao trabalho.

Sabendo que atinjo cerca de 1500 pessoas por semana com o T&P, sinto-me mais motivado a pesquisar temas na internet e compartilhá-los com você desse jeito naturalmente “íntimo” que é espalhando a minha voz. Sou psicólogo, adoro um bom papo. Vivo disso…

O outro motivo é mercadológico e capitalista. Estou estudando modelos de monetização de de minhas atividades na internet. A crise está braba, e tem muita gente que admira o que falo. E como sei disso? Acompanhando as estatísticas dos sites que citei aqui.

Claro que não vou passar a cobrar pelo podcast. No Brasil, o efeito disso seria apenas diminuir meus ouvintes semanais de 1400 a ZERO. O iPhone Hoje já chegou a 5.000 downloads semanais, e perdi a oportunidade de capitalizá-lo, porque estava muito ocupado nos últimos doze anos construindo uma bem-sucedida carreira como psicoterapeuta.

Agora, tenho lista de espera no meu consultório. Adoro o que faço. Sou um podcaster e blogueiro hobbista. Mas sei mexer com programas complicados, e poderia ser consultor de tecnologia de vários profissionais que sentem dificuldade ao lidar com o mundo digital. Poderia ser uma segunda profissão… quem sabe?

Espero que tenha sido claro a respeito dos meus motivos, mas espero mais ainda que você deixe seus comentários aí embaixo, onde quer que esteja lendo, ou ouvindo isso.

Alexandre Costa

Originalmente escrito em 17/10/2015


Originally published at tecnologiaeprodutividade.info.

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