Feliz dia das crianças

— Você é mau — dizia o pequeno Cláudio, de cinco anos de idade, preso à cama onde aguardava pela morte. — Por quê? — eu perguntava. — Porque você vai embora.

A sessão tinha sido divertida, e estava quase terminando. Claudinho era uma das crianças internadas na ala de oncologia do Hospital Albert Sabin de Fortaleza. Ele tinha um tipo raro de tumor cerebral, com um nome que soava tão terrível quanto era: um astrocitoma de tronco cerebral. Eu era um dos psicólogos encarregados do caso.

Quando o médico disse isso nestes termos para Gláucia, a mãe, ela precisou de alguma mediação da minha parte para entender que um astrocitoma era um tumor, e que o fato de ele estar localizado no tronco cerebral — a parte do encéfalo que controla a respiração, a deglutição e outras atividades vegetetativas — significava que seu pequeno não respiraria por muito tempo.

Assim que pôde entender — nunca esqueci a beleza daquele momento — Gláucia se ergueu subitamente da cadeira e disse: — está na hora de dar a comida do Cláudio — e retirou-se da sala.

Não houve desespero, não houve gritos. Apenas um silencioso e desprendido comprometimento com a vida que restava a seu filho.

E durante os meses seguintes, que foram poucos, ela era toda sorrisos, pelo menos dentro do campo de visão do pequeno. Uma vez, no entanto, ao virar-se em minha direção, após dizer-lhe um gracejo do qual até eu havia rido, sua face derreteu-se numa tristeza que parecia estar lá o tempo todo, apenas suavemente oculta, como um gato atrás de uma cortina.

Em uma de minhas conversas com a psicóloga do setor de oncologia do hospital, perguntei-lhe para onde aquela tristeza iria, o que, em sua experiência, as pessoas faziam com aquela dor tão imensa.

Sua resposta me surpreendeu. — às vezes nada, Alexandre — ela me disse. Às vezes as pessoas apenas seguem adiante. E foi o que houve com Gláucia. Ela enterrou o filho com o choro digno do dever cumprido. Seguiu com a vida. Tem outro filho, hoje adolescente. Encontrou o amor.

Algumas lágrimas devem molhar-lhe o rosto, quando a memória de Cláudio toca-lhe as paisagens da mente. Mas deve ser aquele tom melancólico sem o qual uma pintura é apenas um esboço, uma oração apenas uma ladainha repetitiva, e uma dança, apenas um exercício cansativo.

É, Claudinho, eu sou mau. Vou embora, como tu foste. Deus me dê algo da força que a tua mãe teve para continuar caminhando quando se forem os meus, e quando chegar o meu dia.

A dor de meus últimos dias me lembrou Claudinho e sua dor, sua solidão, sua impossibilidade de brincar com os outros garotos de cinco anos.

Que seja para sempre a hora do recreio em tua escola agora, menininho. Feliz dia das crianças.

Alexandre Costa e Silva
11/10/2015


Originalmente publicado em diariodeumpsicoterapeuta.wordpress.com em 11 de Outubro de 2015.